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"A Purga." O filme que terá servido de mote ao caos em Baltimore

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Os violentos confrontos na cidade norte-americana terão sido inspirados num filme de 2013, produzido em Hollywood. Os confrontos acabaram por se misturar com os protestos contra a morte de um jovem negro e, na noite desta segunda-feira, atingiram o pico máximo.

O encontro estava marcado para o centro comercial de Mondawmin, em Baltimore, Estados Unidos, para segunda-feira depois das aulas. Segundo a polícia local, há indícios de que os jovens estivessem a preparar uma ação inspirada no filme "A Purga", em que durante 12 horas todos os assaltos, homicídios e outros tipos de crimes são praticados sem serem punidos.

O filme de 2013 retrata uma sociedade futurista, em que uma vez por ano, e durante algumas horas, todas as leis são suspensas. O jornal "The Baltimore Sun" avança que este terá sido o mote para os mais recentes e violentos confrontos na cidade da costa leste dos EUA. 

"Recebemos a informação de que o centro comercial de Mondawmin ia ser palco de uma grande 'purga', protagonizada por estudantes de toda a cidade. Tínhamos cerca 250 a 300 polícias no local à hora em que os alunos saem das escolas", disse o comissário da Polícia de Baltimore, Anthony Batts, citado pelo "The Baltimore Sun".

No centro comercial, os jovens começaram a atirar objetos contra a polícia, que foi obrigada a esconder-se. Neste confronto ficaram feridos 15 agentes, seis deles em estado grave. "Penso que eles acham que é giro atirar blocos de cimento à polícia", declarou Batts.

O canal de televisão CNN avança que os protestos se prolongaram noite dentro e que foi na madrugada desta terça-feira que o pandemónio se instalou na zona oeste de Baltimore. 

Jovens manifestantes exibem-se sobre um carro da polícia de Baltimore completamente destruído, durante os confrontos de segunda-feira que acabaram por determinar o recolher obrigatório

Jovens manifestantes exibem-se sobre um carro da polícia de Baltimore completamente destruído, durante os confrontos de segunda-feira que acabaram por determinar o recolher obrigatório

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Paralelamente, as autoridades temem estar perante uma ameaça credível de gangues, que possam aproveitar-se da confusão instaurada para matar agentes. "A Polícia recebeu informação credível, que refere que membros de vários grupos, entre os quais o Black Guerilla Family, o Bloods e o Crips, são parceiros para 'tratar' dos polícias. Esta é uma ameaça credível", disseram as autoridades, citadas pela CNN.

Para garantir a segurança dos habitantes de Baltimore, foi decretado recolher obrigatório entre as 22h e as 5h, pelo menos até dia 4 de maio.

Até agora não há vítimas mortais registadas nos confrontos, mas pelo menos 24 pessoas foram detidas.

De Hollywood para a realidade O filme "A Purga", estreado em 2013, tem realização de James DeMonaco. O argumento antecipa uma visão dos Estados Unidos de 2022, em que o Governo autoriza, todos os anos, um período de 12 horas sem leis. Toda a atividade criminosa, como assassínios e roubos, são legais, a polícia não pode ser chamada e os hospitais estão encerrados. 

O thriller hollywoodesco segue uma família ao longo de uma noite, quando um intruso invade a casa de James Sandin (Ethan Hawke). James, a mulher, Maria (Lena Headey) e os filhos tentam sobreviver a essas 12 horas de inferno e peripécias várias sem se transformarem nos monstros de que se escondem.

Inspirados ou não neste cenário futurista, os confrontos saltaram para fora da tela de cinema e na última noite atingiram o pico máximo em Baltimora. Os atos violentos acabaram por se misturar com outros protestos contra a morte de Freddie Gray, um jovem negro, de 25 anos, que morreu a 19 de abril, em circunstâncias ainda não esclarecidas, quando estava sob custódia policial.

A própria família de Grey já veio esclarecer que estes confrontos nada têm a ver com a detenção e consequente morte de Freddy. "Eu não acho que isto seja por ele. Esta violência está errada", disse Fredericka, irmã gémea de Freddy Grey.

Pela voz do advogado Billy Murp, a família de Grey apela ao fim da violência e considera-a injustificável. "Não merecem isto, tal como Freddy Grey não mereceu", disse Murp, citado pelo canal de televisão norte-americano CNN.

Durante vários dias, os protestos contra o uso da violência em comunidades minoritárias estiveram nas ruas de Baltimore de forma pacífica, com o objetivo de obter reposta sobre o que aconteceu ao jovem negro. 

A polícia de Baltimore admitiu, na passada sexta-feira, que Freddy deveria ter recebido assistência médica imediatamente depois de ter sido detido, o que não aconteceu. Quando faleceu, 80% da sua coluna vertebral estava magoada na zona das cervicais, segundo os advogados da família. 

Entretanto, seis agentes já foram suspensos e aguarda-se agora que a polícia entregue, a 1 de maio, as conclusões do inquérito interno ao procurador do estado de Maryland, que pode decidir abrir um processo.