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A explicação do sismo no Nepal ajuda a perceber porque os Himalaias são o teto do mundo

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Navesh ChitrakarReuters

As placas tectónicas indiana e euroasiática colidiram e fraturaram, provocando uma libertação da energia que fez a terra abrir no Nepal. Mas como é que estes fenómenos acontecem? E podem ocorrer noutros países? A resposta é sim. E Portugal "tem que estar preparado", avisa uma sismóloga. O Expresso explica-lhe tudo.

O sismo que fez tremer o Nepal no passado sábado teve uma magnitude de 7,8. O número de mortos não para de aumentar e já ultrapassou os cinco mil. O cenário é devastador para os habitantes e para os envolvidos nas operações de resgate, que correm contrarrelógio para conseguirem salvar mais pessoas.

As réplicas têm feito sentir-se e vão prolongar-se nas próximas semanas, estimando-se que possam atingir os 5 graus de magnitude. Ao olharmos para estes números assombrosos, a pergunta coloca-se: porque é que estes sismo atingem valores tão altos? O Expresso foi à procura de respostas.

A sismóloga Susana Custódio, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica que este sismo aconteceu na fronteira entre as placas tectónicas indiana e euroasiática. "A superfície da Terra é composta por placas tectónicas, que se encaixam como peças de puzzles. As placas movem-se, cada uma em sua direção, devido à dinâmica do interior do planeta. Nas fronteiras entre placas, as placas podem colidir, afastar-se, ou deslizar lateralmente uma em relação à outra. Esses movimentos geram sismos. O sismo do Nepal resultou da colisão da placa indiana com a placa euroasiática.

E adianta: "Neste caso, a placa indiana foi-se 'enterrando' lentamente por debaixo da placa euroasiática. Ao longo do tempo ambas foram acumulando tensão e, quando chegaram ao limite da elasticidade, fraturaram, libertando parte da energia acumulada em ondas sísmicas", refere a sismóloga.

O deslocamento máximo das placas foi de três metros e meio ao longo de uma falha sísmica de 150 quilómetros de comprimento e 80 de largura. Este avanço de uma placa em relação à outra, que aconteceu sobretudo no interior da Terra e não à superfície, foi suficiente para o sismo ter uma magnitude de 7,8. Susana Custódio salienta que se esse deslizamento máximo entre as placas tivesse ocorrido à superfície, teríamos visto uma escarpa de três metros e meio a emergir na superfície da Terra.

A falha onde o sismo ocorreu tem uma inclinação de 10 graus, sendo uma superfície quase horizontal, o que fez com que o terramoto fosse sentido numa área mais extensa, por ter uma inclinação "muito baixa". Se a falha fosse vertical, a área atingida seria menor, refere a sismóloga.

ABIR ABDULLAH/EPA

Sismo já era previsto

Uma semana antes deste sismo acontecer, uma equipa liderada por Laurent Bollinger, que pertence à Comissão para a Energia Atómica e Alternativas, um instituto francês de investigação, ao analisar os registos históricos dos terramotos no Nepal concluiu que era previsível ocorrer um sismo no local onde ocorreu o sismo de sábado.

A sismóloga da Universidade de Lisboa clarifica que era já previsível um tremor de terra no Nepal, porque o país está "situado numa zona de fronteira e, em todas as zonas entre fronteiras de placas tectónicas, esperamos que aconteçam sismos de elevada magnitude".

Há dezenas de milhões de anos, a Índia estava afastada do continente asiático e, em redor desta placa, havia um oceano que atualmente não existe. Susana Custódio explica ao Expresso que "quando uma placa oceânica colide com uma continental, a primeira afunda para dentro da Terra. É o fenómeno de subducção. Ao longo dos anos, o oceano a norte da Índia desapareceu gradualmente, até toda a placa oceânica se dissipar. Depois, passámos a ter uma colisão entre dois continentes".

E acrescenta: "Há 45 milhões de anos, os dois continentes [indiano e asiático] começaram a tocar um no outro e como os dois têm a mesma densidade nenhum quis afundar-se. As duas placas continentais começaram a comprimir-se mutuamente, dobrando-se e fraturando-se ao longo de várias falhas. Foi assim que os Himalaias se foram elevando. Ao longo das falhas vão ocorrendo sismos, que permitem que um bloco avance sobre o outro, e que assim vão acomodando a compressão entre as placas", diz, salientando que por esta razão aquela zona tem uma atividade sísmica elevada.

Veja o vídeo abaixo, realizado por alguns estudiosos desta colisão, para entender melhor este fenómeno. 

 

O sismo e as réplicas  Este sismo, que teve o epicentro localizado a 80 quilómetros a leste de Pokhara, no Nepal, devastou várias zonas do país e foi sentido ainda na Índia, China e Bangladesh. Muitas pessoas ficaram sem casa. Monumentos foram completamente destruídos. Milhares de pessoas têm passado as noites em acampamentos, instalados em vários pontos de Katmandu, a capital nepalesa. Umas por terem ficado sem abrigo, outras receosas por poderem perdê-los com as réplicas que vão prolongar-se durante cerca de um mês (ver imagem mais abaixo). 

Para Susana Custódio, existem algumas razões para o sismo ter provocado tantos danos, como a resistência dos edifícios, que "é fraca", e ainda a profundidade a que ocorreu o tremor de terra, que foi "baixa, ou seja, muito superficial". Há que contar ainda com o facto do solo na zona a sul de Katmandu ter uma camada significativa de sedimentos que amplifica as ondas sísmicas, tornando a vibração do solo "ainda mais intensa".

Wolfgang Rattay/Reuters

Desde sábado, as réplicas têm feito sentir-se e vão continuar durante um mês. Os cientistas do Instituto Norte-Americano de Geofísica (USGS) preveem que nos próximos 30 dias ocorram mais de 30 réplicas, todas com magnitudes de 5 graus e até superiores. A sismóloga explica ao Expresso que estas réplicas podem mesmo durar anos, porque durante um sismo a litosfera fratura-se devido ao deslizamento quase instantâneo numa das placas em relação à outra. E depois tem de haver reajustes, "o que pode durar bastante tempo e provocar as réplicas". 

Um cenário semelhante em Portugal?  Quando questionada sobre a possibilidade de existir um sismo com a mesma intensidade em Lisboa, Susana Custódia recorda: "Estima-se que o de 1755 teve uma magnitude bastante mais elevada. E sim, temos que estar preparados. Eles já aconteceram ao longo da nossa história, e certamente vão voltar a acontecer. Estamos ao lado de uma fronteira entre as placas africana e euroasiática, que nasce nos Açores e passa a sul de Portugal continental." 

Relativamente a outros países, também existe a probabilidade de ocorrência de sismos violentos. Turquia, Chile e Japão possuem grandes falhas tectónicas que se deformam mais rapidamente, daí que sejam palco de sismos com maior frequência.

"Os sismos muito grandes ocorrem, normalmente, nas fronteiras entre placas tectónicas, mas também podem acontecer dentro das mesmas. As zonas de fronteiras entre placas incluem o bordo do oceano Pacífico, desde o Chile, toda a costa oeste americana, incluindo são Francisco, Seattle, Alasca e Japão, e Indonésia. Perto de nós, temos uma zona de fronteira entre placas no Mediterrâneo", conclui.