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A coragem das pessoas decentes e inocentes

Milhares de pessoas depositaram esta terça-feira ramos de flores no passeio de Martin Place, em homenagem às pessoas que morreram segunda-feira junto àquele local

Dean Lewins/EPA

Oficialmente, é um mistério: ninguém sabe o que realmente aconteceu no café em Sydney onde um refugiado iraniano sequestrou quem lá estava e o mundo inteiro. O Governo elogia a coragem das "pessoas decentes e inocentes" que ficaram reféns face à "fantasia doente de um indivíduo profundamente perturbado", a imprensa local dá rostos ao heroísmo. Dois, mais precisamente.

Chamava-se Tori Johnson e era o gerente do estabelecimento em Sydney onde tudo aconteceu: durante 16 horas, quase duas dezenas de pessoas estiveram sequestradas naquele café onde estivemos todos. Morreram três, depois de a polícia intervir: o próprio sequestrador e dois reféns. Incluindo Tori Johnson, que poderá ter tentado desarmar o raptor - é relato que vem na imprensa local. Que adianta mais: foi o ato do gerente que desencadeou a operação das autoridades.

Ainda há muito por esclarecer. A investigação independente, que irá procurar apurar o que sucedeu, poderá durar "semanas", mas os responsáveis policiais defenderam esta terça-feira o modo como atuaram.

"Se (a polícia) não tivesse entrado, teria havido mais mortos. Salvaram-se vidas", disse o comissário da polícia do estado de Nova Gales do Sul, Andrew Scipione. "Eles não tinham alternativa", acrescentou.

Entre os três mortos encontra-se o sequestrador, o refugiado iraniano Man Haron Monis, o gerente do café e Katrina Dawson, uma advogada australiana de 38 anos e mãe de três crianças. Segundo a Australia News.com, Dawson terá sido morta ao tentar defender uma refém que se encontrava grávida.

Os seis feridos, cinco mulheres e um agente, que foram assistidos em hospitais da zona, encontram-se com um quadro estável. Três dos seis feridos ficaram feridos em sequência de disparos, mas não se sabe se foram alvejados pelo sequestrador ou pela polícia.

Como é possível?

Milhares de pessoas depositaram esta terça-feira ramos de flores no passeio de Martin Place, em homenagem às pessoas que morreram. As bandeiras foram colocadas a meia haste por toda a Austrália, em dia de luto nacional. O primeiro-ministro, Tony Abbott, deu uma conferência de imprensa em que qualificou o sucedido como um ato de terrorismo, deu as condolências aos familiares das vítimas e elogiou a coragem das "pessoas decentes e inocentes" que ficaram reféns face à "fantasia doente de um indivíduo profundamente perturbado".

"Não somos imunes à violência com motivações políticas que tem perseguido outros países", acrescentou Tony Abbott.

Entretanto, aviva-se o debate no país, que se questiona como foi possível que um indivíduo com o historial criminal e de perturbação do sequestrador pudesse permanecer nas ruas e com acesso a armas.

Man Haron Monis tinha 50 anos e obtivera asilo político na Austrália, após ter abandonado o seu país, o Irão, em 1996. Designava-se "clérigo muçulmano e ativista da paz".

No ano passado, foi acusado de estar envolvido no homicídio da sua ex-mulher e mãe de dois dos seus filhos, e ainda indiciado em cerca de 50 crimes de natureza sexual.

Mas desde há sete anos que já estava na mira das autoridades australianas por ter enviado cartas ofensivas para familiares de soldados mortos entre 2007 e 2009.

"Terão de se colocar duras questões sobre se os nossos sistemas para identificar potenciais perpetradores de crimes terroristas como este são suficientemente bons", afirmou Rory Medcalf, diretor de um programa sobre segurança do Instituto australiano Lowy, citado pela "Time".

Uma nova legislação, que deverá entrar em vigor no próximo ano em Nova Gales do Sul, poderia ter permitido controlar um indivíduo com aquelas características, defendeu o procurador geral do Estado, Brad Hazzard, em declarações à Australian Broadcasting Corp. (ABC).

Analistas advertem que atos isolados de indivíduos perturbados não devem ser utilizados para que o Governo australiano aumente as restrições aos que procuram obter asilo político no país.

"A Austrália foi criada por estrangeiros. Eu espero que nós continuemos a deixar entrar gente de outras nacionalidades na Austrália. Isso torna-a num local muito mais interessante, saudável e próspero", afirmou à "Time" Clarke Jones, especialista em terrorismo do Colégio Universitário Australiano para a Ásia e Pacífico.