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A ameaça de Cabul, a responsabilidade da NATO e os riscos para o Paquistão

Voluntários paquistaneses transportam o caixão com uma das vítimas mortais do ataque dos talibãs, esta terça-feira, contra uma escola em Peshawar

A.Majeed/AFP/Getty Images

O investigador Carlos Gaspar sublinha que o ataque a uma escola militar em Peshawar ocorre numa altura de mudanças no movimento talibã paquistanês.

Não há dúvida de que o 11 de Setembro alertou o mundo para a ameaça da Al-Qaeda e que a intervenção militar do Ocidente foi um passo importante no combate ao terrorismo. No entanto, os movimentos de insurgência permanentes no Médio Oriente poderão conduzir a cenários de guerra civil. E é, sobretudo, o clima de instabilidade no Afeganistão e o movimento talibã no país que constituem o maior risco para o Paquistão, que foi esta terça-feira palco de um ataque a uma escola, defende ao Expresso Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).  

"O Paquistão quer ter uma posição predominante no Afeganistão e usa os talibãs para esse efeito. Por outro lado, a instabilidade no país vizinho pode projetar-se também internamente, podendo originar situações horrendas como esta do ataque a uma escola em Peshawar", diz Carlos Gaspar.

De acordo com o especialista, o contexto do ataque em Peshawar não é "evidente", uma vez que coincide com mudanças internas no movimento talibã paquistanês. "Há um contexto instável, uma vez que o movimento no país está numa fase de divisão sectária, sendo difícil relacionar automaticamente as coisas", afirma.

Há que destacar também, na opinião de Carlos Gaspar, que os movimentos dos jihadistas estão a ser atravessados por grandes divisões políticas e ideológicas, motivadas pela visibilidade internacional do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, na sequência dos episódios das decapitações. "Também este movimento ganhou um prestígio entre os jihadistas e uma força não apenas na Europa Ocidental ou na Austrália, mas também no Paquistão e na Índia. Os extremistas, os mais radicais, estão a juntar-se a esse movimento e a criar divisões internas nestes terroristas locais", destaca.

Para Carlos Gaspar, o Paquistão tem uma "estratégia diplomática" mas "ambígua" em relação ao Afeganistão. Por um lado, o país tem relações muito fortes com movimentos insurgentes, designadamente os talibãs no Afeganistão, que lembra serem diferentes dos talibãs no Paquistão. Por outro, as elites paquistanesas consideram a estabilidade uma estratégia mais adequada.

Com a retirada das forças ocidentais na região, os riscos são elevados, diz o especialista. Na sua perspetiva, não há ainda uma estratégia de regionalização, ou seja, de transferência das responsabilidades que a NATO assumiu em nome das Nações Unidas (ONU) e da comunidade internacional para forças regionais, sendo que as forças afegãs não têm ainda capacidade para garantir a segurança do país.

"A estratégia da segurança afegã está longe de estar definida. É complicado obviamente criar as condições para uma maior integração regional, designadamente da Índia. Porque a rivalidade entre o Paquistão e a Índia interfere nas estratégias que se possam desenhar neste sentido. A China também quer uma presença no Afeganistão e tem um plano muito ativo em relação a esta zona da Ásia", sustenta Carlos Gaspar.

A médio prazo, a maior dúvida é perceber se haverá o regresso a uma guerra civil ao Afeganistão e se a situação se generaliza ao Paquistão, sendo vital garantir a segurança do país, defende o especialista. "É certo que a NATO fez a sua parte e  tem outras prioridades, mas penso que devia haver uma reflexão não necessariamente por causa deste atentado horrível em Peshawar, mas pelo estado das forças de segurança afegãs." Em causa, acrescenta, deveria estar a possibilidade de existirem formas de apoio sustentáveis de longa duração para enquadramento das autoridades.

"É horrível pensar que se pode repetir o que se passou há 20 anos, quando o regime comunista caiu e ninguém estava preparado para preencher o vazio a não ser os talibãs e os seus aliados paquistaneses e o que se seguiu a partir daí é bem conhecido: guerra civil,  Al-Qaeda e 11 de Setembro. É preciso evitar que esse cenário de catástrofe se repita e fazer com que a saída da NATO não signifique um regresso da violência no Afeganistão, o que seria terrível para a Aliança Atlântica  e obviamente para o Afeganistão e para a estabilidade regional", conclui o especialista.

Um ataque a uma escola em Peshawar, no noroeste do Paquistão, causou esta terça-feira pelo menos 141 mortos - 132 crianças e nove funcionários - além de centenas de feridos. A autoria do atentado foi assumida elo grupo Tehreek-e-Taliban Pakistan, que pertence ao movimento talibã no país.