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A abstenção na Andaluzia é um pesadelo para os partidos tradicionais

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Beatriz representa, provavelmente, o pior pesadelo dos partidos tradicionais na Andaluzia, os socialistas do PSOE e o Partido Popular, na véspera das eleições autonómicas: tem menos de 25 anos e não vai votar no domingo, desiludida com a política.

"Trabalho todo o dia, chego a casa cansada. Não estou com cabeça para estar a ouvir um e outro, para escolher um no final. Acho, sinceramente, que são todos iguais", diz Beatriz, enquanto ajeita formulários e folhas de contrato num rent-a-car perto da principal estação ferroviária de Sevilha, a "capital" da Andaluzia.

Numa região com uma taxa de desemprego de 34% - e um desemprego jovem perto dos 50% - uma jovem abaixo dos 25 a trabalhar, e sem ser estagiária, é quase, por si só, notícia.Beatriz não desarma: os políticos, quaisquer políticos, dizem-lhe "pouco". E isso inclui Pablo Iglesias e a candidata do Podemos na Andaluzia, Teresa Rodríguez.

Nem o novo fenómeno do Podemos, que procura reunir os "jovens desiludidos da política", os que já estão cansados de tantos casos de corrupção que surgem nos jornais, quer na Andaluzia, quer a nível nacional. Por isso não vai votar no domingo, preferindo "ficar em casa".

"Presa à herança" de 33 anos de governação socialista na Andaluzia, a candidata do PSOE, Susana Díaz, é quem mais perde com a decisão de jovens como Beatriz. Ao PSOE já lhe bastam os mais de 1,3 milhões de desempregados, que colocam a taxa de pessoas sem trabalho da Andaluzia cerca de 10 pontos percentuais abaixo da médio espanhola, mesmo sendo a maior e mais populosa região de Espanha.

Também o candidato do PP andaluz, Juan Manuel "Juanma" Moreno, sai afetado com a abstenção, como o próprio admitiu em campanha ao referir que este seria o único fenómeno a poder "frustar" as suas pretensões a ser eleito presidente da Junta da Andaluzia. 

Com a Izquierda Unida em queda livre nas sondagens, restam os partidos emergentes, como o Podemos (Teresa Rodríguez) e Ciudadanos (Juan Marín). As sondagens indicam que poderá sair de entre estes dois a grande surpresa de domingo, sobretudo porque o PSOE (apontado como vencedor, mas sem maioria absoluta) terá de fazer coligações pós-eleitorais para formar governo. 

Como os socialistas já fecharam a porta ao Podemos (pelo menos assim o disseram no decorrer da campanha) e forçaram estas eleições devido a "instabilidade" na coligação com a Izquierda Unida, resta o Ciudadanos (que também não fechou a porta a ser "parceiro de dança" com o PSOE). 

Não muito longe, num café da Estação ferroviária de Santa Justa, Maria (nome fictício) serve às mesas. E provavelmente não vai votar no domingo. "Provavelmente não. Nenhum deles me diz nada", responde. Mais um pesadelo para o bipartidarismo.

A pergunta de seguimento surge rápida: "E os novos que chegam agora? O Podemos ou o Ciudadanos?". "Esses então ainda menos", atira, com um cerrado sotaque andaluz. E volta para o balcão.

Nas eleições de 2012 a abstenção nas eleições andaluzas foi de 37,8%, mas as mais recentes sondagens indicam que poderá ficar abaixo este ano, nos 31%.