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Emmett Till foi linchado há mais de 60 anos. A investigação à sua morte vai ser reaberta

A luta pelos direitos civis na América começou pouco depois da morte atroz do jovem Emmett Till, em 1955

Bettmann/Getty

A morte de Emmett Till foi um choque para a comunidade negra dos Estados Unidos. O jovem de 14 anos foi espancado e atirado a um rio, mas os dois principais suspeitos foram absolvidos. Agora, há quem admita ter dado ao tribunal um testemunho falso

Ana França

Ana França

Jornalista

Na época dos linchamentos no “Sul Profundo” dos Estados Unidos, houve uma história que se transformou em pólvora. De visita à casa de familiares em Money, uma zona rural do Mississippi, Emmett Till, um jovem negro de 14 anos, foi morto por dois homens brancos por ter alegadamente assediado Carolyn Bryant.

O jovem foi levado da sua cama a meio da noite do dia 28 de agosto de 1955, espancando até ser impossível reconhecer os traços do seu rosto, amarrado, com arame farpado no pescoço, a uma ventoinha de separar algodão e atirado ao rio Tallahatchie. Mais de 60 anos após o crime, o governo federal prepara-se para reabrir o seu caso, escreve a revista TIME. Tinha sido dado como encerrado em 2017 já que os dois principais suspeitos estão mortos e não havia provas para indiciar mais ninguém.

A nota enviada pelo Departamento de Justiça ao Congresso norte-americano a informar sobre a reabertura do caso não adianta as razões para este renovado interesse na morte do adolescente, mas a imprensa norte-americana está a avançar que foi o livro do historiador Timothy Tyson, “O Sangue de Emmett Till”, que levou as autoridades a voltar ao caso.

No livro editado no ano passado, Tyson publica uma entrevista com a mulher que acusou Till dos tais avanços sexuais não consentidos. Carolyn Bryant - agora Carolyn Donham - admite que Till nunca teve com ela as atitudes que foram descritas pela própria em tribunal e que poderão ter sido a única razão para a absolvição de Roy Bryant, na altura marido de Carolyn e do seu meio-irmão J.W. Milam. Ambos confessaram o crime pouco tempo depois numa entrevista, dizendo na altura que “não tinham feito nada de mal”. Ambos estão mortos e continua sem existir culpado oficial para o violento crime.

Em frente a um júri constituído apenas por pessoas brancas, Carolyne disse que, depois de entrar na mercearia da sua família, Till a agarrou e começou a dirigir-lhe palavras sexualmente sugestivas.

“O que é que ele disse quando lhe agarrou a mão?”, perguntou o advogado de defesa dos dois homens na altura, de acordo com a transcrição do julgamento publicada pelo FBI há dez anos. “Ele disse: ‘Então e que tal um encontro, querida?’”, disse Carolyne Bryant que, na altura com 21 anos, ter-se-á afastado de Till depois de ouvir este convite. Mas Till, segundo o seu relato, voltou a agarrá-la perto da caixa registadora, colocando as mãos à volta da sua cintura.

“Ele disse: ‘O que é querida, não aguentas? Não precisas de ter medo de mim’”, contou a mulher em tribunal que acrescentou que, depois disso, Till ter-lhe-á descrito as “obscenidades” que já teria realizado com “outras mulheres brancas”. O juiz não admitiu o testemunho, mas os dois principais suspeitos foram libertados.

No livro, Carolyn Dohnam é citada confessando que “essa parte não é verdade”, referindo-se ao suposto assédio do jovem de Chicago. “Nada do que o rapaz fez poderia algum dia justificar aquilo que lhe aconteceu”, disse ainda a mulher agora com 84 anos.

A morte do jovem é hoje considerada pelos historiadores como um dos catalisadores do movimento de luta pelos direitos civis que tomou os Estados Unidos nos anos 1960. As ruas encheram-se de protestos, e neles participaram os então anónimos Martin Luther King e Rosa Parks. Poucos meses depois do homicídio de Emmett Till, Parks haveria de se recusar a oferecer o seu lugar a um branco num autocarro e haveria de justificar o ato como uma homenagem ao jovem assassinado.