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Como está a “relação especial” entre EUA e Reino Unido? É complicado

WPA Pool/Getty

Depois de na cimeira da NATO ter ameaçado retirar os EUA da Aliança Atlântica, Donald Trump já está no Reino Unido para se encontrar com a primeira-ministra e tomar chá com a Rainha. Mas que importância tem esta visita? O Presidente dos EUA parece estar só de passagem, numa escala entre Bruxelas e Helsínquia, e evitando os protestos. Já Theresa May aposta todas as fichas que tem (e não são muitas) na “aliança forte” com o parceiro do outro lado do Atlântico para o pós-Brexit

A primeira-ministra britânica, Theresa May, está muito provavelmente a viver a sua mais dura semana política desde que ocupa o número 10 da Downing Street. No domingo, o ministro para a saída da União Europeia (UE), David Davis, demitiu-se. No dia seguinte, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, anunciava que também abandonava o elenco governativo. A chefe do Executivo bem precisava do apoio do Presidente dos EUA, país com o qual o Reino Unido mantém “a aliança mais forte” e uma “relação especial” – as palavras são dela. Mas tudo indica que Donald Trump, que já se encontra em solo britânico para uma visita de quatro dias, não lhe dará a mão.

Para Eduardo Paz Ferreira, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e autor do livro “Os Anos Trump – O Mundo em Transe” (Gradiva, 2018), “as expetativas são baixas”. Ou melhor: “são altas numa coisa, na grande contestação que vai existir, nos protestos com aqueles balões fantásticos do Bebé Trump”, diz ao Expresso. A visita insere-se no périplo europeu de Trump, que já o levou a Bruxelas para a cimeira da NATO e que na segunda-feira o levará a Helsínquia para um encontro com o Presidente russo Vladimir Putin.

O investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) Bernardo Pires de Lima concorda que do encontro entre May e Trump não sairá grande coisa. “O facto de esta nova visita [depois de uma outra programada para janeiro ter sido cancelada] estar encaixada entre uma cimeira da NATO e uma reunião importante com Putin só desvaloriza a relação bilateral com o Reino Unido”, avalia. Na opinião do investigador, Trump terá pensado “já que estou na Europa, também vou ali a Londres”.

“Ninguém em Washington fala em 'special relationship'”

“O conceito de relação especial com que nos habituámos a caracterizar esta relação não tem hoje nenhum cabimento. Aliás, ele já era muito mais usado pelo parceiro júnior, Inglaterra, do que pelos EUA. Ninguém em Washington fala em ‘special relationship’”, sentencia Bernardo Pires de Lima. Eduardo Paz Ferreira contrapõe: “De alguma forma, Trump quererá dar uma imagem de que a velha e especial relação com o Reino Unido se mantém, mas é duvidoso que vá muito longe”.

O programa da visita foi concebido de forma a evitar “confrontos diretos” com os manifestantes e “grandes exposições” do Presidente dos EUA, lembra o autor do livro sobre os efeitos mundiais da era Trump. May recebe-o esta quinta-feira no Palácio de Blenheim, nos arredores de Londres, para um jantar de gala com empresários e personalidades de vários setores. Os deputados pediram aos líderes das duas câmaras parlamentares do Reino Unido que Trump não discursasse em Westminster, como fazem todos os dignitários convidados. Em causa está o impedimento americano à entrada de pessoas de sete países de maioria muçulmana.

“Boris Johnson também dava um bom bebé”

“Há uns meses, Theresa May andava a tentar negociar um acordo comercial bilateral com os EUA como forma de compensação pela saída da UE, mas parece difícil que Trump esteja disponível para acordos de comércio livre”, prognostica Eduardo Paz Ferreira. “A esperança, desde a primeira hora em que se conheceu o resultado do referendo [ao Brexit], era a de que os EUA estariam na primeira linha de uma geografia compensatória à saída da UE. Isto nunca aconteceu. Os EUA não só cancelaram encontros bilaterais como nunca assumiram nenhum roteiro sobre acordos bilaterais de comércio com o Reino Unido”, concorda Bernardo Pires de Lima.

Pior: “a empatia entre os principais atores políticos de um lado e do outro é fraca, além de Trump ter sinalizado imediatamente que mais depressa receberia o senhor [Nigel] Farage do UKIP [Partido de Independência do Reino Unido] do que a senhora May, como aconteceu na Casa Branca”, acrescenta o investigador. Além de Farage, há um outro nome que se destaca na lista de preferências de Trump, muito antes da primeira-ministra britânica. É o de Boris Johnson, o seu “grande amigo”. “Para Theresa May, não vejo qualquer vantagem na visita. Só acentua a sua proximidade a opções políticas que eram especialmente simbolizadas por Johnson. Mas as culpas não podem ficar todas com Johnson, apesar de ele também dar um bom bebé”, ironiza Eduardo Paz Ferreira.

O Reino Unido num limbo e o desespero de May

“May tem insistido num plano que acautele as relações com o mercado único – é isso que leva à demissão de Boris Johnson e de David Davis. E acalenta tornar a relação com os EUA a relação-charneira do pós-saída. Mas o que tem recebido de Washington são sinais muito tímidos”, defende o investigador do IPRI. Assim, “o Reino Unido fica a meio caminho de tudo, fica num limbo geopolítico”, prossegue. E, no entanto, na véspera, May divulgou um comunicado em que dizia que a visita de Trump é uma “oportunidade para aprofundar essa relação comercial única e iniciar discussões” sobre a formação de uma parceria comercial “fortalecida, ambiciosa e preparada para o futuro”.

A primeira-ministra britânica está “desesperada e tenta agarrar uma prancha de salvação”, diagnostica o professor de Direito. “Sairão umas frases mais ou menos ocas apontando no sentido da vitória de ambos os lados. Para Trump, será importante mostrar à Rússia que tem uns aliados ocidentais, que não está em guerra com a Europa em si e, por isso, terá alguma utilidade. Mas são pequenas subtilezas que não resistem à análise global da situação”, diz ainda Eduardo Paz Ferreira. Atualmente, “os EUA têm uma posição de vergar e diminuir a capacidade negocial da outra parte para tirar o melhor dividendo possível, independentemente de ser o Reino Unido ou o Burkina Faso”, pelo que Trump escolheu deixar os ingleses a marinar “para tirar vantagens sobre um futuro acordo bilateral depois do Brexit”, antecipa Bernardo Pires de Lima.

As forças do mal

Eduardo Paz Ferreira faz questão de lembrar que “o Brexit foi a mãe de todas as desgraças”. “Foi com o Brexit que as forças do mal perceberam que podiam ter o poder suficiente para destruir estruturas políticas consolidadas”, diz. Sobre a “aliança mais forte” de que May falou, o professor de Direito comenta: “julguei que essa aliança era com Portugal, mas a História já não é o que era”. Bernardo Pires de Lima detém-se, contudo, no caso português: “pela primeira vez na democracia, dos dois aliados atlânticos, um ameaça sair da NATO e o outro sairá formalmente da UE”. “Isto é totalmente novo e vai obrigar a decisões em Portugal. E quer o Governo quer o Presidente estão completamente alinhados em assegurar todos os laços possíveis e imaginários com Londres e com Washington”, analisa.

“Não se pode ver em Trump apenas um palhaço que chega a Inglaterra, mas também o símbolo de uma política extremamente negativa”, alerta Eduardo Paz Ferreira. Por isso, “concentrar demasiado os protestos nele é porventura esquecer o que é hoje a América, como fulcro de terríveis ideias, de desprezo pelos pobres. Protestar contra Trump sempre, mas nunca esquecendo essa segunda linha de protesto, que é contra a realidade que ele simboliza”, conclui.