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Um condenado à morte quer morrer, mas há uma farmacêutica que não deixa

A execução de Scott Dozier pode vir a ser adiada devido a uma queixa por parte da farmacêutica que fornece uma das drogas presentes na mistura letal

Paul Harris/Getty

Scott Dozier foi condenado à morte e não tem um problema com isso. Quer morrer porque a vida na prisão “não é vida”. A execução estava marcada para esta quarta-feira, mas uma farmacêutica produtora de um dos medicamentos utilizados na injeção letal recusa-se a estar associada à execução porque este “cocktail” em particular nunca foi utilizado e não se sabe, sem margem para dúvida, se não provocará sofrimento físico prolongado ao condenado

Ana França

Ana França

Jornalista

“Há um limite para a quantidade de arte e de exercício físico que um tipo pode fazer na prisão”. Scott Raymond Dozier quer morrer.

Não utilizou os recursos que a lei lhe permite, estava ansiosamente à espera do dia da sua execução, marcada para esta quarta-feira numa prisão em Ely, Nevada, mas uma providência cautelar interposta por uma farmacêutica que se recusa a ver um dos seus medicamentos na mistura inédita de drogas que serão injetadas em Dozier pode parar o processo.

Scott Dozier, de 57 anos, é aquilo a que, entre os condenados à morte, se chama de “voluntário”. Já tinha tentado cometer suicídio várias vezes e já disse noutras ocasiões que a vida na prisão não é vida. Não é caso único. Cerca de 10 por cento dos 1.477 reclusos que foram condenados à morte desde 1977 abdicaram dos recursos, segundo o Centro de Informação sobre a Pena de Morte.

“Fui sempre muito claro sobre o meu desejo de ser executado, ainda que o sofrimento seja impossível de evitar”, disse Dozier numa carta escrita à mão que entregou ao juiz que, em novembro, decidiu atrasar a sua execução precisamente porque as três drogas que serão usadas para matar Dozier nunca foram testadas para este fim e poderiam fazê-lo sufocar, ainda consciente mas incapaz de se mexer.

Não é a primeira vez que estes episódios acontecem nos Estados Unidos. Um dos casos mais conhecidos é o de Dennis McGuire, condenado pela violação e homicídio de Joy Stewart, uma mulher de 22 anos, grávida na altura do crime. Segundo relatos recolhidos na altura junto das pessoas que assistiram à execução, McGuire terá tido uma reação bastante adversa à injeção letal, contorcendo-se e expressando claramente sinais de asfixia durante mais de 15 minutos antes de finalmente ser declarada a sua morte.

Desde 2014 que o estado do Ohio tinha decidido parar as execuções enquanto se averiguava que tipo de drogas utilizar, mas um juiz de um tribunal federal de recurso decidiu, em junho do ano passado, que as execuções continuariam - e que seria usada a mesma mistura de drogas. “Algum risco está sempre envolvido em qualquer método de execução - não interessa o quão humano seja. Além disso, a Constituição não garante uma execução ‘livre de dor’”, escreveu na sentença.

A situação, agora, é a mesma. É a primeira vez que o opiáceo sintético fentanil será usado numa execução, em combinação com midazolam, um sedativo, e cisatracurium, que deverá paralisar os pulmões de Dozier e, tecnicamente, causar a sua morte. O fentanil é uma página negra na recente história do consumo de drogas na América. Por ser mais fácil e mais barato de produzir que a heroína, milhares de pessoas têm morrido de overdose dado que alguns traficantes “cortam” as drogas que vendem na rua com este opiáceo, mais de 50 vezes mais forte do que a heroína. Numa entrevista à VICE News a partir da prisão, Dozier disse não ter um problema com este método não testado: “Acho ótimo. Isso mata gente por todo lado. Peguem nesse fentanil e injetem-me, porra! Usem toneladas disso”, disse.

Esta opção do estado do Nevada justifica-se com uma escassez, a nível nacional, de drogas utilizadas em penas de morte - em parte devido à objeção de consciência demonstrada por algumas farmacêuticas. A Alvogen não é a primeira farmacêutica a resistir estar associada a execuções, mas é apenas a segunda a interpor uma ação legal. Antes, só uma outra farmacêutica, do estado de Arkansas, tentou o mesmo - e não foi bem sucedida. A Alvogen alega que os responsáveis pela prisão de Ely obtiveram midazolam ilegalmente e que não têm autorização para utilizar a marca comercializada pela farmacêutica como parte do “cocktail” cujas reacções provocadas no corpo humano são desconhecidas.

Dozier é filho de um engenheiro hidráulico, veterano do Exército e pai divorciado. Durante a gravidez da sua ex-mulher, que foi de risco, Dozier tornou-se paramédico para o caso de ter que assistir. Durante esse tempo montou e geriu um negócio de produção de anfetaminas, que também consumia. O seu avô, de quem era muito próximo, suicidou-se quando Dozier tinha cinco anos e, durante as entrevistas com o psicólogo da prisão, admitiu ter sido violado por um vizinho dos cinco aos sete anos.

Em 2005, Dozier foi condenado a 22 anos por alvejar um homem de 26 anos cujo corpo foi encontrado numa sepultura pouco profunda perto da cidade de Phoenix e foi condenado à morte pelo assassinato e desmembramento de um outro jovem de 22 anos, que matou em 2002, num hotel em Las Vegas.