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Cimeira da NATO: o meu negócio é números?

KEVIN LAMARQUE/GETTY

A cimeira da NATO começa esta manhã, mas entre honras, cumprimentos e hinos o debate a sério só ocorrerá esta tarde e no “jantar de trabalho”. Até lá é preciso auscultar o semblante dos líderes e em particular de Donald Trump. Esta vai ser uma reunião em que os milhões contam

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Na terça-feira, pouco antes de embarcar rumo a Bruxelas para a cimeira da Aliança Atlântica, o Presidente americano referiu-se à Europa, comunicando publicamente que o seu país paga mais do que qualquer outro para defender o velho continente mas, em termos comerciais, perde 151 mil milhões de dólares à custa da a União Europeia".

Já em pleno voo, voltou a twitar que “os países da NATO têm de pagar MAIS e os Estados Unidos pagar MENOS”. “Muitos países da NATO, que é suposto nós defendermos, não só não cumprem o seu compromisso de 2% (que é baixo), como se mantêm há muitos anos delinquentes dos pagamentos que nunca fizeram. Vão reembolsar os EUA?”


Como cartão-de-visita para a cimeira transatlântica mais importante dos últimos tempos, o ambiente preparatório não podia ser pior.

É certo que Donald Trump gosta de frases (ou tweets) de efeito e gosta de elevar a parada para obter resultados na negociação. Tem-no feito o tempo todo desde que está na presidência, mas, ao mesmo também, tem cumprido o programa que anunciou.

Quanto
à Aliança Atlântica, não se desviou um milímetro daquilo que tem sido a sua posição: os Estados Unidos gastam demais com a defesa da Europa e esta gasta de menos. E a situação não pode manter-se como está.

Desde pelo menos Bill Clinton que esta tem sido a tónica de todas as administrações americanas (o célebre burding sharing), só que Donald Trump parece querer levá-la até às últimas consequências e não desperdiça meios nesse sentido.

O problema
é que essa vontade surge num momento particularmente difícil das relações entre Europa e EUA, e tem potencial para as agravar ainda mais.

Preparados para o pior

Depois dos últimos exemplos, em particular a cimeira do G7, em que Trump afrontou diretamente os líderes europeus, estes também parecem ter perdido as ilusões de encontrar um terreno comum de diálogo sobre valores e ideais democráticos. E, perante a imprevisibilidade do Presidente americano, preparam-se para o pior.

Os especialistas falam na possibilidade de a cimeira se concluir sem qualquer acordo. E, nas chancelarias, há também quem não esconda a possibilidade de Tump dar um sinal de desagrado, como por exemplo retirar tropas do território europeu, algo que seria inevitavelmente visto como um ato hostil.

Trump já retirou os EUA do acordo sobre o Irão (e do acordo sobre as alterações climáticas) e manifesta a sua pouca preferência pelas organizações multilaterais (retirou o país da UNESCO). No plano da NATO, tem advertido sistematicamente os aliados de que é preciso pagar mais.

Num gesto inédito, há duas semanas, enviou uma carta a alguns deles exigindo-lhes isso mesmo.

Alemanha visada

Especialmente visada a Alemanha, cujo desequilíbrio comercial em desfavor dos EUA é notório, sendo também a mais afetada caso sigam em frente, como tudo indica, as sanções relativas à indústria automóvel por parte dos EUA.

A relação pessoal entre o Presidente americano e a chanceler também tem vindo a degradar-se, ao mesmo tempo que não primam pela bonomia as relações institucionais. E a Alemanha, de facto, face ao seu peso económico, paga muito pouco pela defesa.

Só em maio Angela Merkel admitiu a possibilidade de o seu país aumentar os gastos, considerando que a meta dos 2% do PIB a que se comprometeram os aliados em 2014 na cimeira de Gales “não é um fetiche” mas que a credibilidade da Alemanha estava em jogo.

O país reduziu drasticamente os gastos militares depois da reunificação, despendendo hoje apenas 1,24% do PIB com a defesa.


A título de comparação, Portugal gasta 1,3%, segundo dados da NATO. O primeiro-ministro leva hoje a Bruxelas um plano concreto de aumento de gastos e investimentos na defesa, na qual se inclui, ao que se sabe, a compra de seis aviões brasileiros de transporte estratégico KC390, por um valor total de cerca de 600 milhões. António Costa apresenta-se acompanhado dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa.

Receios de Putin

Nesta cimeira, os aliados tentarão convencer Trump a não fazer cedência à Russia, com cujo líder, Vladimir Putin, se encontrará no dia 16. Se neste encontro houver algum tipo de compromisso no plano da segurança, dificilmente a NATO recuperará.

Antes deste encontro, o Presidente americano deslocar-se-á ainda a Londres, para uma reunião com a primeira-ministra Theresa May.


Um alto funcionário da NATO admitiu que os “aliados recebem esta cimeira com receio”, sentimento que o secretário-geral, Jens Stoltenberg se tem esforçado por apaziguar.

Depois de uma série de visitas a capitais europeias, declarou que estava confiante que o vínculo transatlântico se manterá, “apesar dos desacordos em matéria de comércio”.


Está previsto que a cimeira aprove a criação dos novos comandos em Norfolk (EUA) e Ulm (Alemanha), o início de uma operação de treino no Iraque. Menos seguro é o convite à Macedónia para negociar negociações de adesão.

Tendo em conta a imprevisibilidade de Trump, será melhor perscrutar o semblante dos aliados na altura da fotografia de grupo para perceber dos seus resultados.



PROGRAMA DO PRIMEIRO-MINISTRO NA CIMEIRA

11h10 Chegada à sede da NATO

11h30 Descerrar de placa alusiva à inauguração da Delegação portuguesa na sede da NATO

13h15 Início da sessão de cumprimentos dos Chefes de Estado e de Governo ao Secretário-Geral da NATO

13h35 Breve passagem dos Chefes de Estado e de Governo pela exposição de fotografias e objetos relacionados com as operações e missões da NATO

13h50 Cerimónia protocolar

Fotografia de família

Hino da NATO

Intervenção do Secretário-Geral da NATO

14h30 Início da reunião do Conselho do Atlântico Norte dos Chefes de Estado e de Governo

18h30 Receção de boas-vindas aos Chefes de Estado e de Governo pelo Primeiro-Ministro do Reino da Bélgica

Museu de Arte e História Cinquantenaire

19h10 Fotografia de família

19h20 Cerimónia de boas-vindas aos Chefes de Estado e de Governo

19h45 Início do jantar de trabalho dos Chefes de Estado e de Governo

Dia 12 de julho, quinta-feira

08h45 Início da reunião do Conselho do Atlântico Norte com a Geórgia e com a Ucrânia

10h30 Início da reunião do Conselho do Atlântico Norte com os Parceiros Operacionais Resolute Support Mission.

Tema: O compromisso da NATO com o Afeganistão e o processo de paz e reconciliação afegão.

12h40 Fim da reunião