Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“O treinador é provavelmente a pessoa que vai ter mais problemas” para ser resgatado: os riscos do que falta na operação na Tailândia

Três dias, 11 crianças resgatadas. O saldo das operações de resgate na Tailândia é francamente positivo. Mas, apesar da experiência dos mergulhadores envolvidos, o salvamento da criança que falta e do treinador continua a ser de alto risco. Isso viu-se aliás com a morte de um mergulhador veterano na sexta-feira. Partindo da sua experiência pessoal, um mergulhador português fala-nos dos riscos associados a esta missão - o relato é meticuloso e ilustrativo da extrema dificuldade da operação em curso, porque este é mesmo um dos mergulhos mais difíceis do mundo

Hugo Silva foi com um grupo de amigos em agosto de 2017 fazer pesca submarina ao largo da Ilha de São Jorge, nos Açores. Como habitualmente, estavam a mergulhar em duplas. O parceiro de Hugo era Rogério Cruz. A dada altura, Hugo sugere ao amigo mudarem de local e sobe para o barco. Rogério diz que vai fazer só mais um mergulho e pede a Hugo que recolha as outras pessoas. Reunida a restante equipa, Hugo perde o rasto a Rogério até que alguém avista ao fundo o que acredita ser a sua cabeça. Era, na verdade, uma boia abandonada, com limos à volta, que ao longe podia facilmente parecer a cabeça do companheiro.

“Só o localizámos ao fim de vinte e poucos minutos e aí já não havia nada a fazer. Comunicámos às autoridades mas os poucos meios de salvamento disponíveis estavam noutra ilha. Era uma zona profunda e com correntes. Não podíamos arriscar e deixar ali o corpo porque podia ser arrastado”, conta Hugo Silva ao Expresso. As autoridades ligaram para o Ministério Público a expor a situação e decidiu-se que, como Hugo “era o único no local com formação”, podia trazer Rogério para cima. “E então tive de trazer esse meu amigo, já cadáver”, diz o instrutor de mergulho de 40 anos, com formação em mergulho de cavernas.

As circunstâncias em que Rogério perdeu a vida são semelhantes às da morte de um antigo membro da unidade de elite da marinha tailandesa, Saman Kunan, que morreu na madrugada de sexta-feira numa operação de transporte e entrega de oxigénio. Kunan era veterano das forças especiais da marinha e voluntariou-se para participar nas operações de salvamento na caverna de Tham Luang, onde estavam presos 12 rapazes de uma equipa de futebol e o respetivo treinador. Neste momento, já foram resgatadas oito crianças, quatro no domingo e outras quatro esta segunda-feira.

“Foi uma coisa parecida porque dizem que o mergulhador tailandês ficou sem ar. Quando ficamos sem ar, ainda podemos entrar em apneia, ou seja, suster a respiração durante alguns minutos mas, mesmo com treino, à distância a que estamos da superfície, acabamos por não conseguir”, explica Hugo. Como Kunan, também Rogério sofreu um desmaio por falta de oxigénio. Em ambos os casos, a única forma de se salvarem teria sido a presença de um outro mergulhador, ali muito próximo, com uma fonte alternativa de ar.

KRIT PHROMSAKLA NA SAKOLNAKORN

MERGULHO COM TETO: O PÂNICO E A CLAUSTROFOBIA

“Mergulhamos sempre com redundância. Normalmente, mergulha-se com dois equipamentos completamente individualizados, mas também pode ser uma garrafa com duas torneiras, uma para um equipamento e outra para outro”, prossegue Hugo Silva. Assim, “se houver uma avaria, há sempre um equipamento suplente, além do outro equipamento suplente da nossa dupla”. Para Hugo Silva, “mesmo se as condições exteriores ao mergulho fossem todas ótimas, que não são,” o mergulho na Tailândia seria “já um mergulho de risco bastante elevado porque envolve um teto”.

Na prática, um mergulho com teto significa que “não se consegue vir diretamente para a superfície caso haja algum problema”, explica. Por isso, “todos os problemas encontrados pelos mergulhadores terão de ser solucionados debaixo de água”. Neste caso, estamos naturalmente a falar de “um mergulho técnico e não recreativo”. “E um mergulho técnico envolve formação que leva muito tempo e não se faz numa semana, como é o caso daqueles miúdos”, frisa Hugo.

“Levar uma criança que não tem experiência em mergulho – e algumas que nem sabem nadar – e não pode vir diretamente à superfície é de altíssimo risco”, avalia. E exemplifica: “Imagine-se que há um miúdo que, durante aquele trajeto, entra em pânico. A primeira coisa que faz é largar o regulador da boca e tentar vir para cima. Acalmar uma criança e voltar a colocar-lhe o regulador quando ela está a esbracejar debaixo de água é muito, muito difícil”. Outro exemplo: “Imagine-se um miúdo com claustrofobia. Para fazer um mergulho técnico como este, é preciso vencer aquele medo do aperto”. Neste caso, são só circunstâncias adversas: o aprendiz “vai estar num circuito completamente fechado, as condições de visibilidade são nulas, vai ser tudo completamente às escuras”.

LILLIAN SUWANRUMPHA

“SE CALHAR O TREINADOR TERÁ MAIS PROBLEMAS”

Nos últimos dias, alguns relatos das operações de resgate fizeram apenas a contabilidade dos 12 rapazes, esquecendo o treinador. Ora, para o instrutor de mergulho Hugo Silva, “se calhar é esta a pessoa que vai ter mais problemas” com a operação. E porquê? “Muitas vezes, as crianças não medem o perigo em que estão envolvidas, têm sempre mais espírito de aventura e também se adaptam muito mais facilmente do que um adulto”, explica. “E depois o treinador também se sente responsável por aquela equipa de miúdos e recai sobre ele muita tensão pré-mergulho”, lembra.

E como se faz a triagem de quem se salva primeiro? “Quando se faz um salvamento, tenta-se escolher os que estão mais fracos para levar em primeiro lugar, uma vez que os outros estarão mais à vontade ou mais fortes psicologicamente para aguentar a situação. Dentro da gruta, aqueles que estão mais fracos também podem passar o stress aos outros”, alerta. É importante que o treinador seja o último a ser resgatado, não apenas por ser o único adulto do grupo mas também porque foi ele quem esteve com os rapazes desde o início. “É bom que esteja aquela figura sempre ali presente.”

PONTOS PARA RESPIRAR E ENCORAJAR

Nas infografias do interior do complexo de grutas veem-se pontos que não estão completamente submersos pela água. Nesses pontos, os mergulhadores, incluindo as crianças sujeitas a uma “formação apressada de mergulho”, “podem vir alguns centímetros acima respirar”. Na opinião de Hugo Silva, esses pontos estarão a servir sobretudo de “encorajamento para continuar”, explicando-se às crianças que “a etapa mais difícil já foi ultrapassada”.

Aliás, há duas etapas particularmente críticas no percurso de saída da gruta, que levará cerca de cinco horas a fazer: a primeira é “o mergulho sem experiência nem formação” e a segunda é a parte em que os mergulhadores experientes “têm de tirar o equipamento das costas, passar por um sítio muito apertado e fazer passar as crianças, voltar a pôr os equipamentos às costas e continuar”. Neste “ciclo”, que Hugo considera “bastante difícil de ultrapassar”, o contacto físico entre a criança e os mergulhadores “será só mesmo nas pontas das mãos e dos pés”.

No resto do percurso, “as crianças seguem entre dois mergulhadores e eles agarram-nas por uma mão e até as abraçam se for preciso”. Desse modo, a criança pode sentir-se sempre apoiada, à frente e atrás. “É como aquela criança que quer atravessar a estrada e tem medo e dá a mão ao pai para atravessar”, compara.

LILLIAN SUWANRUMPHA

Hugo Silva não tem dúvidas de que os mergulhadores que estão a trabalhar nas operações de salvamento na Tailândia são mergulhadores “de topo”, os “melhores especialistas de mergulho do mundo”. “São mergulhadores de elite que se uniram para ir salvar a equipa de futebol, demonstrando um amor abnegado que é de louvar.” Mas mesmo tendo isso em conta, não deixam de ser humanos e de acusar “desgaste físico e psicológico”, o que explica a interrupção das operações no domingo e esta segunda-feira.

ESPÍRITO DE EQUIPA

No que já foi descrito pelo governador de Chiang Rai como uma corrida contra o tempo e contra a água, há que aproveitar as pequenas janelas de oportunidade que ainda restam: são as chuvas intensas que aí vêm, é o oxigénio que já escasseia dentro da gruta, é o tempo que se esgota. Por outro lado, importa insuflar “confiança e expectativa de sucesso” para o interior da gruta, defende Hugo Silva. “Sendo uma equipa de futebol, de certeza que têm espírito de equipa e estão de certa forma ligados. E poderão pensar: ‘No futebol já vencemos algumas equipas e mantivemo-nos unidos. Os outros já estão lá fora à nossa espera, então também vamos lá chegar’.”

Durante os nove dias que passaram sem qualquer contacto com o exterior, as crianças e o treinador podiam interrogar-se ‘daqui a quanto tempo é que irei morrer?’, “agora há uma esperança, há aquela luz ao fundo do túnel, não apenas no sentido popular da expressão, mas também a luz ao fundo do túnel daquela gruta”, refere Hugo. “Se antes a contagem decrescente era para morrer, agora é para ser resgatado”, conclui. E já só faltam quatro crianças e o treinador.