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Liderança de May em risco após demissão do ministro do Brexit

Theresa May e David Davis em maio de 2017, durante um evento do Partido Conservador em Halifax, Reino Unido

Dan Kitwood / Getty Images

Demissão de David Davis faz crescer contestação interna à primeira-ministra conservadora. Eurocéticos consideram que cedeu demasiado a Bruxelas e que o ‘Brexit’ não será pleno ao abrigo dos planos recentemente anunciados.

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O Governo britânico vive uma segunda-feira agitada, com a nomeação de um novo ministro para o Brexit e uma comparência da primeira-ministra no Parlamento, em plena crise que ameaça a estabilidade do seu Executivo. A renúncia de David Davis, substituído pelo até agora secretário de Estado da Habitação, Dominic Raab, é o maior sinal de divisão na equipa de Theresa May relativamente à saída da União Europeia após dois anos no poder.

Na sexta-feira, May parecia ter o favor dos seus ministros para acordar uma saída “suave” da União Europeia. Numa reunião em Chequers, residência de férias da chefe de Governo, os ministros (que tiveram de deixar os telemóveis à entrada) teriam acordado propor a Bruxelas a criação de uma zona de comércio livre entre o Reino Unido e os 27 sob regras comuns no que toca a produtos industriais e agrícolas, muito semelhantes às que atualmente vigoram.

O plano mantinha 12 “princípios-chave” para a saída da UE, entre eles a data (29 de março de 2019), o controlo das fronteiras, o abandono da jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu ou a manutenção da fronteira aberta entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, mas também entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. Mas foi o “regulamento comum” com a UE que acirrou a ala mais eurocética do Partido Conservador, que logo alertou que o país ficaria sujeito às regras de Bruxelas, o que causaria dificuldades em negociar acordos de comércio com terceiros.

“Não é sair da UE”

O deputado Jacob Rees-Mogg, talvez o mais radical na oposição à UE, acusou May de fazer do Reino Unido um “acatador de regras”, escolhendo um “Brexit punitivo, que mantém [o país] na União Europeia exceto no nome”. “Não é uma inversão de marcha, é travar com o travão de mão”, disse esta manhã à Sky. “Não é realmente sair da UE.” O parlamentar anunciou que votaria contra a proposta da líder.

O seu colega Marcus Fysh considera “idiota” o acordo anunciado pela primeira-ministra e admitiu à BBC que a proposta em cima da mesa era “pior” do que sair da UE sem acordo. Confirmavam-se as previsões do trabalhista Keir Starmer, ministro-sombra do Brexit: “O que quer que tenha sido aparentemente acordado, dificilmente sobreviverá ao contacto com os deputados e militantes conservadores”.

A unidade estilhaçou-se em 48 horas e ficou claro que a carta de May aos seus correligionários a exigir unidade não valia mais do que o papel em que fora escrita. “Tenho permitido que os colegas de Governo exprimam as suas opiniões individuais. O acordo sobre esta proposta marca o momento em que deixa de ser assim, repondo-se plenamente a responsabilidade coletiva”. Ou seja, quem discorda terá de sair. Foi o que fez Davis, anunciando a demissão à meia-noite de domingo para segunda-feira.

Afirmando que a sua posição era “insustentável”, o ministro explicou que sai “em nome do interesse nacional”, por considerar que a primeira-ministra “cedeu de mais e com demasiada facilidade” a Bruxelas nas negociações sobre a saída. A seu ver, a recuperação da soberania parlamentar, prometida por May nas legislativas de 2017, era “ilusória” com este pacto. Frisou, ainda assim, que esta é “uma boa primeira-ministra” e que não pretende, ao sair do Governo, minar a sua viabilidade.

“Polir um cagalhão”

Com Davis sai também o seu número dois, o secretário de Estado Steve Baker, para quem o seu ministério foi “deixado às cegas” por May. A imprensa britânica admite que possa haver mais renúncias. Na reunião de sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, defensor do Brexit, terá descrito o acordo defendido por May como “polir um cagalhão”, segundo a Sky TV. Johnson ainda não se pronunciou após a demissão de Davis, mas um deputado anti-UE pediu-lhe que se demitisse, numa afirmação de princípio, para fazer cair May (que no referendo de 2016 foi timidamente a favor da permanência na UE).

O seu substituto, Dominic Raab, destacou-se na campanha a favor do Brexit. Há dias, afirmou à BBC que o processo de saída da UE pode demorar “mais tempo” do que o previsto, o que parece colidir com a data reiterada por May ou pelo menos implicar um período de transição mais longo do que o atualmente planeado (final de 2020), com consequente fúria da ala eurocética. Deputado desde 2010, Raab é filho de um judeu checo refugiado no Reino Unido durante a II Guerra Mundial. Formado em Direito, casou com uma brasileira e tem dois filhos, sendo um praticante aficionado de karaté.

A comunicação social do Reino Unido explica que a liderança de May pode ser contestada se 48 deputados (15% dos 316 que formam a bancada conservadora) pedirem uma eleição interna. A recolha desses pedidos cabe ao deputado Graham Brady, que chefia o Comité 1922 do Partido Conservador. O número de pedidos a cada momento não é público. Para já, a governante vai sobrevivendo como pode. A sua equipa já tenta obter apoios de deputados trabalhistas para aprovar o plano do Brexit na Câmara dos Comuns caso aumente o número de dissidentes conservadores.