Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Justiça birmanesa avança com julgamento de jornalistas da Reuters

FOTO ANTONI SLODKOWSKI/REUTERS

Os dois jornalistas, U Wa Lone, de 32 anos, de U Kyaw Soe Oo, de 28, enfrentam uma pena de até 14 anos de prisão por terem alegadamente violado uma lei de 1923, da era colonial britânica, designada “Official Secrets Act”, e que pune a entrada em áreas proibidas, a posse de documentos considerados secretos e a comunicação com “agentes estrangeiros”

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

A justiça de Myanmar decidiu esta segunda-feira que vai avançar com o julgamento dos dois jornalistas da agência Reuters acusados de violar “segredos de Estado”, no âmbito de uma investigação sobre os abusos cometidas pelas autoridades de Myanmar contra os Rohingya, minoria muçulmana, no estado de Rakhine.

Os dois jornalistas, U Wa Lone, de 32 anos, de U Kyaw Soe Oo, de 28, enfrentam uma pena de até 14 anos de prisão por terem alegadamente violado uma lei de 1923, da era colonial britânica, designada “Official Secrets Act”, e que pune a entrada em áreas proibidas, a posse de documentos considerados secretos e a comunicação com “agentes estrangeiros”.

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, Stephen J. Adler, diretor e editor-chefe da Reuters, classificou as acusações contra os dois jornalistas como “infundadas” e considerou que a decisão da justiça birmanesa “levanta sérias dúvidas sobre o compromisso de Myanmar para com a liberdade de imprensa e o estado de direito”.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram detidos em janeiro deste ano à saída de um restaurante nos arredores de Yangon, maior cidade e antiga capital de Myanmar, onde haviam jantado com dois agentes da polícia que lhes entregaram uma série de documentos. Os dois jornalistas estavam há vários meses a investigar os abusos cometidos pelas autoridades de Myanmar contra os Rohingya, minoria muçulmana, no estado de Rakhine (cerca de 665 mil pessoas já fugiram do país em direção ao Bangladesh) e foram detidos depois de terem obtido fotografias de uma vala comum em Inn Din, aldeia onde os muçulmanos daquela minoria viviam em comunidades segregadas e que ficou quase totalmente destruída quando se intensificou a perseguição aos Rohingya, em agosto do ano passado.

“Estes jornalistas estavam simplesmente a fazer o seu trabalho de uma forma imparcial e independente, e não há factos ou pistas que sugiram que tenham feito alguma coisa de errado ou desobedecido à lei”, acrescentou Stephen J. Adler no comunicado já aqui citado, apelando à libertação dos jornalistas para que possam “juntar-se à sua família, amigos, colegas”.

De todas as vezes em que falaram em público, Wa Lone e Kyaw Soe Oo prometeram não desistir de mostrar que as acusações que lhes são dirigidas são falsas, e foi também isso que fizeram desta vez. “Tenho o direito de me defender até que o juiz decida em contrário”, afirmou Wa Lone em frente ao tribunal em Yangon, citado pelo jornal norte-americano “The New York Times”. “A nossa investigação à violência no estado de Rakhine baseou-se em princípios éticos jornalísticos. A injustiça não vencerá”, acrescentou.

O julgamento deverá acontecer dentro dos próximos dois meses, antecipou um advogado de defesa dos dois jornalistas. U Khin Mg Zaw está confiante de que os seus clientes vão ser libertados, o que não apagará o grande abalo que isto terá representado para a liberdade de expressão no país.

Myanmar tem estado em convulsão após as acusações de limpezas étnicas feitas pela ONU, na sequência de uma vasta operação do exército no oeste do país, em resposta aos ataques de uma rebelião Rohingya em agosto de 2017.

Cerca de 700.000 muçulmanos rohingya que viviam nesta região refugiaram-se no vizinho Bangladesh desde agosto de 2017 e acusaram os militares e as milícias budistas de diversos crimes, incluindo violações, tortura e mortes.

Os Rohingya são o alvo de um movimento nacionalista budista, muito implantado em Myanmar, que os considera uma ameaça. O governo civil da prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi tem sido acusado de incitar este ódio anti-Rohingya, muito instrumentalizado pela hierarquia das Forças Armadas, durante décadas de regime da junta militar.

Grupos de direitos humanos acusaram as autoridades de Myanmar de entregaram propositadamente aos dois jornalistas da Reuters documentos incriminatórios. Numa entrevista no mês passado à televisão japonesa NHK, Aung San Suu Kyi afirmou que os repórteres foram detidos não por cobrirem eventos ocorridos no estado de Rakhine, mas por terem quebrado a lei designada “Official Secrets Act”, implementada pelos britânicos em 1923 para prevenir que os seus rivais incentivassem uma demanda anticolonial no seu império no sul asiático. “O que importa aqui é que devemos trabalhar de acordo com o estado de direito”, acrescentou Aung San Suu Kyi.

  • Quem será o próximo? Quando chegará a minha vez?

    Uma detenção cinematográfica, um desaparecimento que, embora curto, é condenável e condenado, e uma acusação que muitos consideram, no mínimo, enviesada. Dois jornalistas da Reuters, responsáveis por investigar os abusos cometidos contra os Rohingya, minoria muçulmana, estão há quase um mês detidos numa prisão em Myanmar. Ninguém sabe como foram ali parar e, mais do que isso, se vão sair. Enfrentam penas de até 14 anos de prisão