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Erdogan toma posse e promete uma Turquia laica

Anadolu Agency/Getty Images

Erdogan tomou posse esta segunda-feira com poderes absolutos e comprometeu-se a preservar os princípios da Turquia laica, fundada por Mustafa Kemal Ataturk. Participam nas comemorações aliados seus, como o primeiro-ministro russo, Dmitry Medvedev, o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Chegou às imediações do Parlamento turco num carro coberto de flores vermelhas, saudou os militares que o esperavam dispostos em fila, entrou no edifício, dirigiu-se à sala principal e, do púlpito, fez o juramento habitual: “Como presidente, juro pela minha honra e integridade, perante a nação turca e a sua história, trabalhar com todos os meus poderes para proteger e exaltar a glória da República da Turquia”, declarou Recep Erdogan, no dia em que tomou posse como Presidente da Turquia com poderes absolutos.

Com a tomada de posse, entra oficialmente em vigor o novo sistema presidencialista, aprovado em referendo realizado em abril de 2017 e que vem substituir o anterior sistema parlamentar. O novo modelo de governação prevê que o cargo de primeiro-ministro seja abolido e que o presidente deixe de desempenhar um papel cerimonial para assumir a plena chefia do aparelho executivo, podendo nomear ministros e vice-presidentes, promulgar leis por decreto e dissolver o Parlamento. Em quatro anos de Presidência, Erdogan nunca teve tanto poder quanto terá agora. Garantiu em várias ocasiões que o usará para assumir as rédeas de uma economia em declínio, garantir a segurança no país depois do golpe de Estado falhado de 2016 e proteger o país de conflitos como os da Síria e Iraque. Tudo desculpas, na opinião dos seus opositores, que antecipam um regime ainda mais autocrático e ditatorial.

Erdogan celebra com companheiros: Dmitry Medvedev, Nicolás Maduro e Viktor Orbán

O dia é de festa para Erdogan e para os deputados do seu partido, o AKP, Partido do Desenvolvimento e Justiça, que aplaudiram de pé a tomada de posse, mas é-o também para líderes políticos como o primeiro-ministro russo, Dmitry Medvedev, o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e o emir Sheikh Tamim bin Hamad al Thani, líder do Qatar. Todos eles foram convidados a estar presentes numa cerimónia para a qual foram convidadas mais de sete mil pessoas, incluindo 11 chefes de Estado e dezenas de primeiros-ministros, mas nenhum de países ocidentais. Ainda esta segunda-feira, Erdogan visitará Anitkabir, o mausoléu de Ataturk.

O nome dos 16 ministros que o Presidente turco conta ter ao seu lado nos próximos cinco anos será também divulgado nesta segunda-feira, e embora não tenham sido avançadas quaisquer hipóteses, sabe-se que Erdogan pretenderá rodear-se mais de ex-políticos e burocratas do que de membros do seu partido, diz a “Al-Jazeera”. Do lado dos investidores, a preocupação é a de saber se nomes como o de Mehmet Simsek, atual vice-primeiro-ministro, vão manter-se à frente de pastas tão importantes quanto a da economia, num país à beira do colapso: a inflação e o desemprego ultrapassam, ambos, a marca dos 10%. Erdogan diz que a culpa é de quem, a partir do exterior, conspira para ver o país no charco.

Apesar de uma grande parte da população ter acreditado que poderia haver um “milagre”, Erdogan venceu as eleições presidenciais de 24 de junho, com 52,6% dos votos, provavelmente menos do que ele esperava, mas o suficiente para governar. No Parlamento, a coligação do seu partido com o MHP (Partido Movimento Nacionalista), conseguiu 42,5% dos votos (343 lugares num total de 600). Os republicanos de Muharrem Ince conseguiram 22,6% dos votos (ele sozinho obteve 30,85% na corrida à presidência) e o recém-formado İyi (Partido Bom), de Meral Akşener, conseguiu 10%. Os dois partidos conseguiram, respetivamente, 146 e 43 assentos. Já o maioritariamente curdo Partido Democrático do Povo concorreu com o líder preso e mesmo assim conseguiu 11,7% dos votos, ou 67 assentos.

Mais purgas. Serão as últimas?

Erdogan toma posse num ambiente de purgas renovadas. Depois de ter ordenado a detenção de cerca de 50 mil pessoas, suspeitas de terem participado na organização do golpe de Estado de 2016, e o despedimento de mais de 100 pessoas no setor público (os números são oficiais), o governo turco despediu mais de 18 mil funcionários, incluindo vários membros das forças de segurança, professores e académicos, na sequência da publicação de um decreto-lei no boletim oficial turco, que determinou ainda o encerramento de 12 associações, três jornais e uma cadeia de televisão.

Em contrapartida, foram readmitidas 148 pessoas na função pública. Vários meios de comunicação social turcos afirmaram tratar-se do último decreto antes de um provável levantamento do estado de emergência na segunda-feira, prometido há várias semanas por Erdogan. Mesmo os que se lhe opõem, não são peremptórios a afirmar que não o fará.

Depois das cerimónias, Erdogan parte para a República Turca do Chipre, na terça-feira, e no dia seguinte desloca-se a Bruxelas para participar na Cimeira da NATO.