Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Os jovens tailandeses estão privados de luz. Quais são os efeitos de viver na escuridão?

LILLIAN SUWANRUMPHA/AFP/Getty Images

A falta de luz do sol desestabiliza o nosso relógio interno, torna-nos mais irritáveis, prejudica o normal funcionamento do metabolismo e pode até causar depressão. Quais os efeitos que podem sofrer os 13 rapazes tailandeses presos na gruta se tiverem que permanecer isolados e no escuro até que o nível das águas permita o seu salvamento?

O nível das águas sobe e os 13 rapazes presos há mais de dez dias numa gruta no norte da Tailândia estão numa corrida contra o tempo: ou conseguem salvar-se antes de as fortes chuvas tornarem completamente impossível a sua saída ou terão que permanecer cerca de quatro meses nas escuras e húmidas cavernas até que possam caminhar até à entrada, e sair da mesma forma que entraram.

Durante esse tempo terão assistência médica, comida, terão possivelmente forma de comunicar com os pais através de telefones que serão instalados brevemente. Mas há uma coisa difícil de fabricar: a luz do sol, sem a qual os humanos definham, quer física, quer mentalmente.

Os perigos de falta de vitamina D, que o corpo produz em contacto com o sol, são conhecidos: fadiga, dores musculares, aumento do risco de asma em crianças e de doenças relacionadas com a densidade óssea, dificuldades cognitivas em adultos, depressão e flutuações graves de humor são apenas alguns dos pontos listados pelos médicos.

Há até uma condição clínica associada à chegada dos meses de inverno, quando a luz solar começa a rarear - Seasonal Affective Disorder (SAD, na sigla em inglês) que pode provocar sintomas mais leves como períodos de cansaço acentuado ou distúrbios momentâneos nos padrões de sono, mas que também pode causar depressões mais sérias, letargia crónica, disfunções no metabolismo e na absorção de vitaminas entre outros.

O trauma psicológico associado à clausura centenas de metros debaixo de solo já está a ser acautelado pelos médicos no caso dos 13 rapazes, mas há coisas que ainda não podem ser diagnosticadas. O sentido interno do tempo, por exemplo, será necessariamente alterado e a sua percepção da passagem do tempo também.

Um fenómeno parecido acontece às pessoas cegas. Os seus relógios internos variam já que eles não conseguem manter-se no mesmo registo que o resto do mundo. Nestes casos, a regulação temporal do corpo “corre livre” e o tempo de descanso pode variar muito durante o dia - dormir durante o dia, sentirem-se extremamente sonolentos durante as horas de sol é comum. Esta condição tem sido muitas vezes descrita como “estar permanentemente em jetlag”. Se ficarmos muito tempo debaixo do solo, os nossos olhos deixam de conseguir reagir à luz e por isso o cérebro não a regista e o relógio interno entra no tal descontrolo.

Os rapazes que estão encurralados numa gruta na Tailândia podem começar a desenvolver horários de descanso completamente diferentes: uns estarão completamente acordados quando os outros estiverem cheios de sono.

Em 1965, dois exploradores de grutas, Josie Laures e Antoine Senni, enterraram-se a uma profundidade de vários metros em nome da ciência, em completo isolamento. Mantinham-se em contacto com os outros investigadores, mas não um com outro, e as conclusões a que chegaram são assustadoras: os sinais vitais tornaram-se menos acelerados, a memória sofreu danos momentâneos e o sentido de tempo perdeu-se completamente.

Laures passou 88 dias na gruta, Senni 126. Laures saiu a achar que o calendário marcava 25 de fevereiro de 1965 quando, de facto, era 12 de março. Quando Senni ressurgiu, a 5 de abril, pensava que era 4 de fevereiro.

O antídoto é a chamada “luz circadiana”, que imita a luz natural. Julian Assange já utilizou um dispositivo parecido para contornar o facto de não poder sair da embaixada do Equador em Londres.

Também os mineiros chilenos, que em 2010 estiveram 69 dias presos debaixo do solo, tiveram a ajuda deste método e o mesmo pode ser feito agora com os rapazes tailandeses se tiverem, de facto, que permanecer na gruta durante quatro meses à espera que o nível das águas lhes permita caminhar pelo próprio pé em direção à luz do dia. A outra opção é nadar, mergulhando, até à saída, mas alguns especialistas estão reticentes em relação a esta estratégia já que nem todos sabem nadar e muitos dos caminhos que teriam de percorrer, debaixo de água, são estreitos e totalmente escuros.