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Masafumi, um eremita japonês, acaba de ser despejado da ilha deserta onde viveu nos últimos 30 anos

Viveu sozinho na ilha deserta de Sotobanari durante quase 30 anos. Aos 82 anos, por causa do aspeto frágil e pouco saudável, as autoridades forçaram-no a ir ao hospital. Agora não o vão deixar regressar à ilha

A pequena ilha deserta de Sotobanari, no Japão, tem a forma de um rim. Por lá, há cobras cuja mordida pode ser fatal, além de serem frequentes os tufões. Não há água potável, eletricidade ou casas. Mas existe uma tenda onde Masafumi Nagasaki vive sozinho há quase 30 anos, depois de ter tomado a decisão de fugir da civilização onde cresceu.

Este Robinson Crusoe japonês não usa roupa, à exceção de um par de sandálias de cor creme. Tem um horário rígido e segue uma rotina: não sai da tenda entre o anoitecer e o amanhecer. “Encontrar um sítio para morrer é algo importante de se fazer e decidi que este é o lugar para mim”, disse o japonês de 82 anos numa entrevista à Reuters em 2012. Mas o lugar que escolheu não será aquele onde vai morrer, porque Masafumi foi obrigado a abandonarf a "sua" ilha e a regressar à civilização.

Recentemente, o homem conhecido como o “ermita nu” foi levado pelas autoridades japonesas ao hospital porque parecia fraco. Segundo o jornal britânico “The Telegaph”, um grupo de pessoas terá dado o alerta. Embora deserta, a ilha de Sotobanari não está muito longe de outras ilhas habitadas e é acessível a pescadores locais, apesar de muito raramente algum deles lá fazer escala.

Masafumi chegou à ilha em 1989. Inicialmente, a ideia seria apenas a de ficar durante alguns anos. Mas o plano inicial mudou. Começou a andar nu porque um dia um tufão lhe levou tudo o que tinha, incluindo a roupa. Habituou-se e já não sabe estar ali de outra forma. Calça apenas as sandálias para não magoar os pés nos corais, que podem causar infeções.

“Na civilização, as pessoas tratavam-me como um idiota e isso fazia-me sentir como se realmente fosse um idiota. Nesta ilha, não sinto isso”, disse Masafumi a Alvaro Cerezo, o realizador de um documentário sobre a sua vida como ermita, citado pelo jornal britânico. “Aqui, ninguém me diz o que fazer. Sigo apenas as regras da natureza. Não podemos dominar a natureza, por isso obedecemos completamente”.

O ermita vive sob um rigoroso horário, a pontualidade é extremamente importante. “Atrevi-me a atrasar-me cinco minutos para ir ter com ele e ficou zangado”, conta o realizador no seu blogue, em que descreve os dias que passou a documentar a vida de Masafumi. Antes de entrar na tenda é sempre preciso lavar os pés com a água que está num alguidar à entrada. Na ilha, há apenas duas casas de banho - uma de cada lado – e que devem ser usadas consoante a direção da corrente marítima (“assim os dejetos vão com o mar”).

A maior parte do dia é passado à procura de comida e a limpar o areal da praia até ao mais ínfimo detalhe - “nunca vi praia tão limpa”, assegura o realizador. Masafumi já não come carne ou peixe e deixou também os ovos de tartaruga depois de ter assistido a um nascimento.

80 dólares por mês e uma visita à cidade

De quando em quando, Masafumi veste roupa. Pega nos 80 dólares que a irmã lhe envia todos os meses e vai até à cidade comprar comida. Gasta apenas o tempo necessário, nunca fica por mais de duas ou três horas. Antes, o ermita era um homem da cidade sem qualquer experiência de vida ao ar livre, morava em Osaka. Esteve casado e é possível que tenha dois filhos.

Parece-me que Nagasaki foi muito desiludido no passado. Disse-me que uma das razões pela qual foi para a ilha se deveu a ter sido demasiado boa pessoa e que se aproveitaram dele”, conta o realizador. Não planeava regressar à civilização, mesmo que esta mude radicalmente. No entanto, continua a valorizar pequenas coisas e objetos do mundo moderno como, por exemplo, os isqueiros, que qualifica como “ferramentas incríveis”.

O meu único propósito é o de viver enquadrado no que me rodeia sem que a minha presença seja notada”, explicou Masafumi ao realizador. Disse-lhe, também, que já avisara a família de que ia morrer em Sotobanari. “Quero ser morto por um tufão para que ninguém tente ou consiga salvar-me.” Mas alguém tentou salvar Masafumi e agora o ermita poderá não morrer onde queria.