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Regime sírio avança sobre últimos redutos da oposição. Já há milhares de deslocados

Ao contrário de muitas das províncias sírias ainda com presença de rebeldes, em Daraa eles estão em maioria

OTO WSAM ALMOKDAD/ REUTERS

A ofensiva do regime sírio e seus aliados russos nas áreas do sul da Síria controladas pela oposição teve início em meados de junho e já provocou centenas de mortos e pelo menos 270 mil deslocados

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Foi na cidade de Daraa, no sudoeste da Síria, que começou a revolução de 2011 e tudo indica que é ali que terminará. O regime do Presidente sírio Bashar al-Assad já controla 60% da província onde se localiza a cidade e esperam-se mais avanços nos próximos dias, tanto em Daraa como noutras áreas do sul do país ainda controladas pela oposição, como Quneitra e Sweida.

A ofensiva lançada a duas mãos em meados de junho - pelo regime sírio e os seus aliados russo - já provocou pelo menos 270 mil deslocados, segundo números divulgados esta segunda-feira por Mohammed Hawari, porta-voz do Alto-Comissariado para os Refugiados (ACNUR), durante uma conferência de imprensa em Amã, capital da Jordânia. Em Daraa, os bombardeamentos e ataques de mísseis já fizeram pelo menos 132 mortos, incluindo 25 menores e 23 mulheres, segundo números do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), organização não-governamental que monitoriza o conflito na Síria a partir de Londres.

Foi na cidade de Daraa, localizada perto da fronteira com a Jordânia, que começou a revolução que haveria de estender-se a outras cidades e províncias sírias, com a ocupação, por parte dos rebeldes da oposição, de muitas destas áreas. Em julho do ano passado, e já depois de vários meses de violência, regime e rebeldes concordaram em suspender os ataques aéreos na província com o mesmo nome no âmbito de um acordo assinado em Astana, capital do Cazaquistão. O acordo previa igualmente uma pausa nos bombardeamentos noutras regiões do país, as designadas “zonas de distensão” e que abrangiam a área de fronteira entre a Síria e a Jordânia, onde se incluem algumas cidades da província de Quneitra, Ghouta Oriental, alguns territórios nas províncias de Idlib, Latakia, Alepo e Hama, e os enclaves de Rastan e Talbiseh, na província de Homs. Mas esse acordo nunca viria a ser respeitado.

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, a Amnistia Internacional pede ao governo da Jordânia para abrir as suas fronteiras para receber pessoas fugidas da província de Daraa. “A população de Daraa está efetivamente presa - muitos dos deslocados estão a viver em tendas improvisadas, sob um calor abrasador e sem comida, água ou cuidados médicos suficientes. A fronteira com a Jordânia é a sua única porta de entrada para a segurança”, refere Lynn Maalouf, diretora de investigação da organização não-governamental para a região do Médio Oriente.

Em visita à região no domingo passado, o primeiro-ministro jordano, Omar al Razaz, disse que não tenciona abrir a fronteira com a Síria por “razões de segurança”, por haver suspeitas da existência de “homens armados entre os deslocados sírios”. Já o chefe da diplomacia jordana, Ayman Safadi, disse esta segunda-feira que o reforço da ajuda humanitária aos deslocados sírios no sul do país “depende da autorização das autoridades sírias”. Segundo dados oficiais, vivem atualmente na Jordânia 1,3 milhões de sírios, incluindo mais de 650 mil refugiados. O ministro dos Negócios Estrangeiros jordano, Ayman Safadi, anunciou entretanto que vai encontrar-se no final da semana com o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, em Moscovo, para discutir a situação em Daraa.

No domingo, durante a oração do “Angelus” na praça de S. Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco alertou para a “grave situação” que se vive na Síria, sobretudo naquela província. “Renovo com a minha a oração o apelo para que esta população, já duramente atingida há anos, seja poupada a novos sofrimentos”, pediu o Papa.