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Novo Presidente do México promete teimosia, perseverança e cegueira quase doida para acabar com a corrupção

Manuel Velasquez/Getty Images

Pobreza e corrupção são os seus alvos desde que se iniciou na política, em 1976. O seu foi um caminho de conquistas e derrotas, apoiado na persistência e numa imagem de austeridade, que cultivou - no estilo e no discurso. Chega à presidência do México com metas ambiciosas, nomeadamente provar que é o homem “antissistema” que prometeu ser

“Desconfiado, apaixonado, trabalhador e um orador incendiário.” Ao perfil de Andrés Manuel López Obrador traçado pelo jornal “El Mundo” pode acrescentar-se também a sua fidelidade aos princípios políticos, os mesmos que o agora novo Presidente do México começou por defender como organizador das comunidades indígenas no seu estado natal, Tabasco, visando o combate ao que considera serem os dois flagelos nacionais: a pobreza e a corrupção.

À terceira foi mesmo de vez. Depois de duas candidaturas presidenciais falhadas - em 2006 e 2012 - Obrador vira o país à esquerda. Conseguiu o feito de unir um movimento alargado e improvável, que abrange “sindicatos, conservadores de extrema direita, grupos religiosos, nomes da esquerda tradicional e até alguns dos funcionários manchados pela corrupção” que tanto critica, como sublinha o jornal “El Observador”.

Nada mal para o filho mais velho dos oito nascidos do casamento entre um camponês e a filha de um emigrante espanhol, oriundo de Cantábria, cujos primeiros anos de vida foram passados no interior rural mexicano.

Nesse lugar remoto deu início à sua ligação com os pobres, cimentada durante a posterior atividade política, que incluiu durante anos visitas a todos os municípios do país, cultivando uma proximidade que lhe foi angariando popularidade crescente.

López Obrador, 64 anos, começou por militar no PRI (Partido Revolucionário Institucional) em 1976, tendo-se juntado ao Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda) em 1988. Como presidente desta força partidária (entre 1996 e 1999) obteve vitórias de fôlego, que lhe valeram um reconhecimento a nível nacional. E no ano de 2000 tornou-se chefe de governo do Distrito Federal da cidade do México, cargo a que renunciou em 2005, para iniciar sua campanha presidencial.

Acabaria por abandonar o PRD em 2012, fundando dois anos depois o Morena (Movimento Nacional de Regeneração), um partido alicerçado na sua imagem.

A vitória eleitoral dá-lhe finalmente a hipótese de lutar contra a pobreza e a possibilidade de lançar os grandes projetos que defendeu: aumentar o salário mínimo, facilitar o acesso à internet para todos, oferecer bolsas de estudo aos estudantes e aumentar a autossuficiência alimentar do país.

“Vou acabar com a corrupção”

Obrador conta com a sua persistência. “Sou teimoso, é sabido”, admitiu quando o seu partido o nomeou como candidato. “É com esta convicção que vou agir como Presidente da República, teimosamente, com perseverança, com uma cegueira quase doida: vou acabar com a corrupção”, prometeu ainda, por muito que os críticos lembrem que o objetivo ficou por cumprir quando esteve à frente dos destinos da cidade do México.

Austero, no estilo e no discurso, vive numa casa modesta de dois andares e fez questão de viajar em classe económica em todas as deslocações feitas durante a campanha. Dizem as estatísticas que teve o apoio dos jovens nestas eleições, mesmo sendo o mais velho dos candidatos, em parte um sinal dado por uma geração cansada da persistente desigualdade no país, ampliada por uma série de escândalos recentes de corrupção e pelo aumento da violência.

Mas há quem veja nas investidas de Obrador contra os media - que acusa de corruptos e parciais - a sua incapacidade para aceitar críticas. Há quem (e não só por isso) compare ‘AMLO’, como é popularmente conhecido o novo Presidente mexicano, ao seu homólogo norte-americano. A forma como conduzirá a relação entre os dois países é, aliás, um dos temas aguardados com expectativa, já que durante a campanha Obrador usou frequentemente linguagem dura para se referir a Donald Trump mas, no discurso de vitória, o tom foi mais de renconciliação, prometendo que procuraria “relações amistosas”.

Viúvo, casado em segundas núpcias com Beatriz Gutiérrez Müller, Obrador tem quatro filhos e desde domingo é também uma espécie de ‘pai’ para o povo que lhe deu o lugar pedido para cumprir as ambiciosas promessas. Os mexicanos contam com a sua honestidade, esperam que prove ser de facto diferente da que chama a “máfia do poder”. Um verdadeiro homem “antissistema”, tal como se apresentou quando lhes pediu os votos.

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