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México. Obrador vence presidenciais e arrasa partidos que governaram à direita durante décadas

ALFREDO ESTRELLA/AFP/Getty Images

Andrés Manuel López Obrador foi eleito o novo Presidente do México, dando uma guinada à esquerda num país governado há quase um século à direita por apenas dois partidos, com particular destaque para o PRI. Obrador promete combater a “máfia do poder” e adotar uma nova abordagem em relação aos cartéis da droga, no centro da violência que assola o país. Em relação a Trump, México vai procurar “relações amistosas” com os EUA, disse no discurso de vitória

Andrés Manuel López Obrador venceu as eleições de domingo no México, tornando-se o novo Presidente do país. Homem de esquerda, nacionalista e populista, Obrador promete erradicar a corrupção e subjugar os cartéis de droga com uma abordagem menos conflituosa.

A contagem final dos votos deverá ditar um resultado superior aos 52% para a sua coligação, liderada pelo Movimento Regeneração Nacional (Morena), mais do dobro do segundo classificado, Ricardo Anaya, da coligação encabeçada pelo Partido Ação Nacional (PAN, direita), e bastante acima do terceiro lugar, ocupado pelo candidato do partido no poder, José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI, centrista).

No discurso de vitória, Obrador prometeu respeitar as liberdades civis e garantiu que não haverá ditadura na sua governação. “As mudanças vão ser profundas mas de acordo com a ordem estabelecida”, disse. Apelando à reconciliação nacional, repetiu a sua promessa de campanha de rever os contratos de energia em busca de sinais de corrupção. “A corrupção é o resultado de um regime político decadente. Estamos absolutamente convencidos de que este mal é a principal causa da desigualdade social e económica e também que a corrupção é a culpada da violência neste país”, acrescentou.

Obrador arrasa PRI e PAN

A vitória de Obrador, há muito prevista nas sondagens, é um duro golpe para o PRI, do atual Presidente Enrique Peña Nieto. O PRI governou o México de forma ininterrupta desde a sua fundação em 1929 e até 2000, sucedendo-lhe o PAN durante 12 anos. Nieto recuperaria o poder para o PRI em 2012 e agora Obrador, que só toma posse a 1 de dezembro, obriga o partido a novo jejum de liderança.

Um dos grandes desafios do recém-eleito Presidente, além da violência que custou a vida a pelo menos 145 políticos ou ativistas durante a campanha eleitoral, é a relação com o Presidente dos EUA. Donald Trump tem ameaçado rasgar o NAFTA – o acordo de comércio livre entre EUA, México e Canadá – e insiste na construção de um muro na fronteira, acusando o vizinho do sul de “nada fazer” contra a imigração clandestina vinda da América Central.

México vai procurar “relações amistosas” com Trump

Durante a campanha, Obrador usou frequentemente linguagem dura para se referir a Trump mas, no discurso de vitória, o tom foi mais de reconciliação, prometendo que procuraria “relações amistosas”. Trump reagiu logo na noite de domingo à vitória de Obrador, congratulando-o por se tornar o próximo Presidente do México. “Estou muito ansioso por trabalhar com ele. Há muito a fazer para beneficiar tanto os Estados Unidos como o México”, acrescentou.

No mesmo dia, Trump tinha levantado a hipótese de taxar carros importados do México no caso de haver tensão com o Governo saído das eleições.

Obrador, o líder mais à esquerda em mais de 80 anos

Nascido numa pequena aldeia do estado mexicano de Tabasco, Obrador começou por militar no PRI, juntando-se depois ao Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda). Em 2000, tornou-se presidente da Câmara da Cidade do México, renunciando cinco anos depois para entrar na corrida presidencial de 2006. Ao perder por pouco mais de meio ponto percentual, Obrador queixou-se de fraude eleitoral e liderou meses de protesto. Nas eleições seguintes, voltou a concorreu e voltou a perder, novamente numa coligação liderada pelo PRD. Em 2012, abandona o PRD e, dois anos depois, funda o Morena, movimento que lidera até concorrer às eleições deste domingo.

Obrador apresenta-se como o líder mais à esquerda no México desde que Lázaro Cárdenas assumiu o poder em 1934, distribuiu terras aos camponeses e nacionalizou a indústria estrangeira, incluindo as empresas de petróleo. Obrador também pretende ajudar os agricultores pobres, mas já sublinhou que não irá expropriar a propriedade privada.

Combater a “máfia do poder” e nova abordagem aos cartéis

Afirmando-se capaz de acabar sozinho com a “máfia do poder” e de erradicar a corrupção que manchou o Governo de Peña Nieto, Obrador tem um plano diferente para pôr fim aos cartéis da droga, que estão no centro de grande parte da violência que assola o país. Ao contrário do antigo Presidente Felipe Calderón, que em 2007 enviou o Exército para combater os cartéis – com um saldo negro de 230 mil mortos –, o novo Presidente do México fala numa amnistia para alguns responsáveis ligados ao tráfico de droga.

Obrador promete ainda transformar a residência oficial do Presidente do México num centro de artes, morar na sua própria casa de classe média, vender o avião presidencial e reduzir o seu salário. Compromete-se igualmente a combater a desigualdade, melhorar os salários e os gastos sociais e também a governar com um Orçamento apertado.

Nestas que também foram eleições legislativas, a coligação de Obrador liderava a contagem com 28 assentos no Senado, seguida pelas coligações do PAN (19) e do PRI (12), quando estavam apurados 64 dos 96 assentos. Na Câmara dos Deputados, a vantagem é inequívoca: 216 de um total de 300 assentos para a coligação de Obrador.