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México, o inferno onde mandam os cartéis

Rusga policial em casa de uma operária fabril cuja filha teve um esgotamento nervoso por passar os dias sozinha

O país que hoje escolhe novo Presidente vive dominado pelo tráfico de droga. Reportagem em Ciudad Juárez

Olga Ketellapper (texto), Marielle van Uitert (fotos)

Ciudad Juárez, que já foi a cidade mais perigosa do mundo, está de novo a caminho de o ser. Enquanto se mantiver a impunidade dos assassinos, os crimes continuarão.

Ao longo de uma estrada arenosa no deserto, um pouco a sul de Ciudad Juárez, os corpos empilhados de três homens jazem entre catos e iúcas. Estão inchados, azulados e mostram indícios de tortura. O cheiro penetrante significa que já estão ali há algum tempo. “Olhe, uma das mãos deles foi decepada”, aponta um dos elementos da equipe forense. “Isto significa que se trata de um crime relacionado com a droga.”

A violência relacionada com a droga está a aumentar no México. Com uma média de 80 assassínios por dia, o ano de 2017 foi o mais mortífero desde que há registos. Também em Ciudad Juárez, que foi a cidade mais perigosa do mundo entre 2008 e 2011, a violência está a crescer.

Ciudad Juárez está estrategicamente localizada na rota do tráfico entre a região onde a canábis e a papoila crescem e a fronteira com os Estados Unidos, o mercado de drogas mais importante. A cidade faz fronteira com El Paso, uma das cidades mais seguras dos Estados Unidos.

Os cidadãos temem que Ciudad Juárez volte a ser cercada, como em 2010, quando o número de mortes subiu para mais de 3000 com a chegada do exército e da polícia federal. Durante este período, que é chamado de “limpeza”, muitos civis inocentes morreram. Em 2017, foram cometidos mais de 800 assassínios, um grande aumento em comparação com os 546 de 2016 e os 322 de 2015 [em todo o México houve 29.168 assassínios em 2017, número que deve ser ultrapassado este ano se a criminalidade mantiver o ritmo dos primeiros cinco meses, em que, segundo o Governo mexicano, houve 20.506 homicídios].

Lesly, de 23 anos, chora o assassínio do marido, Luis Ángel Contreras, de 27, a que assistiu

Lesly, de 23 anos, chora o assassínio do marido, Luis Ángel Contreras, de 27, a que assistiu

Fotos Marielle van Uitert

Numa casa no distrito de Salvarcar veem-se, espalhadas pelo chão, garrafas vazias de cerveja, roupas, cartucheiras e esterco. Por cima da única janela da casa está escrito “Welcom to Infierno” (bem-vindo ao inferno, com erro ortográfico e tudo) em grandes letras negras. Atrás do sofá quebrado jaz um jovem com a camisa encharcada numa poça de sangue.

Luis Ángel Rodriguez Contreras, de 27 anos, conhecido por Jacky, é a enésima vítima de março. “Traficante de droga”, conclui imediatamente um dos funcionários forenses que recolhem provas. Do quarto sai o som da música sinistra do filme “Jeepers Creepers 3”, que continua a tocar.

“Estávamos a ver o filme na cama quando três homens entraram em casa e dispararam sobre ele”, diz, a chorar, Lesly, sua namorada de 23 anos. Bonita mas de aspeto descuidado, diz-se viciada em metanfetamina e canábis. “Luis Ángel estava realmente a traficar essas drogas. Mas depois da sua prisão, na semana passada, tinha decidido mudar de vida.”

Dois dias depois, o cortejo fúnebre, mistura colorida de carros antigos e camionetas de caixa aberta novas e caras, segue rumo a San Rafael, o cemitério dos pobres. Enquanto quatro homens cavam um buraco, dois mariachis cantam para os mortos: “Quero abraçar-te, mas é impossível porque tu estás com Deus”. Carlos, irmão de Luis Ángel, dá-lhes dois pesos de cada vez para continuarem a tocar. Nervoso, bebe cerveja atrás de cerveja. Lesly não está.

Segundo Carlos, o seu irmão foi assassinado porque ameaçou um amigo no Facebook que ainda lhe devia mil pesos (cerca de 45 euros). Passados dois dias, esse rapaz foi morto. “Avisei Luis Ángel para fugir, mas ele disse que não o matou. Que descanse em paz, no céu ou onde quer que esteja.”

Batalha entre cartéis

A maioria dos assassínios resulta de uma batalha entre o cartel de Juárez e o cartel de Sinaloa, liderado por El Chapo Guzmán (a aguardar julgamento nos EUA em setembro). “O cartel de Juárez e o gangue armado que lhe está associado, Los Aztecas, traficam heroína, cocaína e canábis. O cartel de Sinaloa e os seus associados Mexicles traficam sobretudo cocaína, canábis e metanfetaminas”, diz o comandante da polícia Benjamin Solis.

O cartel de Juárez não permite o tráfico de metanfetaminas, extremamente viciantes e perigosas. Mas não é por compaixão. “A maioria dos utilizadores vive no máximo três anos, por isso esse comércio não é economicamente tão interessante. Os consumidores de heroína e cocaína duram bastante mais tempo”, explica o comandante.

“Os narcotraficantes transmitem mensagens através das pessoas que matam.” A comandante da polícia Nancy Furlong mostra o que diz através das fotos no seu telemóvel. É responsável pela equipa de investigação de assassínios na cidade. “Um dedo ou mão cortada é sinal de que roubaram os narcotraficantes. Outro aviso é um corpo abandonado com uma lâmpada na mão. ‘Cristal’ é como se diz vidro em espanhol. A lâmpada é um aviso de um cartel para outro não vender crystal meth [metanfetaminas].”

Dois dias depois, foi atacada uma pessoa muito importante do Ministério Público. Não estava sentado no carro que foi baleado, mas o seu guarda-costas e um funcionário público morreram.

As vítimas de violência são, na maioria, rapazes como Luis Ángel, oriundos de bairros pobres. As autoridades costumam falar de consumidores de drogas, membros de gangues ou de gangues do mundo do crime. Ou dizem que se tratava de um adolescente que andava pela rua noite dentro. “Esse tipo de linguagem é perigoso, porque cria uma nova moralidade. Se lhe acontecer algo, é da sua inteira responsabilidade”, afirma Julia Monárrez, diretora do instituto de investigação Colegio de la Frontera Norte. “Transforma as pessoas em produtos descartáveis da cidade, para que as autoridades não tenham de fazer nada. Mas no fim de tudo é ao Governo que cabe a responsabilidade pela violência, devido ao extremo abandono a que vota a cidade.” Monárrez chama-lhe “política necro”. “Há um Governo oficial e um Estado paralelo do crime organizado e da criminalidade. Este determina quem sofre que destino. A corrupção é um problema gigante. A riqueza é dividida entre eles, até às instâncias mais altas. Não há necessidade política de mudar nada.”

A cidade parece uma zona de guerra. Muitos civis deixaram-na por causa da violência. Nunca vão voltar. Mais de um quarto das casas está vazio. Numa casa em ruínas do distrito de Isla Havaí, veem-se pelo chão agulhas usadas. “Tentamos identificar os consumidores e traficantes, mas são mais rápidos do que nós”, diz o comandante Solis.

No entanto, quatro policiais fortemente armados prendem o traficante de heroína Carlos Ricardo Elizalde Lira, de 44 anos, minutos depois. Encontram cerca de quinze piedras, pedaços de heroína que parecem pedras de cascalho. Carlos tem o corpo todo tatuado. “Sou azteca”, diz, com orgulho. É conhecido pela polícia e já esteve preso por tráfico. Ao lado do olho esquerdo tem tatuada uma lágrima, sinal de luto por alguém.

Mais tarde naquele dia, três adolescentes são detidos por estarem a fumar um charro. “Perguntamos sempre a quem compram aquela merda, para descobrir a alta hierarquia, mas nunca falam. “Revistamos principalmente rapazes de boné e calças largas, entre os 15 e os 30 anos, porque parecem suspeitos. Sob o direito mexicano, as detenções sem provas diretas são ilegais”, diz Solis. “Mas sim, temos de fazer alguma coisa.”

Clima de impunidade

A grande maioria da população não confia na polícia. “A polícia do México escolhe aleatoriamente pessoas para dar a impressão de que está a fazer algo contra os crimes. Isso leva a que todos se tornem vítimas potenciais de violações dos direitos humanos, prisões aleatórias e até tortura”, lê-se num relatório da Amnistia Internacional publicado no ano passado.

Durante uma patrulha policial em Anapra fica clara a razão por que muitos jovens escolhem viver do narcotráfico. Muitas casas não têm eletricidade nem água corrente. Os esgotos são a céu aberto. Pessoas da América Central e do resto do México vêm para Anapra porque há trabalho nas maquiladoras. Estas fábricas de montagem foram construídas no século passado por grandes empresas internacionais com o objetivo de fornecer produtos baratos aos Estados Unidos.

Numa maquiladora ganha-se 10 pesos (€0,44) por hora, no tráfico de drogas ganha-se muito mais. Mais vale uma boa vida por três anos do que uma vida dura durante trinta. É por isso que muitos jovens se juntam a um gangue. Os que possuem visto laser, que lhes permite atravessar a fronteira com os Estados Unidos, são recrutados através do Facebook. “Procuramos mulheres de mente aberta que queiram trabalhar este fim de semana e ganhar bom salário”, anuncia alguém que tem uma foto falsa e apenas quinze amigos num grupo online que oferece empregos em Juárez.

Jovem preso por consumo de drogas numa casa abandonada

Jovem preso por consumo de drogas numa casa abandonada

Fotos Marielle van Uitert

Nestes bairros de barracas, “os gangues não dão opção aos jovens”, explica Solis. “Sob a ameaça de uma arma, a escolha é: vender drogas ou morte”. Concorda com Monárrez: o Governo deveria intervir. “Tudo aqui começa com a pobreza extrema. O Governo devia promover empregos, educação e espaços onde os jovens pudessem praticar desporto.

A hipótese de ser punido por um crime no México é de aproximadamente 1,5%. A polícia detém alguns traficantes menores de vez em quando, mas não tem recursos humanos nem financeiros para prender os grandes e investigar os crimes. A maioria dos crimes nem sequer é denunciada.

“Tenho um grupo de vinte pessoas para resolver todos os homicídios em Juárez”, diz Furlong. “Tenho toda a equipa ocupada com os cinco corpos que encontrámos hoje. Quase não há tempo para investigar casos anteriores de homicídios e muito menos para trabalhar com todos os processos abertos.”

Um agente que pede o anonimato aponta para a fronteira dos Estados Unidos, a apenas cinco quilómetros. O tráfico de drogas e, portanto, a violência continuarão a existir enquanto as drogas valerem uma fortuna por lá. “Não podemos derrotar os cartéis de droga existentes, de ex-militares e ex-polícias, organizados tal como nós, mas melhor. Quando alguém é apanhado ou se afasta, é imediatamente substituído por outro. Além disso, têm muito mais dinheiro e recursos”.

Um dos três homens que mataram Luis Ángel é apanhado, outro é assassinado e o terceiro está em fuga. Nunca se soube quem eram os três homens assassinados no deserto e se alguém foi detido por este triplo assassínio.