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Internacional

Quando os jornais desaparecem os governos gastam mais

Pedro Cordeiro

Esse efeito tem a ver com a falta de vigilância sobre a administração pública, que por sua vez gera desconfiança e faz aumentar os custos do crédito, diz um estudo americano

Luís M. Faria

Jornalista

Em todo o mundo, a imprensa escrita está em queda desde há décadas. Que isso é mau para a democracia, sabe-se há muito, apesar de haver quem ache que a lacuna é preenchida com o jornalismo online, com as suas múltiplas fontes de informação.

Agora um estudo realizado por investigadores da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, ilustra de forma bastante concreta os efeitos da falta de jornais na qualidade da administração pública.

O estudo, feito sobre dados de entre 1996 e 2015, examinou a relação entre o nível de gastos públicos e a presença ou ausência de jornais nos respetivos mercados. Num universo de 1600 jornais em 1266 condados pelo país fora, foram examinadas e comparadas situações em zonas similares do ponto de vista económico e demográfico, mas onde umas tinham (ou ainda têm) imprensa local e outras deixavam (ou haviam deixado) de a ter.

As conclusões parecem ser inequívocas. "Quando não há jornais locais para responsabilizar os governos, vemos os custos aumentaram devido a uma falta de escrutínio dos negócios locais", afirmou Pengjie Gao, um dos autores do estudo.

Com a ausência de um orgão de comunicação com pessoal qualificado e facilmente acessível a toda a gente que exercesse a função de vigilância sobre a administração pública, esta ficou muito mais à vontade para defender interesses que não eram os do público, ou deixou de fazê-lo da melhor maneira.

Ligado a esse efeito (que implica mais desconfiança em relação ao poder local) houve outros. Explica Gao: "Com a perda da cobertura noticiosa local, o custo do crédito para as cidades também sobe - mais do que em zonas próximas. Os custos das obrigações sobem entre 5 e 11 pontos, e estes resultados não têm a ver com as condições económicas subjacentes".

Para não restarem dúvidas, esse aumento "tende a acontecer só quando o último jornal desaparece, não quando um parte e outros ficam", explica Gao. "Isso indica que o efeito está relacionado com a função de vigilância do jornal, não com fatores económicos".