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Coreia do Norte. Conheça as reações ao acordo entre Trump e Kim

JONATHAN ERNST // REUTERS

Acontecimento histórico e passo crucial e necessário para a desnuclearização da península da Coreia. Pelo meio, há quem sugira o nome do presidente dos Estados Unidos para Prémio Nobel da Paz. Saiba como o Mundo reagiu ao acordo entre Trump e Kim

O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, saudou esta terça-feira o acordo de Singapura entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte como um "acontecimento histórico que põe termo à Guerra Fria".

O acordo de 12 de junho "ficará na história mundial como um acontecimento que pôs termo à Guerra Fria", declarou Moon após o encontro histórico entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e o dirigente norte-coreano, Kim Jong-un.

A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, disse esta terça-feira que o encontro dos líderes dos Estados Unidos da América (EUA) e da Coreia do Norte "foi um passo crucial e necessário" para a desnuclearização da península.

"O principal objetivo, partilhado por toda a comunidade internacional e expresso pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, continua a ser a desnuclearização total, verificável e irreversível da Península Coreana. A declaração conjunta esta terça-feira assinada pelos líderes dos EUA e da Coreia do Norte é um sinal claro de que este objetivo pode ser atingido", disse Mogherini, em comunicado.

Para a Alta Representante para a Política Externa e de Defesa da UE, "esta cimeira foi um passo crucial e necessário para se aprofundar os desenvolvimentos positivos alcançados até agora nas relações entre as Coreias, graças à liderança, sabedoria e determinação do Presidente da República da Coreia, Moon Jae-in".

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) está "pronta para realizar quaisquer atividades de verificação" sobre os complexos nucleares norte-coreanos, afirmou esta terça-feira o secretário-geral do organismo, que saudou o resultado da cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un.

"A AIEA está pronta para realizar quaisquer atividades de verificação na Coreia do Norte que os países envolvidos possam requerer", declarou Yukiya Amano num comunicado. Amano congratula-se também com o documento assinado pelos dirigentes norte-americano e norte-coreano sobre a desnuclearização da península coreana.

A Coreia do Norte abandonou no final de 2002 o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, após o fracasso das negociações a seis (Estados Unidos, China, Japão, Rússia e as duas Coreias), os inspetores da AIEA foram expulsos em 2009.

Desde então, a AIEA vigia apenas através de imagens de satélite e de outras fontes secundárias as atividades nucleares da Coreia do Norte, que desenvolveu um número não determinado de bombas atómicas e realizou seis ensaios.

O Governo britânico saudou esta terça-feira a "cimeira construtiva" entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, no sentido de estabilizar a região, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson.

"Congratulamo-nos com o facto de o Presidente Trump e Kim Jong-un terem realizado uma cimeira construtiva. Este é um passo importante para a estabilidade de uma região vital para o crescimento económico global e onde estão milhares de cidadãos britânicos e o Reino Unido tem interesses importantes", referiu num comunicado.

O compromisso de avançar para completa desnuclearização da Península Coreana que já tinha sido assumido na Declaração de Panmunjom, acrescentou, "é um sinal de que Kim Jong-un pode ter finalmente percebido a mensagem de que apenas uma mudança de rumo pode trazer um futuro seguro e próspero à população da Coreia do Norte".

Porém, avisou que "ainda há muito trabalho a ser feito" e exorta o líder norte-coreano para que "continue a negociar de boa fé uma desnuclearização total, verificável e irreversível", reiterando o apoio britânico aos EUA neste objetivo.

A Rússia considerou esta terça-feira "positiva" a histórica cimeira realizada em Singapura entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, para conseguir a desnuclearização da península coreana.

"Vimos a televisão, seguimos os comentários que as duas partes fizeram. Não vimos os documentos, creio que ainda não foram publicados. Mas o simples facto do encontro se ter realizado é positivo", declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, citado pela agência Ria Novosti.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Riabkov, pronunciou-se no mesmo sentido em declarações à agência Tass, indicando que o acontecimento é "bem-vindo" dado tratar-se de "um passo importante". Riabkov assinalou, no entanto, que "o diabo está nos detalhes", defendendo ser "necessário entender o mais específico".

Adiantou que Moscovo está disposto a apoiar do ponto de vista político e prático um acordo para a resolução da crise nuclear e para desbloquear a cooperação com Pyongyang.

A China considerou esta terça-feira que os Estados Unidos e a Coreia do Norte estão a "criar uma nova história", depois da cimeira de Singapura, e lembrou o seu contributo para a pacificação da península. "A China apoia, porque é aquilo que temos esperado", afirmou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang.

Os líderes dos EUA e Coreia do Norte, Donald Trump e Kim Jong-un, respetivamente, assinaram esta terça-feira uma declaração conjunta, na qual Pyongyang se compromete a trabalhar no sentido de uma completa desnuclearização e Washington a proporcionar ao país "garantias de segurança".

Geng lembrou o contributo da China para a resolução da questão norte-coreana, nomeadamente a proposta de "dupla suspensão": o fim das manobras militares dos EUA e da Coreia do Sul na península coreana e, ao mesmo tempo, a paragem dos testes com armamento nuclear por parte da Coreia do Norte.

"A proposta de suspensão por suspensão é a correta e foi concretizada", afirmou Geng, lembrando que Pequim "tem vindo a apelar aos dois lados para que mantenham o diálogo diplomático". O porta-voz lembrou ainda a importância de os EUA "levarem seriamente e atenderem as preocupações com a segurança da Coreia do Norte". "A outra parte deve também tomar medidas construtivas", afirmou.

A China é o principal aliado diplomático da Coreia do Norte. Em março passado, Kim Jong-un visitou Pequim e encontrou-se com o Presidente chinês, Xi Jinping, na sua primeira visita ao estrangeiro desde que assumiu a liderança da Coreia do Norte, há mais de seis anos. Menos de dois meses depois, Kim voltou a reunir-se com Xi, na cidade chinesa portuária de Dalian, no nordeste do país, numa cimeira surpresa.

O Governo japonês expressou esta terça-feira o desejo de que a Coreia do Norte "se comporte como um país responsável" após a cimeira de Singapura em que acordou com os Estados Unidos trabalhar para a total desnuclearização.

"Esperamos que a Coreia do Norte se comporte como um país responsável na comunidade internacional" a partir de agora, disse o porta-voz do executivo japonês numa conferência de imprensa no final das mais de quatro horas de reuniões entre o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un.

O responsável escusou-se a avaliar o resultado da cimeira de esta terça-feira até Trump telefonar ao primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, nas próximas horas para o informar, mas enfatizou "a liderança e o esforço do presidente Trump para tornar realidade [a reunião]".

Enquanto Trump e Kim estavam envolvidos na cimeira, Abe disse ter esperança de que o encontro ponha fim ao desenvolvimento nuclear e de mísseis de Pyongyang.

A Coreia do Norte "tem recursos abundantes [naturais] e uma força de trabalho diligente e terá um futuro brilhante se seguir o caminho certo", disse Abe em declarações à agência de notícias local Kyodo, em Tóquio, após uma reunião com o seu colega malaio, Mahathir Mohamad.

O chefe da diplomacia japonês, Taro Kono, recebeu um telefonema logo após o encontro com o seu colega norte-americano, o secretário de Estado Mike Pompeo, uma conversa cujo conteúdo não foi divulgado. Horas antes, Kono foi cauteloso sobre a cimeira e disse que "o foco deve ser se a Coreia do Norte mostrará o seu claro compromisso de fazer esforços para abandonar todas as armas de destruição em massa e mísseis de todos os níveis". Taro Kono viajará entre os dias 13 e 14 de junho para Seul para se reunir com Pompeo e com a chefe da diplomacia sul-coreana, Kang Kyung-wha.

Por seu lado, o ministro da Defesa do Japão, Itsunori Onodera, afirmou: "Mesmo que uma certa promessa seja feita na cúpula, devemos ter cuidado para não baixar a guarda até que possamos confirmar que medidas específicas foram tomadas" para cumpri-la.

Tóquio tem sido muito cética sobre o diálogo com Pyongyang e é a favor de manter a política de "pressão máxima" sobre o regime, embora Trump, o principal arquiteto dessa estratégia, tenha baixado o tom quando a cimeira se aproximou.

A ministra francesa dos Assuntos Europeus, Nathalie Loiseau, considerou esta terça-feira que foi dado um "passo significativo" com o documento assinado por Donald Trump e Kim Jong-un, mas afirmou duvidar que se "tenha alcançado tudo nas últimas horas".

"Duvido que tudo tenha sido alcançado em poucas horas, mas é um passo significativo", declarou ao canal de televisão LCP, referindo-se à cimeira que começou pouco depois das 9h de terça-feira (2h em Lisboa), num hotel em Singapura, e que resulta de uma frenética atividade diplomática em Washington, Singapura, Pyongyang e na fronteira entre as duas Coreias.

"Esta reunião é em si significativa, mas ainda não sabemos nada do documento que foi assinado. Será analisado quando for divulgado", indicou. A responsável sublinhou estar à espera do início da negociação sobre a desnuclearização da península coreana.

O ex-embaixador de Singapura nas Nações Unidas Kishore Mahbubani disse esta terça-feira à Lusa que Donald Trump merece o Prémio Nobel da Paz pelo "êxito" da cimeira com Kim Jong-un, que decorreu na cidade-Estado.

"Sinceramente, se tivesse de escrever um artigo sobre esta cimeira, diria que deveríamos nomear Donald Trump para o Prémio Nobel da Paz", disse à Lusa Kishore Mahbubani, considerando que o Presidente dos Estados Unidos está a contribuir para o desanuviar da tensão na península coreana.

"Uma das fronteiras mais perigosas do mundo - entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul - de repente ficou menos perigosa, graças a Donald Trump. É por isso que ele merece o Prémio Nobel da Paz", acrescentou.

Kishore Mahububani, 70 anos, foi diplomata de Singapura durante 33 anos, ocupou o cargo de embaixador da cidade-Estado nas Nações Unidas e é professor de Políticas Públicas Aplicadas na Universidade Nacional de Singapura. Mahububani está em Lisboa para o lançamento do livro "A Queda do Ocidente - Uma Provocação", em que interpreta as atuais relações políticas ocidentais e a realidade no Extremo Oriente.

"Se nos lembrarmos como estava a situação há um ano - com a Coreia do Norte a executar testes com mísseis e a realizar ensaios nucleares, e com Donald Trump e Kim Jong-un a insultarem-se um ao outro -, a situação na Península da Coreia ia de mal a pior. Agora, um ano depois, assistimos a um grande volte-face", sublinhou Kishore Mahbubani.

Para o ex-diplomata de Singapura, "afinal" o regime norte-coreano mostrou que é "muito racional" e que se pode negociar com Pyongyang.

"Eu fui diplomata durante 33 anos e uma das grandes lições da diplomacia é a de que devemos falar uns com os outros. Uma pessoa fica surpreendida com os progressos que são possíveis quando entendemos as preocupações e as necessidades dos outros. Os processos são mesmo assim. Donald Trump e Kim Jong-un agora percebem-se melhor", acrescentou Kishore Mahbubani.

Para o académico e ex-diplomata, no processo da península coreana Singapura deve limitar-se a servir "chá e café". Porém, destacou, a cidade-Estado é um dos poucos pontos do mundo capaz de acolher um encontro entre Pyongyang e Washington, ao mais alto nível.

"Tal como o primeiro-ministro de Singapura disse: 'nós só estamos aqui para servir chá e café'. Não é inteligente para Singapura envolver-se nos aspetos substanciais da questão, mas é muito importante criarmos um ambiente confortável para os Estados Unidos e para a Coreia do Norte, dado que temos relações diplomáticas com ambos os países. Somos um dos poucos Estados que podem garantir neutralidade e segurança para a realização de um encontro histórico como este", concluiu.

O porta-voz do governo iraniano Mohammad Bagher Nobakht alertou esta terça-feira o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, que o presidente Donald Trump pode anular qualquer acordo nuclear com Pyongyang. "Estamos face a um homem que revoga a sua assinatura", disse Nobakht citado pela agência oficial Fars.

As declarações do porta-voz são as primeiras da parte do Irão depois de Trump e Kim terem terminado em Singapura a sua histórica cimeira sobre a desnuclearização da Coreia do Norte.

A coordenadora do BE afirmou esta terça-feira ser preciso "aguardar para saber dos efeitos concretos" do documento assinado entre Donald Trump e Kim Jong-un, considerando, no entanto, "importantes" todos os passos que "forem dados para desmilitarização".

"Tudo o que forem passos para desmilitarização são passos importantes. Eu julgo que temos que aguardar para saber dos efeitos concretos do que assistimos hoje", afirmou Catarina Martins aos jornalistas, no Porto, à margem de uma visita ao Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).

O dirigente comunista Pedro Guerreiro admitiu esta terça-feira que a cimeira de Singapura, entre Coreia do Norte e EUA, "poderá ser um passo" para "uma solução pacífica" do conflito na região se o Presidente norte-americano cumprir o acordado.

"Poderá representar um passo no sentido de uma solução pacífica para um conflito que se arrasta há mais de 65 anos devido a uma política que se caracteriza por uma intransigência e caráter agressivo dos EUA, que mantém um poderoso dispositivo militar na Coreia do Sul", disse, em declarações à agência Lusa.

Há quase um ano, em entrevista à Lusa, o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, afirmou-se disponível para condenar atos beligerantes do líder norte-coreano, Kim Jong-un, através de um voto no parlamento português, desde que o texto desaprovasse igualmente as provocações norte-americanas, em favor de uma "solução política, sem violência militar".

"Gostaríamos de recordar que, no passado, também foram estabelecidos acordos e compromissos entre a República Popular Democrática da Coreia [Coreia do Norte] e os EUA que, posteriormente, não foram cumpridos pela parte norte-americana", lembrou Pedro Guerreiro.

Por isso, sublinhou, "a solução para este conflito passa, necessariamente, pelo respeito pelos princípios de soberania e independência nacionais e o direito do povo coreano a decidir sobre os seus próprios destinos, tendo em vista a concretização de uma sua aspiração: a reunificação pacífica da Coreia".

O membro do secretariado do Comité Central do PCP, que recordou outras quebras de compromissos por parte do líder norte-americano, Donald Trump - como os acordos nuclear com o Irão ou climatéricos de Paris -, considerou essencial que seja dada "garantia de efetivas medidas de segurança, com vista ao objetivo da paz estável e duradoura" na península coreana, finalmente "livre de armas nucleares e de forças estrangeiras estacionadas".

"É um processo complexo, mas a realidade demonstra que os EUA têm de mudar posicionamento em relação a este conflito e, finalmente, aceitar um acordo de paz que têm vindo a negar", afirmou Pedro Guerreiro.