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Kim e Trump: O amor está no ar

SOPA Images/Getty

O “feeling” de Donald Trump sobre uma “doce reaproximação” entre Estados Unidos e Coreia do Norte justifica-se, explicam ao Expresso peritos da CIA e do Departamento de Estado americano, horas antes da cimeira de Singapura

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aposta que a “química” pessoal com o homólogo norte-coreano Kim Jong Un ajudará a construir “pontes” entre os regimes rivais. A suposta empatia servirá de pano de fundo à reunião de cerca de duas horas entre ambos esta madrugada, em Singapura, onde se farão acompanhar apenas por um par de tradutores. Mais tarde, as conversações serão alargadas aos restantes membros das delegações.

Note-se que do lado americano, além do secretário de Estado, Mike Pompeo, e do chefe de Gabinete, o general John Kelly, estará presente o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, um apoiante da Guerra do Iraque, que, aparentemente, terá pouca fé nas negociações, defendendo uma posição mais robusta que inclua a possibilidade de deposição pela força do regime comunista.

Aliás, a própria cimeira esteve em risco após uma entrevista de Bolton à CBS há cerca de três semanas, quando comparou o dossiê nuclear norte-coreano ao negociado com a Líbia. As palavras não caíram bem em Pyongyang, que alegou que essa reaproximação fragilizou o ditador Muammar Kadhafi, assassinado na sequência de uma revolta popular.

Apesar da polémica, Trump reafirmou que o seu “dom para fazer bons acordos” e “habilidade negocial" chegarão para sair de Singapura com uma vitória. “Se ambos não abandonarem o encontro a meio já será bom sinal”, confessa ao Expresso Balbina Wang, ex-conselheira sénior da Casa Branca para assuntos do leste asiático, onde co-liderou as negociações com Pyongyang durante as administrações W. Bush e Obama.

Com mais de 20 anos de experiência nesta área, Wang considera “normal” que, após vários meses de troca de insultos, Trump e Kim tenham chegado a este ponto. “A maneira de parar a Coreia do Norte é através da manifestação de força e de um discurso agressivo. Eles não entendem de outra forma. Os recuos do passado encorajaram Pyongyang”.

Igualmente optimista, Robert Carlin, o super-espião da CIA para a Coreia do Norte, onde já esteve mais de 40 vezes, a última das quais há cerca de um ano e meio, numa “missão de apaziguamento” patrocinada pela Universidade de Stanford, garante que, apesar das ameaças recíprocas, “o entendimento pode ser mais fácil do que se imagina”.

Sucintamente, explica porquê: “EUA e supostos rivais como a Rússia estão do mesmo lado na defesa da estabilização da Coreia do Norte, temendo que o contrário possa gerar proliferação e inclusivamente o acesso de grupos terroristas a armas de destruição massiça. A história move-se de forma misteriosa e as rivalidades dependem das circunstâncias. A desestabilização da Coreia seria má para toda a gente por causa do eventual contágio nuclear a grupos criminosos”.