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“A violência irá aumentar nas sociedades multiculturais”. Entrevista com o editor dinamarquês que publicou os cartoons de Maomé

Em 2005, Flemming Rose, então editor do jornal “Jyllands-Posten”, decidiu publicar uma série de cartoons com a figura de Maomé. O objetivo era promover um debate sobre autocensura, espoletado por uma notícia sobre a dificuldade de um autor de literatura infantil em conseguir que alguém ilustrasse o profeta, ato proibido pelo Islão. O gesto de Rose, que muitos consideraram blasfemo, gerou uma onda de violência contra cidadãos e interesses ocidentais no Médio Oriente. O autor de uma das ilustrações foi alvo de tentativa de assassínio. Em entrevista ao Expresso, o jornalista dinamarquês, que passa longas temporadas nos Estados Unidos, onde colabora com o Cato Institute, conta como se sobrevive na mira da Al-Qaeda. Apesar disso, insiste que o pior inimigo das liberdades não é o terrorismo islâmico, mas as próprias sociedades ocidentais, cujas novas gerações valorizam menos esse aspeto. O mesmo sucede, explica, com alguns governos europeus que, perante o aumento da diversidade, criam tabus e policiam o politicamente incorreto.

Cartaz com caricatura de Maomé numa homenagem aos dez jornalistas e dois polícias assassinados em Paris

Cartaz com caricatura de Maomé numa homenagem aos dez jornalistas e dois polícias assassinados em Paris

FOTO Adam Berry/Getty Images

Continua na lista negra da Al-Qaeda. Como é que se sobrevive com a cabeça a prémio?
Com segurança permanente, 24 horas por dia e sete dias por semana. Tive várias ameaças de morte após a publicação dos cartoons, por isso estou em constante comunicação com a polícia dinamarquesa e serviços de informações.

Pode dar pormenores do esquema de segurança?
O número de guarda-costas, por exemplo, depende do que estou a fazer. Se for dar uma palestra, sou acompanhado por seguranças armados, que patrulham o interior e o exterior do edifício, e os espectadores têm de passar por detetores de metais. É um sistema pouco usual para um país pacato como a Dinamarca. Hoje já não recebo tantas ameaças de morte, mas sei que as autoridades não me contam tudo. Também não preciso. Nos EUA é mais fácil circular do que na Europa. Tenho contacto com as autoridades americanas, mas não se compara.

Dois terços dos dinamarqueses apoiam-no hoje, ao contrário do que aconteceu em 2005 (apenas um terço). O que mudou?
Tornou-se claro que os cartoons não foram provocação nem tentativa de fazer pouco dos muçulmanos. Percebeu-se também que há problemas reais e que temos de enfrentá-los.

Que problemas são esses?
Como é que vivemos em paz numa sociedade cada vez mais diversa, do ponto de vista cultural, étnico e religioso? Esse problema é agudo na Europa, com sucessivas vagas de migrantes e refugiados. Não quero minimizar a questão do extremismo religioso no Islão, mas gostaria de formatar a questão desta forma, com um sublinhado na diversidade, pois existe um instinto tribal nos seres humanos de rejeitar essa mesma diversidade, dado que é mais fácil viver rodeado de pessoas como nós. A violência irá aumentar nas sociedades multiculturais, pelo menos até que se criem leis que resolvam estes desacordos sem violência nem intimidação. É um desafio específico para muitos muçulmanos, visto que o Islão atravessa uma crise e no Médio Oriente renasceu a ideia do grande califado. Após os ataques ao “Charlie Hebdo”, as sondagens revelaram que, embora os muçulmanos residentes na Europa não se considerem extremistas, 25% deles declaravam que era correto matar quem ofendesse o profeta. Quanto mais diversificada fica a sociedade, maior deve ser a diversidade de opiniões, maior deve ser a abertura para a liberdade de expressão. Uma sociedade multicultural precisa de mais liberdade de expressão e não de menos, tal como alguns alguns políticos europeus acreditam.

Nos EUA personalidades da esquerda acusam os próprios democratas de subestimarem o peso do extremismo no mundo muçulmano. Concorda?
Totalmente, mas não acho que este seja um assunto de esquerda ou de direita, até porque também tenho pessoas de direita a criticarem-me, pois não aceitam que eu ofenda as sensibilidades religiosas. Acho que este assunto tem que ver com os fundamentos de uma democracia secular e liberal. Não interessa se estamos à esquerda ou à direita. As diferenças políticas são sobre distribuição da riqueza, impostos, educação, emigração, etc. Esta discussão é sobre direitos cívicos fundamentais.

Entende que essa revolta interna no Partido Democrata se baseia na ideia de que há quem prefira o politicamente correto a levantar a voz contra a violação dos direitos humanos?
Sim, esse é o desafio da esquerda e por agora há incoerência nesse espaço. Se quisermos defender os muçulmanos como representativos de uma minoria no mundo ocidental, temos, acima de tudo, de defender o indivíduo. Na Europa os cidadãos mais vulneráveis são aqueles que vivem em comunidades muçulmanas: as mulheres que não querem ser dependentes dos homens, as jovens que querem ter a possibilidade de escolher com quem querem casar, que escola ou universidade frequentar, os homossexuais, os muçulmanos que querem viver de forma menos conservadora ou até abandonar a religião. São os indivíduos que têm dificuldades em exercer os seus direitos numa democracia. Por isso, quando olhamos para a comunidade muçulmana como uma entidade homogénea, é muito perigoso para esses indivíduos, gente como nós e vítima de imãs retrógrados que querem limitar as liberdades individuais.

Porém, se hoje disser em certas universidades americanas que “existem demasiados muçulmanos capazes de matar em nome da sua religião” (as palavras são suas), ficará em apuros.
Tive essa experiência durante uma palestra, no ano passado, no Franklin Marshall College. Não me impediram de falar, mas fui confrontado por manifestantes que ficaram de pé, de mão dada, formando uma corrente humana à volta do palco. Uns choravam, outros gritavam que eu era um branco privilegiado, que só a minha presença os fazia sentir inseguros, e criticaram o professor que me tinha convidado, um apoiante de Bernie Sanders. Temos os mesmos debates na Europa, mas não são tão histéricos.

Porque se instalou este ambiente nas universidades americanas?
Relaciona-se com a perceção que as novas gerações têm de liberdade, o que coloca, especificamente, a liberdade de expressão em maus lençóis [segundo um estudo da Universidade de Harvard, publicado em novembro, apenas um terço dos millennials americanos considera que os direitos cívicos “são essenciais numa sociedade democrática”]. Muitos estudantes americanos entendem a democracia como forma encontrada pelo homem branco para espezinhar as minorias. Contudo, se olharmos para a História, percebemos que não é verdade, pois as minorias sempre necessitaram de liberdade de expressão para fazer valer os seus pontos de vista. É claro que este desprezo dos mais novos pelas liberdades não apareceu de repente. Tem muito que ver com os pais, os tais pais-helicópteros, e com a forma como se generalizou um certo tipo de educação no qual, dificilmente, os mais novos brincam sem terem uma pessoa mais velha por perto, o que complica o processo de amadurecimento. As pessoas têm de ser habituadas a resolver os seus conflitos, sem um pai ou uma mãe ao lado, interferindo sempre que algo corre mal.

Conforto em excesso?
Sem dúvida. E, quando esta geração entra na universidade, a primeira coisa que faz é apelar às autoridades, aos outros, para que resolvam os seus problemas. É por isso que pela primeira vez os estudantes estão ao lado de quem quer reduzir a liberdade de expressão. Foi sempre o contrário, as faculdades a definirem o que pode ou não ser feito e os estudantes a exigirem mais liberdade. Relaciona-se com a cultura do mimo em demasia, que lhes transmite a ideia de que não podem sofrer qualquer dor ou desconforto durante a vida, de que têm direito a espaços seguros, livres de microagressões e desacordo.

Por falar em desconforto com opiniões diferentes, até o movimento #MeToo tem sido criticado por ter martirizado nas redes sociais apoiantes seus que criticam todos os atos de agressão sexual, mas que se recusam a meter no mesmo saco um apalpão e um crime de violação.
É estranho, porque tais distinções são óbvias para qualquer pessoa. Pergunte-se às vítimas de violação se existe ou não essa diferença. Esta discussão à volta do #MeToo, da sua dificuldade em aceitar opiniões diferentes, assemelha-se muito à discussão sobre liberdade de expressão entre professores e estudantes, quando estes se queixam da violência das palavras, de que não há diferença entre dizer algo violento e agir violentamente. O assédio é uma praga e temos de falar disso e encontrar formas de o combater, mas tal não significa que deixemos de perceber que na realidade existe gradação.

Aversão ao contraditório, recusa em aceitar essa gradação e a crença em factos alternativos indiciam que o racionalismo saiu de moda?
Absolutamente. O Presidente Trump é famoso por falar em notícias falsas e apresentar factos alternativos, mas ele é produto desta atitude pós-moderna de relação solta com a ciência. Alguns dos seus defensores são muito apreciados nas universidades americanas. Não acreditam que existam factos e estão convictos de que a verdade é sempre relativa. Por exemplo, não podemos dizer que uma universidade é melhor do que outra ou que há valores melhores do que outros. Assim, de uma forma muito estranha, Trump é a personificação desta mentalidade pós-moderna. No seu último livro, “Enlightment Now”, Steven Pinker argumenta a favor dos fundamentos do Iluminismo, da liberdade de expressão, espírito crítico científico, pensamento lógico… É uma ironia que este conjunto de ideias, que funcionou tão bem nos últimos 200 anos, melhorando e de que maneira a vida das pessoas, esteja a ser posto em causa pelas mesmas pessoas que dele beneficiaram. É a crise dos nossos tempos. Sim, o Estado Islâmico é um problema. A China e a Rússia são um desafio. Porém, a crise principal no Ocidente é interna. É uma crise de falta de fé no nosso próprio sistema político e económico.