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A morte do candidato da esperança

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Há 50 anos Robert Kennedy era morto a tiro quando se preparava para assegurar a nomeação democrata para as eleições presidenciais. Como teria sido a América se ele tivesse ganho?

Na madrugada de 5 de junho de 1968, num corredor da cozinha do Hotel Embaixador em Los Angeles, um jovem americano de origem palestiniana disparou contra o senador Robert Kennedy, irmão mais novo do Presidente John Kennedy, assassinado cinco anos antes em Dallas. Dois tiros na cabeça deixaram-no agonizante, falecendo no dia seguinte.

Uma sucessão de acasos levou ao drama. Primeiro a decisão da segurança pessoal do senador de atalhar através dos acessos da cozinha (onde haveria de surgir o atirador) para evitar os perigos de um átrio de hotel com demasiada gente. Depois o repórter fotográfico Ron Bennett, da UPI, quase conseguia desarmar a tempo o assassino, acabando por só o fazer depois de disparados os tiros fatais.

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Com Bobby, como era conhecido, morria muito mais que um político. Era o sonho da Grande Sociedade, de aproximação entre brancos e negros, já abalado pelo atentado mortal contra Martin Luther King, em abril do mesmo ano. Mas, sobretudo, morria a continuidade das políticas sociais progressistas iniciadas com o New Deal, de Franklin Roosevelt, nos anos 30, e prosseguidas por John Kennedy e pelo seu sucessor, Lyndon Johnson.

John (à esquerda) e Bobby

John (à esquerda) e Bobby

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Bobby, embora mais novo que o seu irmão John, tinha uma longa carreira política, que passara pela procuradoria-geral, entre 1961 e 1964, onde se notabilizara pelo combate ao crime organizado, designadamente a Mafia italiana. Em 1962, durante a Crise dos Mísseis de Cuba, que pôs o mundo à beira da guerra atómica, desempenhara um importante papel nas negociações de bastidores com os soviéticos que acabaram por fazer diminuir a tensão.

O vice-presidente Lyndon Johnson substituiu Kennedy depois do atentado de Dallas e foi eleito em 1964, prosseguindo a política anterior, nomeadamente em matéria de direitos cívicos. Contudo, o arrastamento do país para o sorvedouro da Guerra do Vietname foi uma das causas da rutura com Bobby. Foi eleito senador nesse mesmo ano de 1964 e iniciou uma movimentação política autónoma, vista como traição por Johnson mas encarada com simpatia por boa parte do eleitorado democrata.

Elogio fúnebre de King

Em começos de 1968 Bobby começara o que parecia ser uma corrida triunfal na direção da Casa Branca. A 4 de abril estava num comício em Indianapolis quando soube do assassínio de Luther King. Grande orador, como o seu irmão John, empolgou a multidão dizendo: “Tenho uma péssima notícia para vos dar. Tal como o meu irmão John, Martin Luther King foi morto. Cabe-nos continuar a luta pela causa pela qual deram a vida, a da justiça e igualdade para todos.”

A 4 de junho a vitória nas primárias da Califórnia parecia estender-lhe a passadeira vermelha para a nomeação democrata nas presidenciais de novembro. E fez novo discurso vincando as diretrizes do seu programa: fim da discriminação racial e corte com o envolvimento militar no Vietname. O seu assassínio deixou isolados os moderados do movimento pelos direitos civis e o verão seria marcado por motins raciais de uma violência nunca vista nas grandes cidades dos EUA. Da mesma forma, a desorientação no campo democrata, sem um candidato forte para contrapor a Nixon, viria a ser agravada pelos incidentes na Convenção Democrata em Chicago, em agosto.

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Nunca ficaram totalmente claras as motivações de Shiram Bishara Shiran, o assassino de Bobby. Mas se o objetivo era reagir ao apoio político e militar norte-americano aos israelitas na Guerra dos Seis Dias um ano antes, o efeito prático foi o oposto: com Nixon eleito, Israel trocava definitivamente o material de guerra francês e britânico pelo norte-americano e na Guerra do Yom Kippur, em 1973, o apoio logístico de Washington seria decisivo.

Uma América alternativa

Dizer que com a eleição de Bobby Kennedy a América teria sido outra é um exercício de especulação. Mas é plausível pensar que sim. “Com o desaparecimento de vozes fortes como as de Luther King e Bobby Kennedy, capazes de defenderam as políticas liberais das críticas de um Nixon ou de um Reagan, não teria havido a viragem à direita que se verificou, nem a bipolarização a que hoje se assiste”, defendeu o historiador Jeremi Suri, citado pela BBC num artigo evocativo do drama de há 50 anos.

“A personalidade e o carisma de Bobby inspiravam todos aqueles que queriam recuperar aquilo que o país tinha perdido com a morte de Kennedy e a entrada na Guerrra do Vietname”, disse Jules Witcover, jornalista que cobriu a campanha democrata. Para ele “mais ninguém na comunidade branca tinha a mesma capacidade para estender pontes na direção da comunidade negra”.
É certo que, a ter sido eleito, Bobby teria tido que resolver o problema do Vietname e do esgotamento do modelo económico do New Deal. Mas se tivesse sido bem-sucedido nunca teria havido Reagan - e muito menos Trump.