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Embaixador dos EUA na Alemanha quer "dar poder aos conservadores". Mas a que tipo de conservadores?

ODD ANDERSEN/Getty

Richard Grenell, embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, considera que um bom conservador é aquele que se revolta contra as elites e contra o sistema e apoia políticas restritivas na imigração. Ora, este não é o conservadorismo de Angela Merkel, chanceler do país para onde foi enviado recentemente por Donald Trump. Numa recente entrevista, Grenell chocou o tal sistema que depreza dizendo que queria "dar poder" à direita europeia

Ana França

Ana França

Jornalista

Os diplomatas não costumam estar autorizados a expressar favoritismos políticos nos países para onde são destacados e, apesar de os Estados Unidos terem menos tradição de diplomacia como carreira do que os países europeus, e muitas vezes os seus diplomatas se terem destacado em outras áreas profissionais, há uma espécie de código não escrito que zela pela conduta e retórica conciliadoras dos homens e mulheres escolhidos para estes postos.

Richard Grenell, embaixador dos Estados Unidos na Alemanha recentemente escolhido por Donald Trump, tem uma abordagem diferente. Primeiro foi a publicação na rede social Twitter, no dia em que Trump decidiu rasgar o acordo para a não-proliferação de armas nucleares do Irão, no qual dizia que as empresas alemãs deveriam reduzir “imediatamente” os negócios com o Irão.

Como é sabido, a União Europeia não acompanhou a posição dos Estados Unidos e continua a tentar fazer valer o acordo assinado em 2015, mas Grenell foi criticado na altura por ser uma espécie de câmara de ressonância das políticas “América em primeiro lugar” de Trump e voltou a sê-lo agora, por ter dito que quer “pôr no poder” a direita antisistema. “Eu quero absolutamente tentar colocar mais conservadores pela Europa fora no poder, outros líderes”, disse ele ao jornalista Chris Tomlinson do Breitbart, uma página de conteúdos que apoia a direita dura norte-americana, acrescentando que “há um acervo de políticas conservadores que estão a ganhar raízes na Europa devido ao falhanço das políticas de esquerda”.

Questionado sobre exemplos de líderes que ele gostasse de ver “com mais poder”, Grenell identificou Sebastian Kurz, o jovem chanceler austríaco que é contra o acolhimento de refugiados e aprovou a proibição de burqas em público. Esta segunda-feira, a página da Der Spiegel dava a notícia que Grenell tinha estendido a Kurz um convite para jantar.

Grenell já rejeitou, também através do Twitter que esteja a tentar interferir com a política interna alemã mas continua a defender “o acordar da maioria silenciosa” que, na sua opinião, começou com a vitória de Donald Trump. “É absurdo. Rejeito completamente esses comentários. Não me ponham palavras na boca. A ideia de que eu apoio partidos políticos ou candidatos é ridícula. Mantenho a opinião de que estamos a viver um acordar da maioria silenciosa - daqueles que rejeitam as elites e a sua bolha - e são liderados por Trump”, escreveu no Twitter.

Apesar de já ter dito, em outras entrevistas, que apoia as políticas económicas de Angela Merkel, nesta focou-se em elencar aqueles que, na sua opinião, são os principais ingredientes do bom conservadorismo: “Políticas consistentemente restritivas na imigração, cortes nos impostos e eliminação da burocracia”, enumerou. Angela Merkel foi a líder europeia que mais se bateu pelo acolhimento de refugiados, não só pela Alemanha, que aceitou sozinha cerca de um milhão de pessoas, como pelos restantes países que se tem revelado menos complacentes com a esta realidade. Por isso mesmo as críticas de alguns grupos de centro e centro-esquerda à entrevista não se fizeram esperar.

“No passado contamos sempre com nobres embaixadores norte-americanos que construíram pontes e não faziam política partidária”, disse Metin Hakverdi, um deputado do SPD (centro-esquerda em coligação com os conservadores de Merkel). Hakverdi aproveitou ainda para defender o legado dos partidos de esquerda na Alemanha “Como membro do SPD, um partido com raízes na esquerda com um longo legado de luta, a par com os Estados Unidos, contra o nazismo e o comunismo, irrita-me ouvir estas palavras de crítica ao nosso legado por parte do embaixador Grenell”.

Omid Nouripour, dos Verdes, disse que os comentários de Richard Grenell eram próprios de quem ainda não se tinha ajustado bem ao seu papel. “Acho que o embaixador ainda não sabe bem o que tem que fazer. Ao menos os russos fazem um esforço para não serem vistos a interferir com os assuntos dos outros países”, disse o deputado.

Já o diretor do Instituto Brookings, Tom Wright, resumiu assim a entrevista, em menos de 140 caracteres: “Ele disse que irá intervir pessoalmente na política interna dos países europeus para dar poder a conservadores antisistema”.

O timing do embaixador não podia ter sido pior. Este fim-de-semana, Alexander Gauland, um dos líderes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha comparou o período do Holocausto a uma “caganita de pássaro” na “gloriosa História da Alemanha”. Grenell disse, contudo, que desaprovava totalmente os comentários do líder da extrema-direita. O governo alemão já pediu a Grenell que clarifique as suas intenções com estes comentários. Na terça-feira o embaixador deverá comparecer no ministério dos Negócios Estrangeiros.