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Idlib. A próxima “caixa de morte” de Assad ou um oásis para os seus inimigos?

MOHAMMED BADRA/EPA

Idlib é uma espécie de santuário mas é também considerada uma “killbox” ou “caixa de morte”. A Síria fugida da guerra e do regime sírio concentrou-se ali e não se sabe se Bashar al-Assad, o presidente, vai atacar ou deixá-los em paz. Por enquanto estão protegidos pela Turquia, mas também isso poderá ser apenas temporário

Moaed Tomah, fotógrafo freelancer de 29 anos, sabia que a viagem de autocarro para a província síria de Idlib, no noroeste do país, não seria fácil, desde logo porque não era por si que estava ali mas porque fora obrigado a isso depois de a região onde vivia, Ghouta Oriental, nos subúrbios de Damasco, ter sido cercada e atacada ou atacada e cercada e finalmente tomada pelo regime sírio e seus aliados russos e iranianos. Isso é uma parte. A outra é ter feito uma viagem que supostamente demoraria três horas e meia de carro - são 350 km de distância entre um lugar e outro - mas que acabou por se prolongar durante 22 horas num autocarro apinhado de gente, sem pausas que não as dezenas de paragens em checkpoints russos montados estrategicamente ao longo do percurso e sendo recebidos em cada lugarejo controlado pelo regime sírio por habitantes que mostraram não compreender como poderá alguém preferir a oposição, da mais moderada à mais radical, a Bashar al-Assad, o presidente que manteve tiranicamente a paz. Enquanto o autocarro seguia por cenários de destruição, ao longo da estrada a população ia erguendo cartazes com mensagens críticas e ameaçadoras às pessoas que, como Tomah, fugiam da guerra. “Quiseram ridicularizar-nos e magoar a nossa dignidade. Tive medo. A viagem foi difícil e cansativa, mas também humilhante”, conta Tomah ao Expresso a partir da cidade de Idlib, onde vive neste momento. “Vamos vingar-nos de vocês”, “vamos queimar as vossas casas”, “Assad vencerá”, foi o que leu e o que ainda não esqueceu.

Moaed Tomah podia ter ficado em Ghouta Oriental, o enclave da oposição que foi reconquistado pelo regime já este ano e esteve cercado durante cinco, privado de alimentos, medicamentos e outros bens, à mercê de constantes bombardeamentos. Em 2013, um ataque com gás sarin terá vitimado mais de 80 pessoas. No entanto, o fotógrafo, à semelhança de outras 105 mil pessoas, incluindo civis, combatentes da oposição e respetivos familiares (números oficiais russos), preferiu sair. “O regime é extremamente sectário. Se eu ficasse seria preso ou assassinado ou recrutado para o Exército.” Moaed Tomah di-lo por aquilo a que assistiu nos últimos tempos, por aquilo que viu as tropas do regime fazer a outros mas também a si e a à sua família, assassinada em julho de 2012 em Douma, maior cidade de Ghouta Oriental. “Os soldados entraram no nosso bairro, entraram em minha casa e mataram a tiro a minha família à minha frente. Eu fui apenas atingido com uma bala num pé, mas deitei-me no chão e eles acharam que eu estava morto. Estive durante oito horas escondido debaixo dos corpos dos meus pais e dos meus irmãos. Entretanto chegaram as equipas de resgate e fui levado para o hospital.”

ÚLTIMO REDUTO DOS REBELDES OU ÚLTIMA MORADA DOS TERRORISTAS?

Para muitas famílias, Idlib é uma espécie de último santuário. Depois de anos em fuga de outras áreas tomadas pelo governo sírio à custa de meses ou anos de cerco, como foi o caso da cidade de Alepo, onde se deu o mais longo cerco da história moderna da Guerra, milhões de inocentes esperam pelo dia em que terão que se confrontar com as forças do regime. Muitos acham que al-Assad não irá deixar Idlib permanecer como uma espécie de oásis de oposição, ainda que nesse oásis habitem também alguns grupos terroristas e não apenas oposicionistas democráticos.

MOHAMMED BADRA/EPA

Até 2015, Idlib era uma zona fiel ao regime de al-Assad. Mas na primavera desse ano, uma coligação de rebeldes islâmicos, alguns com ligações muito pouco recomendáveis à al-Qaeda, tomaram a província de assalto. Desde aí a província tem sido alvo de ataques não só por parte de forças externas apostadas em erradicar a presença dos extremistas da Jabhat al-Nusra, o tal braço local da al-Qaeda que entretanto se tornou um agregador de várias facções terroristas e mudou o nome para Hay’at Tahrir al-Sham, como por parte do regime. Há suspeitas de que tenham sido utilizadas, por mais de uma vez, armas químicas sobre população civil. É a Hay’at Tahrir al-Sham que domina militarmente a zona - são cerca de 10 mil os combatentes extremistas, segundo as organizações não-governamentais Syria Campaign e Peace Direct -, o que dá mais força à tese de al-Assad de que é preciso “limpar” a zona.

Mesmo que o presidente sírio não tencione reaver a província nos próximos tempos, muitos temem que acabe por fazê-lo por pressão do Irão, a quem pouco interessa ter uma bastião sunita a estragar o seu plano de abrir um corredor terrestre para o Mediterrâneo através do Iraque e da Síria. Depois da queda de Ghouta Oriental, Ali Akbar Velayati, conselheiro do líder supremo iraniano, o ayatollah Ali Khamenei, disse que Idlib seria a próxima área a ser “libertada”. Também a Rússia, que tem gasto gente e recursos no conflito sírio, tem interesse semelhante e isso mesmo disse Vladimir Putin pessoalmente a al-Assad este mês. O caminho da vitória está aberto para a Síria e respetivos aliados, depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter dito que não só “adorava sair da Síria” como ter dado a entender que irá, em breve, ordenar a retirada das tropas norte-americanas do país.

Os enviados especiais das Nações Unidas para a Síria há muito que preveem um desastre humanitário se al-Assad decidir dar a Idlib o mesmo fim que deu a Alepo e a outras zonas de resistência. “Todas as minhas energias têm estado focadas em evitar o completo desastre”, disse no fim de abril Jan Egeland, diretor do programa de ajuda humanitária das Nações Unidas para a Síria, confessando o seu maior medo: “O regime sírio pode dizer que [Idlib] está cheio de terroristas e com isso justificar os métodos de guerra que usou durante os cercos de Ghouta e Alepo. Sim, há tipos ruins que usam grandes barbas mas há muito mais mulheres e crianças que merecem proteção. Não se pode fazer a guerra como se cada habitante fosse um terrorista ou então será um completo pesadelo”, disse Egeland. O mesmo disse o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura: “Espero que consigamos garantir que Idlib não se torna a nova Aleppo ou a nova Ghouta Oriental, porque as dimensões aqui são completamente diferentes”. Também Mark Lowcock, chefe das missões humanitárias da ONU, chamou na terça-feira a atenção para o agravar da situação: “A situação em Idlib é alarmante, com ataques aéreos, conflitos entre diferentes grupos, uma densidade populacional muito grande e serviços básicos a entrar em rutura”. Vivem hoje em Idlib mais 1,1 milhões de pessoas do que aquelas que viviam na província antes de a guerra começar. São agora mais de dois milhões, segundo números da ONU.

SANA/REUTERS

Os ativistas antigoverno que estão em Idlib têm utilizado uma expressão um tanto mórbida para descrever em antecipação a situação da província: é uma “caixa de morte”, ou “killbox”, de onde não se pode escapar. Um ataque do governo sírio sobre a província pode levar a mais um êxodo de população, desta vez em direção à fronteira com a Turquia, de onde chegam relatos de que quem a está a tentar atravessar não esteja a ser bem recebido. Embora tema que isso possa vir a acontecer, Moaed Tomah nota que a Turquia está a estreitar o controlo sobre a cidade, “com cada vez mais checkpoints espalhados em várias áreas da região”. “A Turquia tem todo o interesse em evitar uma escalada do conflito aqui porque já não tem capacidade para receber mais sírios. Idlib manter-se-á certamente sob controlo do governo turco, com o aval da Rússia.”

UM ACORDO ENTRE RIVAIS

Também Abdulhai Tennari, médico que trabalha no hospital de Sarmen Field, em Idlib, que é apoiado pela Associação Médica Síria-Americana (SAMS), não considera Idlib uma espécie de cidade “à espera da destruição”. O médico fala dos acordos que a Turquia fez com a Rússia (que tem interesse em manter uma relação bilateral com o Governo de Ancara) e o Irão no âmbito do processo de Astana, capital do Cazaquistão, que decorre em paralelo com as negociações da ONU desde 2017 e do qual foram excluídos os Estados Unidos. Os acordos não são fáceis de explicar. Dois analistas que falaram à página de análise de assuntos do Médio Oriente “Al-Monitor” oferecem algumas hipóteses: Kerim Has, professor da Universidade Estatal de Moscovo, considera que o objetivo da Rússia é separar os vários grupos de oposição sunita dos outros mais radicais e trazê-los à mesa de negociações. No processo, os mais radicais de todos os grupos “antiAssad” ficariam num só local e seria mais fácil fazer guerra contra eles. Já os turcos aproveitaram esta oportunidade para criar uma espécie de zona de segurança que acompanha toda a sua fronteira com a Síria, impedindo uma onda de imigração incontrolada e criando condições para que alguns dos cerca de três milhões de sírios que ainda estão na Turquia possam começar a regressar ao seu país, nem que a maioria fique logo ali em Idlib. A presença turca em Idlib é clara: desde o nome das companhias que fornecem a eletricidade aos produtos alimentares que estão à venda nos supermercados, os turcos não parecem estar de passagem.

No início de fevereiro, a Turquia começou a construção de 12 “postos de observação” espalhados pela província de Idlib que na verdade são pequenas bases militares que dão à Turquia uma grande vantagem estratégica sobre a zona, quando (ou se) a guerra com o regime sírio chegar a Idlib. Pelo menos 1400 soldados turcos, tal como tanques e artilharia, já estão no terreno na Síria e o contingente deve aumentar nos próximos meses. “A presença turca é resultados dos acordos de Astana, mas não se sabe para onde caminham essas negociações no caso de Idlib”, diz ao Expresso Sam Heller, analista do International Crisis Group, acrescentando que a Turquia “interveio em Idlib para evitar um ataque do regime sírio à província que enviaria na sua direção uma onda de refugiados tremenda - e nessa onda muitos jiadistas”. “Não há nenhum interesse em ajudar materialmente a província. A ideia não é investir, mas sim transformar a insurgência num movimento menos jiadista e menos perigoso para as suas fronteiras.”

Questionado sobre se a presença militar da Turquia poderá de facto descansar-nos quanto a uma possível ofensiva do regime na região, Sam Heller não responde com grandes certezas. Refere que “as tropas turcas estão no noroeste e claramente posicionadas para se defenderem” e que isso “dá um sinal à comunidade internacional de que estão a proteger a área e complica a vida à Síria caso queira invadi-la”, mas que “não anula essa possibilidade totalmente”. Permitir aos rebeldes ditos moderados ter um espaço seu é compreensível, na medida em que evitará mais mortes e massacres, mas irá a oposição contentar-se com isso e não pensar sequer numa nova revolução? “A Turquia está a tentar reorganizar a oposição e é possível que os rebeldes usem este tempo de ‘descanso’ para preparar uma nova fase de conflito”, diz Sam Heller, notando contudo que, “neste momento, parecem mais preocupados em lutar entre si”. “Até os grupos mais extremistas têm refreado os ataques ao regime”, acrescenta.

OMAR HAJ KADOUR/AFP/GETTY IMAGES

ESTADOS UNIDOS CORTAM APOIO AOS MÉDICOS

Idlib não está cercada como esteve Ghouta Oriental, nem escasseiam os medicamentos nos hospitais e farmácias nem a necessidade de comida obriga a esquemas e negócios sinistros para tentar adquiri-la, sempre a preços exorbitantes, no mercado negro, mas isso não significa que esteja finalmente tudo bem. A primeira dificuldade que Abdulhai Tennari aponta é bastante simples e, nessa simplicidade, é desarmante: “Não há um Estado”. Na falta de organização central, “os serviços não funcionam, não há oportunidade de trabalho”. Ao mesmo tempo, a insegurança é enorme: “O maior problema é mesmo a segurança - por causa dos raptos, dos homicídios, das explosões, dos bombardeamentos. Há muita gente a precisar de ajuda humanitária e a situação ficou pior depois da entrada de refugiados sírios vindos de várias regiões do país: Hama, Homs, Alepo”.

As condições no hospital são aceitáveis mas todos os doentes mais graves são transferidos para a Turquia. Em breve, porém, Tennari pode deixar de conseguir prestar mesmo os cuidados mais básicos porque os fundos para a SAMA vão sofrer um corte de 40% já no próximo mês, por decisão do governo norte-americano. Aproximadamente 1,7 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária, segundo o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês). Apesar de os médicos da SAMS terem mais facilidade em saírem das zonas afetadas por fazerem parte de uma organização humanitária com participação norte-americana, Tennari diz que vai ficar: “Não tenciono sair daqui nem no próximo mês nem no próximo ano. O meu plano é continuar aqui”.

“Estamos em Idlib porque não temos mais nenhum sítio para ir. Continua a haver ataques, explosões a toda a hora e em cada canto, sobretudo depois de a Turquia ter aumentado a presença na região, e os grupos extremistas continuam a importunar os civis”, diz, por sua vez, Moaed Tomah, que também não tenciona sair, mais por medo do que poderá acontecer se tentar atravessar a fronteira com a Turquia do que por outra razão. “Sair é muito difícil. A polícia turca está a matar todos aqueles que tentem entrar de forma ilegal no país. E legalmente também não será fácil, visto ter perdido os meus documentos no meio da destruição de Ghouta Oriental. Ficarei em Idlib até arranjar forma de sair de Idlib.”

Ahmad Rahhal, jornalista freelancer de 22 anos que colabora com meios de comunicação como a agência de notícias turca Anadolu, corrobora: “O Exército turco está a matar todos aqueles que tentam entrar ilegalmente no país. Muitas crianças foram atingidas a tiro por soldados turcos enquanto tentavam atravessar a fronteira”. Nascido na zona rural de Idlib, o jornalista destaca como principais dificuldades “a pobreza e o desemprego”. “Há muitas crianças que perderam os pais e que deixaram de ir à escola. E há também muitos doentes, entre crianças e adultos, que vivem incapacitados depois de terem sido atingidos por bombas e amputados.” Especialmente “grave” é a situação que se vive nos campos para deslocados e nada indica que irá melhorar nos próximos tempos. “A maioria das organizações humanitárias deixaram de dar apoio.” Sair da província também não é uma opção: “Não teria dinheiro para me tirar a mim e à minha família daqui”.

AMER ALHAMWE/AFP/GETTY IMAGES

“AS MULHERES TORNARAM-SE A BASE DA ATIVIDADE LABORAL EM IDLIB”

Também a Fatima El-Gondy, uma das primeiras mulheres a integrar o grupo dos Capacetes Brancos (voluntários que socorrem as vítimas dos ataques no país e operam apenas nas zonas controladas pela oposição) em Idlib, preocupa-a sobretudo que as crianças tenham deixado de ir à escola “por causa dos bombardeamentos”. “Os professores insistem com os alunos e ajudam-nos mas muitos não querem ir à escola porque têm medo.” Com os maridos e os filhos desaparecidos, feridos ou mortos na guerra, muitas mulheres tomaram o seu lugar ou assumiram funções que antes lhes estavam em grande medida vedadas, tornando-se essenciais de uma forma diferente. É o caso de Fatima El-Gondy, que trabalha com outras sete mulheres numa unidade de saúde. As suas tarefas são variadas e incluem tratar queimaduras e ferimentos, consultas de planeamento familiar e controlo da natalidade e outros cuidados de saúde a mulheres e crianças, análises ao sangue e medição da pressão arterial. Participam regularmente em campanhas de sensibilização nas escolas onde ensinam às crianças, entre outras coisas, o que devem fazer em caso de um bombardeamento. Diz que no início a sua decisão de trabalhar e juntar-se ao grupo de voluntários causou alguma estranheza mas que agora já ninguém questiona. “Tornou-se normal as mulheres trabalharem e terem os seus próprios projetos.”

Outro exemplo é o de Baraa Abdul, 21 anos, que não é psicóloga mas presta ajuda psicológica aos deslocados em Idlib, num centro onde mais de 100 mulheres trabalham em tudo - costuram, cozinham, vendem comida para fora, dão aulas a jovens que chegaram de zonas de guerra, apoio psicológico a ex-soldados e também a pessoas que não combateram mas perderam tudo nas outras cidades onde estiveram. Tudo é feito no mais completo sigilo, porque os ex-combatentes “não querem e não devem demonstrar fraqueza e ainda não é muito normal falar assim abertamente com uma mulher”, diz ao Expresso Baraa Abdul.

“A vida é difícil e é muito difícil encontrar trabalho para fazer. Eu sou a pessoa mais bem posicionada para ganhar dinheiro para a minha família porque o meu pai já tem alguma idade e o meu irmão foi ferido na guerra”, continua Baraa Abdul, que descreve assim e em poucas palavras o papel que as mulheres desempenham nas comunidades em que vivem. “Elas tornaram-se a base da atividade laboral em Idlib e por isso são cada vez mais aceites no meio da comunidade. Há dois anos era muito mais complicado, os grupos terroristas estavam em força, al-Aqsa, Daesh, e não era fácil sequer passear na rua. Agora é diferente, podemos trabalhar, andar de carro, ir ao mercado, porque é essencial que o façamos para a própria sobrevivência das famílias e isso dá mais confiança às mulheres para fazerem mais coisas que gostam. Foi um pouco por necessidade que conseguimos alguma liberdade, mas não interessa muito a maneira.”

ILYAS AKENGIN/AFP/GETTY IMAGES

“SINTO-ME SOZINHO AQUI, NÃO TENHO FAMÍLIA, NÃO CONHEÇO NINGUÉM”

R. (abreviatura que não corresponde ao nome verdadeiro e é aqui usada por razões de segurança) também fez a viagem descrita no primeiro parágrafo, de Ein Tharma, uma cidade no enclave nos subúrbios de Damasco, para Idlib, e em condições semelhantes. Semelhantes são também as palavras que usa para descrever essa viagem - “forçada, perigosa e, acima de tudo, humilhante”. “Demorámos sete horas a chegar a Idlib. Durante a viagem, passámos por uma vila controlada pelo regime sírio e houve soldados e pessoas que mandaram pedras para o nosso autocarro. Além disso, estivemos o tempo todo com medo que as forças do regime ou da Rússia fizessem explodir o autocarro ou disparassem sobre nós.”

O autocarro não explodiu. Ninguém disparou. Mas terra firme não deu segurança. “Todos nós, aqui, temos medo que o regime sírio ou a Rússia voltem a atacar. As pessoas preferem a Turquia ao regime porque acham que os turcos têm mais compaixão do que Assad, que mata indiscriminadamente. Ele não distingue entre jiadistas e crianças e mata jiadistas e crianças, civis e jornalistas. A Turquia pelo menos não faz isso.” R. sabe que se arrisca a ser detido ou atingido pelas forças turcas na fronteira, mas ainda assim irá tentar entrar na Turquia, de forma legal ou não. “Não tenho outra hipótese, não tenho futuro aqui. Quero acabar os meus estudos, que interrompi por causa da guerra. Além disso, sinto-me sozinho aqui, não tenho família, não conheço ninguém. Entrar de forma legal é caro, muito caro, não tenho dinheiro nenhum. Fiquei sem nada depois da destruição de Ghouta Oriental.”

Em Ghouta Oriental, R. trabalhava como jornalista e fotógrafo numa plataforma de notícias mas agora está desempregado. Vive em Sarmada, cidade diariamente patrulhada por militares do Exército Livre da Síria, na qual se sente “inseguro”, sobretudo por causa das “explosões de carros e dos homicídios, que são frequentes”. Diz que o maior problema é mesmo a falta de casas para deslocados, “que estão maioritariamente a viver em campos”, e, quando o diz, passa do registo de repórter para um tom mais apreensivo. “Chove aqui neste preciso momento e está trovoada e eu só consigo pensar nessas pessoas e nas condições miseráveis em que ali vivem.”