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Zuckerberg veio à Europa pedir desculpas, depois houve embaraços e uma promessa

JOHN THYS / Getty

Depois de ter sido ouvido no congresso dos EUA a propósito do escândalo de roubo de dados no Facebook, foi a vez de Mark Zuckerberg viajar até Bruxelas para prestar declarações sobre o mesmo tema. Problema: foram feitas tantas perguntas que não houve tempo para respostas. Resultado: uma espécie de fiasco

O formato do encontro entre Mark Zuckerberg e os eurodeputados do Parlamento Europeu vinha sendo criticado ao longo dos últimos dias e à medida que a audição desta terça-feira, em Bruxelas, se ia aproximando do fim maior era a certeza de que nenhuma crítica fora em vão. O fundador da rede social discursou durante longos minutos - e pediu desde logo aí “desculpa” por não ter feito “o suficiente para evitar que as ferramentas” da empresa de que é fundador “fossem erradamente usadas” - e seguiram-se depois as perguntas, demasiadas perguntas, em alguns casos três ou quatro por cada eurodeputado, todas feitas de uma vez. Quando chegou o momento de responder, o tempo previsto para a reunião - 90 minutos - estava prestes a terminar. Alguns dos eurodeputados presentes manifestaram o seu descontentamento e Zuckerberg saiu da audição no meio de algum embaraço e com a promessa de responder por escrito às restantes perguntas.

Houve tempo, ainda assim, para alguns esclarecimentos. Em resposta à pergunta sobre se o Facebook se converteu ou não num monopólio ou se, pelo contrário, tem algum concorrente, feita por Manfred Weber, eurodeputado alemão que lidera atualmente o Partido Popular Europeu, Mark Zuckerberg afirmou que há “em todo o mundo cerca de 70 milhões de pequenos negócios que usam a rede social como uma ferramenta para crescer e alcançar clientes”. “Todas essas empresas conseguem chegar aos clientes de uma forma que, antes, só as grandes empresas conseguiam chegar.” O mesmo eurodeputado questionou se estamos de facto livres de outro escândalo nos próximos anos semelhante ao que envolveu a Cambridge Analytica (que roubou dados de utilizadores no Facebook para influenciar as intenções de voto nas eleições que deram a vitória a Trump), Zuckerberg respondeu que estão a ser auditadas todas as aplicações que tenham tido acesso a uma grande quantidade de dados dos utilizadores antes das mudanças introduzidas em 2014.

No seu discurso no início da audição, Mark Zuckerberg já tinha enumerado as medidas adotadas entretanto pela rede social para garantir a privacidade dos seus utilizadores, nomeadamente limitando a informação que cada aplicação pode guardar, aconselhando cada utilizador a verificar as suas configurações de privacidade e investigando todas as aplicações que tiveram acesso anteriormente a informação de utilizadores. Zuckerberg admitiu, contudo, que vai demorar “algum tempo” até que a rede social consiga empreender todas as mudanças necessárias para garantir a segurança dos cidadãos. “A segurança não é um problema que possa ser totalmente resolvido. Enfrentamos adversários sofisticados, bem financiados, que estão em permanente evolução, mas estamos comprometidos em investir fortemente e em a melhorar as nossas técnicas para garantir que nos mantemos à frente.”

Durante o seu discurso, Zuckerberg também destacou os valores que a empresa de que é fundador e a Europa partilham, desde a defesa dos direitos humanos ao apreço pela tecnologia, e sublinhou o papel dito positivo do Facebook nos ataques terroristas ocorridos na Europa, nomeadamente em Berlim, Paris, Londres e Bruxelas e também na ajuda aos refugiados. O pedido de desculpa à Europa viria logo a seguir e não foi muito diferente do pedido feito no Congresso norte-americano, em abril. “Ficou claro nos últimos anos que não fizemos o suficiente para evitar que estas ferramentas [do Facebook] fossem erradamente usadas e isso inclui notícias falsas, ingerências em eleições de outros países ou o uso indevido da informação pessoal dos utilizadores. Não vimos bem a amplitude das nossas responsabilidades. Cometemos um erro e lamento isso”, afirmou assim Zuckerberg, admitindo que a rede social foi “demasiado lenta” a identificar a interferência russa nas eleições norte-americanas, que favoreceu o Presidente Donald Trump.

Mais do que um deputado presente na audição desta terça-feira questionou o fundador da rede social a respeito da aplicação do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), que entra em vigor a 25 de maio e substitui a atual diretiva e lei de proteção de dados. Sobre isso, Zuckerberg disse que a empresa está preparada para cumprir na íntegra as novas regras. Philippe Lamberts, eurodeputado belga do grupo Os Verdes, perguntou se o Facebook vai comprometer-se a pagar impostos nos sítios onde opera e Zuckerberg respondeu que “já são pagos impostos em todos os países onde a empresa opera e que, além disso, investe bastante na Europa”.

Em resposta ao eurodeputado britânico Nigel Farage, que afirmou que a mudança do algoritmo do Facebook resultou numa perda de diversidade na opinião pública, Mark Zuckerberg garantiu que a rede social “não toma nem vai tomar no futuro decisões sobre o conteúdo que é ou não publicado”. “Foram feitas mudanças este ano para garantir que, mais do que o conteúdo geral, mostramos conteúdos de família e amigos. Nenhuma ideologia política em específico está a ser favorecida”, afirmou, prometendo mais meios para eliminar as fake news, o discurso de ódio e o extremismo na sua rede social.

A audição esteve para acontecer totalmente à porta fechada, mas o formato levou os vários grupos políticos a pressionarem o presidente do Parlamento Europeu, que ouviu também duras críticas da opinião pública e até da Comissão. Esta segunda-feira, António Tajani dava um passo atrás para dizer que tinha falado pessoalmente com Zuckerberg sobre a possibilidade de um "webstreaming" e que estava feliz por "anunciar que ele aceitou este novo pedido", permitindo a transmissão em direto da reunião.

O formato da audição não esteve isento de críticas desde o início, desde logo porque se sabia que o Zuckerberg não iria ter de enfrentar o plenário nem explicar-se aos 751 eurodeputados, mas apenas aos líderes dos oito grupos políticos, o presidente do Parlamento Europeu, o presidente da Comissão das Liberdades Cívicas (LIBE) e o relator do regulamento geral de proteção dos dados pessoais. Além disso, a audição não foi mais do que um “breve encontro” a comparar com a passagem pelo Congresso dos EUA, onde Zuckerberg esteve dez horas a falar com senadores e congressistas.

O Grupo dos Socialistas e Democratas tinha prometido no Twitter que ia fazer tudo para que Mark Zuckerberg respondesse às perguntas, mas desta vez nem sequer se pode dizer que não respondeu porque não quis.

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