Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A história dos cinco anos em que Equador espiou para e depois contra Assange

Uma investigação do diário britânico "The Guardian" e do grupo de jornalistas de investigação "Focus Ecuador" mostra que o país sul-americano terá financiado as operações de Julian Assange nos anos em que esteve refugiado na embaixada do Ecuador em Londres - onde ainda permanece embora não se saiba por quanto tempo. Quando o fundador do Wikileaks começou a vigiar as comunicações da própria embaixada, as coisas mudaram

Ana França

Ana França

Jornalista

O Equador terá investido milhões de dólares em operações de espionagem, recolha de dados e videovigilância com o propósito de proteger Julian Assange, o fundador da página Wikileaks que se encontra exilado na embaixada do país no Reino Unido desde 2012. Segundo documentos a que o diário britânico “The Guardian” teve acesso, e depois de uma investigação em parceria com o grupo de jornalistas de investigação Focus Ecuador, a agência de informações do Equador - a Senain - terá gasto cerca de cinco milhões de dólares (cerca de 66 mil dólares por mês) na instalação de um sistema de CCTV e na contratação de seguranças e agentes secretos a soldo - dois dos métodos encontrados pelo país para monitorizar e registar tudo o que se passava na embaixada.

O “The Guardian” explica que a maioria das visitas que Assange recebeu, incluindo aquelas prestadas por responsáveis das autoridades britânicas, foram gravadas. Mas Assange recebeu, ao longo de cinco anos, muito mais gente. Nigel Farage, ex-líder do partido eurofóbico UKIP, foi uma dessas visitas mas os seus advogados, tal como ativistas, hackers e pessoas próximas do Kremlin figuram também no registo de visitas. Aquela que ficou conhecida como “Operação Hotel” tinha também como objectivo limpar a imagem de Assange, que sempre enfrentou críticas por parte dos que consideram não ser seu direito despejar na internet milhares de terabytes de informação secreta e sensível de alguns dos mais influentes países do mundo.

Os democratas norte-americanos, por exemplo, não figuram entre os maiores fãs de Assange, já que foi por ele - e pelo seu Wikileaks - que uma enorme torrente de e-mails privados da campanha de Hillary Clinton chegou a público, pouco antes das eleições presidenciais norte-americanas de novembro de 2016, que Clinton perdeu para Donald Trump. O Partido Democrata processou esta semana o Wikileaks, a campanha de Trump e o governo russo por alegadamente terem conspirado para denegrir a imagem de Clinton e ajudado Trump a vencer as eleições.

A mesma investigação mostra que todas estas atividades eram do conhecimento e mereceram a aprovação do então Presidente do Equador Rafael Correa e do ministro dos Negócios Estrangeiros da altura, Ricardo Patiño. O Equador sempre defendeu o direito de Julian Assange em permanecer na embaixada do país no Reino Unido - de onde não podia sair devido a um processo pendente contra si na Suécia por suspeita de vários episódios de abuso sexual. Com medo que as autoridades britânicas entrassem à força na embaixada, o Equador desenhou um plano de fuga que incluía colocar Assange num veículo diplomático para o ajudar a escapar ou mesmo nomeá-lo como representante da nação sul-americana na ONU, o que lhe conferiria imunidade diplomática para se poder deslocar às reuniões do organismo.

Numa reviravolta que os diplomatas não conseguiram prever, Assange tornou-se um perigo para o Equador quando montou o seu próprio sistema de comunicações, quebrando a firewall da embaixada, e começou a recolher informação secreta trocada entre os funcionários. O Wikileaks negou, através de uma publicação na rede social Twitter, que o seu fundador tenha tentado comprometer a rede de comunicações da embaixada e disse que essas acusações constituem “difamação orquestrada pelos atuais governos dos Estados Unidos e do Reino Unido” contra Assange, que é oficialmente cidadão - e diplomata - do Equador desde janeiro deste ano. Em março, porém, a ligação de Assange à internet foi cortada pelo governo do Equador e as pessoas próximas de Assange garantem que o todo-poderoso hacker tem passado o seu tempo a ler. É hoje claro que a embaixada do Equador já não deseja este convidado mediático nas suas instalações mas fontes próximas da diplomacia do país disseram ao “The Guardian” que estão a ser estudados planos sobre o que fazer com Assange. Rússia, Venezuela e Cuba são alguns dos países envolvidos nessas negociações.