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Ex-espião envenenado viajou muito e deu informações sobre a Rússia já na reforma

Sergei Skripal, numa imagem de arquivo recolhida em 2006, em Moscovo

YURI SENATOROV / AFP / Getty Images

A conclusão é de uma investigação do jornal “The New York Times”, que escreve ainda ser quase certo que as viagens de Sergei Skripal foram aprovadas e até facilitadas pelas autoridades britânicas. No início de março, Skripal e a sua filha foram envenenados com um agente nervoso raro que quase os matou. O incidente levou à expulsão de mais de 150 diplomatas russos em mais de 20 países

Nos anos que antecederam o envenenamento de Sergei Skripal, o ex-espião russo terá viajado muito, dando informações sobre a Rússia a agentes estrangeiros. A notícia foi avançada esta segunda-feira pelo jornal “The New York Times”, que cita fontes europeias que falaram apenas sob a condição de anonimato. É quase certo que essas reuniões foram aprovadas – e possivelmente até facilitadas – pelas autoridades britânicas, adianta o diário.

Num artigo intitulado “Sergei Skripal Was Retired, but Still in the Spy Game. Is That Why He Was Poisoned?” (“Sergei Skripal estava reformado, mas ainda no jogo da espionagem. Terá sido por isso que foi envenenado?”), o jornal nova-iorquino escreve que o velho espião era um homem livre há poucos anos quando apareceu em Praga para uma reunião secreta com os seus antigos adversários. Skripal parecia doente, mas agia de forma jovial, bebendo com os seus anfitriões checos e dizendo que o seu médico lhe tinha prescrito uísque para a pressão alta. Depois, começou a trabalhar, divulgando informações sobre espionagem russa e atividades de antigos colegas que poderiam dar aos checos vantagem sobre os seus inimigos.

Ainda segundo a investigação exclusiva do jornal “The New York Times”, Skripal reuniu-se com agentes dos serviços secretos da República Checa em várias ocasiões e, em 2016, visitou a Estónia para se encontrar com espiões locais. Estas visitas não são ilegais ou raras para desertores, mas significam que Skripal se estava a reunir com agentes que trabalhavam para frustrar as operações russas na Europa – o que, de acordo com o diário, abre a possibilidade de o seu envenenamento ter sido um ato de retaliação.

Não há, no entanto, como saber com certeza se as viagens do antigo espião o tornaram um alvo ou mesmo se as autoridades russas tinham conhecimento delas. As deslocações eram mantidas em secreto e delas sabia apenas um número restrito de agentes dos serviços secretos. Nenhum funcionário dos serviços de espionagem na República Checa ou na Estónia quis falar sobre o assunto publicamente.

No início de março, Sergei Skripal e a sua filha foram envenenados com um agente nervoso raro que quase os matou, o que conduziu a movimentos diplomáticos que lembram os tempos da Guerra Fria. Em resultado, mais de 150 diplomatas russos de mais de 20 países foram expulsos. As autoridades britânicas acusaram a Rússia de tentar assassinar Skripal, acusação que os russos continuam a negar veementemente.

Ainda nesta segunda-feira, Andrew Parker, um dos maiores espiões do Reino Unido, acusou o Kremlin de “mentiras descaradas” e de “banditismo criminoso”. O chefe do MI5 (o serviço britânico de informações de segurança interna e contraespionagem) avisou ainda a Rússia de que se arrisca a tornar-se um “pária ainda mais isolado”.

O Reino Unido sugeriu que o Kremlin encenou o ataque para mostrar que nunca esquecia ou perdoava um traidor. As autoridades britânicas também retrataram Skripal como uma vítima simbólica que gozava tranquilamente a sua reforma em Salisbury desde 2010.