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Quim Torra, o “independentista emocional” a prazo que vai desafiar Madrid

JOSEP LAGO

Carles Puigdemont renunciou ao cargo de presidente do Governo catalão e anunciou Quim Torra como sucessor. Independentistas têm de escolher presidente até 22 de maio. Se não acontecer, haverá eleições na Catalunha outra vez

“Flagelo do espanholismo”, “nacionalista radical”, “interino nato contra todo o espanhol”, “a opção mais hooligan”. É assim que alguns jornais espanhóis olham Quim Torra, o provável sucessor de Carles Puigdemont na presidência do Governo catalão.

O anúncio do novo candidato do partido Juntes per Catalunha chegou através de um vídeo de Puigdemont, exilado na Alemanha, que renunciou ao cargo de presidente na quinta-feira. Long story short: Quim Torra, de 55 anos, dará gás ao processo constituinte e respeitará o que as urnas desabafaram no referendo à independência, no dia 1 de outubro. A duvida que paira no ar é: será um presidente interino?

As primeiras palavras de Torra enquanto candidato foram direcionadas para Puigdemont e para os espanhóis. As primeiras foram de agradecimento, as outras foram um pedido de desculpas, por uns tweets com seis anos de idade, que alguns catalogaram como “xenófobos” e “sectários”, conta o La Vanguardia. Os tweets diziam coisas como “evidentemente vivemos ocupados pelos espanhóis desde 1714”, “os espanhóis só sabem pilhar” e “ouvir Albert Rivera a falar de moralidade é como ouvir os espanhóis falarem de democracia”.

Segundo este texto do El Mundo, o candidato que espera o OK do parlamento catalão tem, entre outras, duas prioridades: desenhar um plano de choque para reverter a aplicação do artigo 155 e amenizar a fratura social que se observa na região. Torra, rígido, apoia-se nos “valores republicanos” para esta “nova etapa” e quer criar uma plataforma de diálogo, não só com Mariano Rajoy como também com Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia. Para Torra, a Catalunha vive uma “crise humanitária”, pois “há gente na prisão e no exílio”. E avisa: “Só contemplo obedecer ao que decida o parlamento, que é a vontade dos catalães”.

Quim Torra, advogado, editor e autor de sete livros, declara-se como um “independentista emocional” e vê-se como um homem “que lutou toda a sua vida pela liberdade do seu país”. Passou 20 anos no sector privado, a trabalhar em seguros, e ganhou notoriedade como presidente do Òmnium Cultural, uma associação espanhola de carácter cultural e político.

O salto para a política deu-se apenas em 2012 e para tal terão ajudado aqueles tweets mencionados em cima. Enquanto diretor do museu Born Centre Cultural, cargo para o qual foi nomeado pelo alcalde Xavier Trias, terá criado aí uma fortaleza no combate pelo independentismo.

Quim Torra fez parte ainda da direção da Assembleia Nacional Catalã. Para as eleições de 21 de dezembro na Catalunha atendeu a chamada de Puigdemont e estacionou no 11.º lugar da lista do Junts per Catalunya

“O itinerário político meteórico de Torra transforma-o quase num profissional da interinagem à força, pois a sua trajetória foi forjada em dez anos”, escreve o El País. Torra, diz o mesmo diário, pertence à “ala mais dura do independentismo” e motiva receios em várias frentes. Apesar das reticências do partido de Puigdemont e da Esquerra Republicana, espera-se que os deputados garantam Torra como próximo líder catalão.

O Governo espanhol, através do seu porta-voz, não demorou muito para esclarecer o destino da relação: se Torra não cumprir a lei, o Executivo “voltará a atuar exatamente igual”, com “firmeza e serenidade”.

Os independentistas, depois de ganharem as eleições regionais em dezembro, estão obrigados a escolher um presidente até dia 22 de maio. Se tal não acontecer, os catalães voltam a ser chamados a votar. Se o parlamento catalão aprovar um novo presidente, a região livra-se das amarras de Madrid, um cenário imposto pelo artigo 155, que suspendeu a autonomia catalã na sequência da intenção de secessão.