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“As nossas redações estão em cima de vulcões”

Fotos António Pedro Ferreira

Márton Gergely, editor de Política Nacional do semanário húngaro “HVG”

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Veio a Lisboa participar num colóquio do Sindicato dos Jornalistas no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (3 de maio) e falou ao Expresso sobre o fechamento da Hungria ao mundo. Para Martón Gergely, a manipulação da informação pelo Estado está em vias de acabar com a comunicação social livre. É particularmente grave, diz, por se tratar de um país onde circula muito pouca informação sobre outros países.

Qual foi a reação à vitória de Viktor Orbán em 8 de abril?
Nós, jornalistas, ficámos em choque, e também enquanto eleitores que queriam uma Hungria mais moderada. Esperávamos que a propaganda e o discurso de ódio fossem punidos no voto. Acordámos ressacados, sabendo o que seria acordar no dia a seguir a ter eleito Trump. Orbán é primeiro-ministro há 12 anos e depois desta eleição tivemos a sensação de ter eleito o Trump, o que quer dizer que alguma coisa mudou dramaticamente. Dois dias depois fechou um dos maiores jornais nacionais.

Já se previa que fechasse?
Sim, e foi feio. O dono desse jornal, de uma rádio e de um canal de televisão era um oligarca que se opunha a Orbán e lutava para derrotá-lo há anos apoiando o partido Jobbik [direita radical]. Como falhou, fechou o jornal.

Quem são os donos dos jornais na Hungria?
Ser dono de media faz parte da influência na Europa de Leste. Há muito poucos grupos de media geridos como negócio e, por isso, são vulneráveis aos proprietários. É como ter as redações montadas em cima de vulcões: podem funcionar muito bem durante muito tempo sem nunca se saber quando explodirão. Trabalhava no diário “Népszabadság”, líder nacional com vendas acima da média, e fechou de um dia para o outro em 2016 por pressão política.

Em 2010, o “Népszabadság” organizou uma ofensiva europeia contra a alteração da lei da imprensa. Quer explicar?
Orbán tinha 34 anos em 1998 quando foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez e ficou em choque quando foi derrotado pelos socialistas em 2002. Na sombra, planeou o regresso ao poder. Em 2010, ganhou uma supermaioria no Parlamento, o que lhe permitiu alterar a Constituição e começar a captura do Estado. Colocou amigos e membros do partido [Fidesz] na Procuradoria, no Tribunal Constitucional, controlou o sistema judicial húngaro, a autoridade para os media...

Qual foi a prioridade de Orbán ao voltar ao poder?
Começou por tentar neutralizar a ameaça que ele via nos media, porque atribuía a derrota de 2002 à má cobertura da campanha e não queria que se repetisse. Para tal, centralizou os media públicos criando uma redação única para a agência noticiosa, rádio e televisão públicas, onde se produzem conteúdos gratuitos que são postos à disposição de todos os meios de comunicação social do país. Isto acabou com a concorrência.

Como reagiram os privados?
Levaram a agência pública a tribunal acusando-a de manipulação da informação e os media livres ganharam. Mas foi indiferente. Uma colega que era correspondente da agência estatal húngara em Berlim foi proibida de descrever a AfD [partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha] como “partido populista de direita com figuras de extrema-direita”. Ela perguntou como deveria então designar a AfD e eles responderam que era indiferente porque eles riscariam sempre a expressão que ela usasse. Todas as rádios húngaras são agora obrigadas a emitir blocos noticiosos de um minuto à hora certa e, surpresa!, a redação comum pública fornece blocos noticiosos de um minuto grátis. A televisão também é mais uma máquina de propaganda do que uma fonte de informação.

Houve alguma reação por parte da Comissão Europeia (CE)?
A CE levantou problemas e o Governo húngaro teve de recuar em alguns capítulos. Orbán tem formação jurídica e sabe que tem de sustentar as decisões com moldura legal. Então, tiraram de contexto partes da legislação dos media de países como Portugal, Finlândia, Reino Unido, e mostraram o resultado à CE alegando a semelhança com outros Estados-membros. Como em 2010/11 tiveram chumbos à legislação passaram à fase dois, a compra dos media, que pertenciam antes a multinacionais que os tinham adquirido após o colapso do comunismo. Passo a passo, foram todas obrigadas a sair da Hungria perante ofertas chorudas.

George Friedman disse a este jornal que não há medo de falar contra o Governo e há liberdade de expressão. Quer comentar?
Orbán não é fácil de entender como Erdogan ou Putin e já não há praticamente media livres na Hungria. Ele pode ser parcialmente generoso com a opinião porque é esperto. Orbán sabe que se lhe chamarem idiota não o beliscam. O que pode prejudicá-lo são histórias sobre a maneira como enriquece, histórias que mostrem que não há crise de migrantes na Hungria... A língua húngara é uma ilha e os húngaros falam muito poucas línguas, por isso são vulneráveis às versões oficiais da realidade.