Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Uma onda de raiva

Homens armados protegem um supermercado das pilhagens

RODRIGO ARANGUA / Getty

Começou por ser um protesto contra uma revisão no esquema de Segurança Social em vigência mas acabou por se tornar um protesto generalizado que já fez 25 mortos. Os feridos podem ser mais de uma centena. Desde que começaram os protestos na Nicarágua, há menos de uma semana, cerca 43 pessoas “desapareceram”. As pilhagens e a violência tomaram conta de algumas das principais cidades do país

Ana França

Ana França

Jornalista

Desde que o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, apresentou o seu plano, a 16 de abril, para a redução de alguns subsídios e aumento de impostos, centenas de pessoas vieram para a rua. As manifestações tornaram-se violentas, a pilhagem um vírus e a capital do país, Manágua, perdeu dezenas de lojas e serviços nesta onda de raiva. Os críticos do Governo do ex-revolucionário Ortega falam em “estado policial”, os defensores do seu governo falam em milícias de extrema-direita que estão a desestabilizar as massas e a influenciar os estudantes - um dos principais grupos na rua e também um dos que mais têm sofrido a violência da repressão policial.

Um dos centros deste protesto é a UCA, a Universidade Centro-americana da Nicarágua, onde Dara Nicole, de 18 anos, estuda Design Gráfico. Ao telefone a partir do campus da universidade, para onde continua a ir todos os dias apesar de ser impossível ter aulas, Nicole diz ao Expresso que “a violência é muito acentuada”. Os protestos começaram nas faculdades ainda antes do anúncio dos aumentos das contribuições, a 11 de abril, e Dara diz que as razões para lutar pela mudança não passam só por este problema com as contribuições para a segurança nacional: “Chega de ditadura, de concentração de poder há doze anos, de presos políticos e de manobras constitucionais que só servem para preservar as mesmas pessoas no poder que já cá estão há mais de uma década”.

No domingo à noite, conta Nicole, a polícia de choque entrou na universidade e atirou em quatro estudantes. Um deles morreu, a condição de um segundo é grave e outros dois estão hospitalizados. No seguimento da escalada dos protestos, numerosas associações médicas em Manágua emitiram um comunicado, esta segunda-feira, onde confirmavam que tinham recebido vários civis com ferimentos de balas verdadeiras e onde pediam a todos os envolvidos que parassem com a violência. “Durante o dia as forças mantêm-nos barricados e à noite entram a disparar, diretamente ao peito e até na cara, com balas de borracha. Um amigo meu perdeu um olho este fim de semana.” Dara Nicole diz ainda que é visível a permanente presença de atiradores nos telhados das universidades e reage contra quem diz que alguns desses atiradores, e mesmo alguns membros entre os estudantes, sejam de facto extremistas de direita. “Estas são exigências legítimas, no nosso entender, e é preciso parar a violência para podermos falar. Não creio que os estudantes que estejam a protestar e a levar com esta violência toda sejam de extrema-direita”.

As exigências dos estudantes estão detalhadas num documento que o recém-criado movimento MEPLIN (Movimiento Estudantil por la Libertad de Nicaragua) enviou ao Expresso: entre outras coisas exige-se que os meios de comunicação que falem destes protestos não sejam criminalizados, que se extinga a Juventude Sandinista [partido no Governo da Nicarágua] que alguns estudantes consideram uma associação violenta de apoio ao regime e que se publiquem os nomes dos generais do Exército da Nicarágua que atiraram contra os manifestantes.

O documento em que um grupo de estudantes detalha as exigências dos seus protestos

O documento em que um grupo de estudantes detalha as exigências dos seus protestos

D.R.

Para tentar acalmar a atmosfera volátil, o presidente Daniel Ortega comunicou ao país que os membros do Instituto Nacional para a Segurança Social tinham decidido cancelar as mudanças que estavam em vigor desde o meio de abril, numa tentativa de acalmar os manifestantes. “Em certa medida, estes são protestos mais ou menos naturais em qualquer país - na Grécia durante a crise, nos Estados Unidos, no Reino Unido, ninguém quer os seus benefícios retirados. Mesmo em regimes autoritários é muito difícil impedir as pessoas de protestar quando é o corte dos seus rendimentos que está em causa”, diz ao Expresso John Polga, especialista em política regional sul-americana no Instituto Naval dos Estados Unidos. Mas, por outro lado, “esta manifestação contra as mudanças na Segurança Social pode representar a última gota de água para uma população que já vem lidando com violência policial quando protesta há vários anos. Os protestos contra os resultados eleitorais foram reprimidos, os protestos contra o possível investimento chinês no país foram reprimidos. O que é chocante é que não se via este nível de violência desde o regresso da democracia. Ao contrário de alguns países da América do Sul, a Nicarágua é um país pacífico”, diz o analista.

Nalguns meios de comunicação críticos dos oponentes de Ortega, como o Mint News, fala-se da possível influência dos Estados Unidos neste conflito, uma suspeita que nos remete para os dias dos Contra, a milícia anti-revolução apoiada pelos norte-americanos e contra os revolucionários sandinistas. Apesar dos ecos do passado, e das fortes críticas que os Estados Unidos tradicionalmente sempre têm feito aos governos de esquerda da América Latina, John Polga diz que uma intervenção pela mudança de regime “é uma impossibilidade”. Isto porque além de os Estados Unidos de Donald Trump estarem, pelo menos oficialmente, mais focados na política interna, em grande medida a Nicarágua “é um aliado”. Isto porque apesar de serem o segundo mais pobre do hemisfério norte - o primeiro é o Haiti - tem feito “muito mais do que outros países pelo combate aos gangues do narcotráfico” e essa é uma “parceria essencial” que os Estados Unidos “não têm qualquer intenção em desestabilizar”, diz Polga.

As redes sociais estão cheias de imagens e vídeos extremamente violentos de pessoas ensanguentadas, deitadas em passeios, inertes. Um desses vídeos tornou-se viral durante o fim de semana e contribuiu para o reacender da violência junto de alguns pólos de protesto. Nele é possível ver o jornalista Ángel Gahona a ser atingido com um tiro na cabeça enquanto fazia um direto a partir do seu telemóvel perto da Câmara Municipal da cidade costeira de Bluefields.

O Governo de Daniel Ortega, da Frente Sandinista de Libertação Nacional, acredita que as medidas lhe permitirão poupar 250 milhões de dólares (cerca de 203 milhões de euros) – 1,5% do PIB – e com isso ajudar a amortizar o défice crónico do setor que se situa perto nos 75 milhões de dólares (61 milhões de euros) ao ano. As câmaras empresariais nicaraguenses, que apoiaram a candidatura de Ortega com avultadas somas apesar de ele ter governado o país sob cartilha soviética nos primeiros cinco anos de presidência, estão agora não do lado da oposição mas claramente contra a violência da polícia e dos militares. Acusam Ortega de se cimentar no governo e de pôr em causa a importância do “diálogo e consenso”.

A revolução na Nicarágua, que depôs mais de 50 anos de uma ditadura oligárquica da família Somoza Garcia, encabeçada pelo general Anastácio Somoza Garcia, que veio gerir a Guarda Nacional depois de os Estados Unidos terem saído do país, em 1933, inspirou profundamente os restantes países da América Latina mas não tem sido muito estudada. Os revolucionários que depuseram a ditadura, inspirados por Augusto César Sandino (e daí o nome sandinista atribuído aos apoiantes do atual Governo do ex-guerrilheiro Ortega) nacionalizaram os bens não produtivos e as propriedades dos ditadores fugidos. Lançaram uma reforma agrária, um plano para alfabetizar 400 mil pessoas e um programa de saúde cobrindo todo o país. Na altura era ainda uma revolução sem dogmas mas em 1981 o estado de graça da revolução acaba. Samozistas saudosos fogem para as Honduras e voltam de lá com uma segunda guerra civil preparada. São estes os famosos Contra, apoiados pelos Estados Unidos com armas e dinheiro da venda de outras ao Irão. Trinta mil pessoas morreram nessa guerra. Ainda assim, a comunidade internacional não ficou do lado dos Estados Unidos, como seria de esperar: a maré corre ainda pelos sandinistas e Daniel Ortega vence as presidenciais de novembro de 1984, com 63 por cento dos votos. Hoje em dia, apesar de serem muitos os que protestam contra ele, ainda tem um nível grande de popularidade - acima dos 70% mostra uma sondagem publicada pela M&S Consultants. O mesmo estudo mostra também que 78% das famílias entrevistadas consideram que as condições de vida melhoraram nos últimos cinco anos. “É uma das taxas de aprovação mais altas da América Latina e é certo que as suas políticas sociais ajudaram mesmo muita gente a sair da total pobreza e por isso muitas pessoas que estão a protestar foram aquelas que ele ajudou e agora veem os seus benefícios encurtados”, explica Polga.

Quanto às acusações de que membros da extrema-direita estejam a poluir o protesto, Polga diz que “é possível mas pouco provável”. E também é possível que “esteja a acontecer a Ortega o mesmo que aconteceu à ditadura que ele ajudou a derrubar”, isto porque “os sandinistas tiveram de lutar por um espaço à força, que não lhes era dado pela ditadura do Samoza: é simplesmente natural que alguns grupos que querem ser ouvidos agora e não têm espaço de outras formas passem a fazê-lo à margem da lei”.

Como diz Sérgio Ramirez, antigo vice-presidente do país sob Ortega, a revolução foi uma etapa de “luzes e sombras, de conquistas e erros”.