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Mataram Daphne, a jornalista. Mas não mataram a história da corrupção em Malta

O local em que explodiu o carro da jornalista Daphne Caruana Galizia, assassinada devido ao seu trabalho

Foto STR/AFP/Getty Images

Daphne foi assassinada. A jornalista estava a investigar casos de corrupção em Malta ligados ao Panama Papers e mataram-na para silenciá-la. Agora, a investigação que não publicou vai ser disponibilizada ao público porque um grupo de jornalistas e órgãos de comunicação social uniram-se para fundar a Forbidden Stories - uma associação sem fins-lucrativos - e lançar o “Daphne Project”. “É uma forma de dizer a quem matou Daphne que o que fizeram foi inútil”

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O que acaba de ler são instruções. Uma espécie de guia para um jornalista enviar o seu trabalho para a Forbidden Stories, uma associação sem fins lucrativos, caso se sinta ameaçado por algo. As indicações estão na página da plataforma recentemente lançada e cujo objetivo “é assegurar que certas investigações são terminadas e publicadas quando o jornalista já não tem possibilidade de as fazer”. Talvez todo este cuidado pareça um exagero. Talvez - sobretudo se olharmos para o caso de Portugal. Em muitos outros países, talvez não seja o suficiente - até porque vivemos num mundo em que em média dois jornalistas são mortos todas as semanas. E o que acontece ao seu trabalho? Desaparece. Mas agora já não vai desaparecer.

“Mataram o jornalista. Não mataram a história.” Assim se explica o conceito da Forbidden Stories, criada por jornalistas e órgãos de comunicação social, incluindo “The Guardian” e “Le Monde”, “com a missão de continuar a publicar os artigos de outros jornalistas que enfrentam ameaças, prisão ou até a morte.” “Daphne Project” é o primeiro projeto e traz a público a investigação iniciada por Daphne Caruana Galizia, assassinada no ano passado quando trabalhava num caso sobre corrupção que envolvia políticos e máfia em Malta e ligado aos Panama Papers.

“O mundo tornou-se um lugar perigo para os jornalistas”. Carla Baptista, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), sublinha que no último ano a situação agravou-se um pouco por todo o mundo, não só nos países em guerra mas também em países onde questões como a segurança dos jornalistas e a liberdade de imprensa pareciam ser consensuais. “Por exemplo, Turquia, Hungria, Polónia, Sérvia e Montenegro”, onde o autoritarismo e a promiscuidade entre sistemas políticos, económicos e sociais cresceu. “Esta plataforma é muito positiva mas é uma resposta limitada.”

Segundo o “World Trends in Freedom of Expression and Media Development: Global Report 2017/2018”, da UNESCO, entre 2006 e 2016 pelo menos 930 jornalistas foram assassinados - a maioria era repórteres regionais a cobrir histórias locais. Metade das mortes aconteceu em países onde não existe conflito armado.

Daphne Caruana Galizia foi morta em outubro do ano passado

Daphne Caruana Galizia foi morta em outubro do ano passado

Foto Getty Images

A Forbidden Stories permite que jornalistas em qualquer parte do mundo possam submeter o seu trabalho. Devem indicar como e quando a investigação deve ser continuada. A ideia é inspirada num caso que aconteceu há 41 anos, quando Don Bolles foi morto numa explosão num carro em Phoenix, nos Estados Unidos. Os contornos são muito parecidos à história de Daphne Caruana Galizia, pois também ele deixou um trabalho por completar. Nessa altura, 28 jornais e canais de televisão de todos o país uniram-se para o terminar.

“Plataformas como esta são fundamentais. Acho que não é a primeira do género mas é pioneira por ser uma reação a um caso muito específico. É a uma resposta minimamente adequada ao que aconteceu, até porque junta muitos jornalistas e órgãos de comunicação social. É uma forma de dizer a quem matou Daphne que o que fizeram foi inútil.” Ao Expresso, Cesário Borga, vice-presidente do Clube de Jornalistas, defende que os media portugueses deveriam ser mais participativos em projetos como este.

“A pressão era terrível”

O ex-jornalista Cesário Borga já estava na profissão ainda antes do 25 de Abril de 1974: soube o que era noticiar com censura, mas também conheceu a realidade da pressão do poder político nos anos que se seguiram à queda da ditadura. “Para mim há uma fronteira: o momento em que os meios de comunicação deixaram de ser exclusivamente públicos.”

Se até 1974 Cesário Borga sentia a censura de viver num regime fascista em que os jornalistas eram controlados, com a reviravolta na História os meios de comunicação, “que até então pertenciam a bancos e grandes empresas que foram nacionalizadas”, passaram a ser quase todas públicos. “A pressão até ao princípio dos anos 90 foi terrível. Muitos jornalistas foram postos de lado, ou como costumamos dizer, na prateleira, porque o que estavam a fazer não interessava ser publicado.” É já na reta final do século passado, com a liberalização dos media e o surgimento de canais e rádios privadas, que “o controlo do poder político se torna muito mais difícil de fazer”.

Em Portugal não há conhecimento de casos como os de Daphne Caruana Galizia, que estava a investigar um casos de corrupção revelados no âmbito da investigação dos Panama Papers - do qual o Expresso também faz parte. A investigação envolve a máfia, empresários, políticos e advogados de Malta.

Daphne Caruana Galizia com os filhos e o marido

Daphne Caruana Galizia com os filhos e o marido

getty

“Penso que nunca aconteceu nada tão dramático em Portugal [como o caso de Daphne]”, diz Cesário Borga. “No entanto, os jornalistas são sempre alvo de muitas pressões e quem pressiona vai sempre até ao limite de onde pode ir. Em Portugal, as pressões são controláveis, na medida em que é permitido ao jornalistas reagir. Contam-se histórias de jornalistas postos de lado porque a direção, a administração ou as empresas/pessoas influentes no meio não têm interesse que se continue a fazer determinado trabalho.”

Para Carla Baptista, que faz parte da equipa do Media Pluralism Monitor (que avalia o estado de saúde dos media), Portugal é um país de “baixo risco” para os jornalistas. “É um país dentro da média, não vamos santificar porque também existem alguns problemas. Há casos de uma ou outra agressão, roubos de gravadores, mas são episódios esporádicos. É preciso ressalvar que a nível judicial existe um ambiente um pouco hostil, pois há vários processos, especialmente por difamação - embora sejam quase sempre ganhos pelos jornalistas.”

Mataram Daphne

Segunda-feira, 16 de outubro de 2017. Daphne Caruana Galizia, 53 anos, estava no seu carro quando este explodiu. Não foi um acidente: alguém pôs o explosivo no interior do Peugeot 108. Dias antes, tinha avisado as autoridades que estava a receber ameaças.

“Acho que parte de nós sempre soube que um dia íamos acordar com um telefonema de que algo terrível tinha acontecido à nossa mãe”, contou ao “The Guardian” um dos três filhos da jornalista.