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“A Amnistia Internacional sob ameaça num país da UE? É sério!”

Gauri Van Gulkik. Antes de diretora da AI Europa, foi investigadora e defensora para a Europa e Ásia Central dos direitos das mulheres na organização não-governamental Human Rights Watch. Especialista em mulheres migrantes na Europa e ponte para esta área na UE e Conselho da Europa, escreve regularmente em media internacionais

António Pedro Ferreira

Entrevista a Gauri van Gulik, diretora para a Europa da Amnistia Internacional

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Ter de explicar a cidadãos da União Europeia o que significam e como podem reconhecer os sinais de autoritarismo que ganham terreno por toda a Europa é uma das tarefas que Gauri van Gulik nunca imaginou ter de pôr no topo da agenda. Da sua e da Amnistia Internacional (AI), que reconhece atualmente como prioridade de ação a defesa de “quem quer que trabalhe em defesa dos direitos humanos” em países como a Hungria.

Qual é hoje a prioridade da Amnistia Internacional na Europa?
Estou particularmente preocupada com a situação na Turquia, e também na Polónia e na Hungria. São países do seio da UE que estão a escorregar para uma esfera de ação que seria impossível ainda há pouco. Há membros da equipa da AI sob ameaça, listados e visados pessoalmente numa revista pró-governamental húngara. Há ataques muito objetivos a qualquer pessoa que trabalhe em prol dos direitos humanos ou com refugiados. Começa a haver uma ameaça clara e objetiva à nossa existência. A AI sob ameaça num país da UE? É um assunto sério! E é a minha principal preocupação neste momento.

Como fazer que os responsáveis da UE entendam a gravidade do assunto e ajam?
É mesmo tempo de agir, já se ultrapassaram vários limites. A UE tem mecanismos mais fortes de ação para lidar com questões fora da Europa do que dentro. Mas a União tem um poder enorme. Pode levar a Hungria a tribunal, pode parar os pagamentos, pode aplicar o artigo 7... há soluções. Mais importante ainda, a UE tem de dar apoio real às pessoas que estão sob ameaça na Hungria. Pode combinar conversas de tom negativo com os líderes do país dizendo-lhes que já ultrapassaram limites, que não podem continuar no Partido Popular Europeu se estão tão claramente contra os valores da UE. Em simultâneo, a UE tem de ter uma atitude de apoio firme a esta e outras organizações que oferecem proteção às pessoas ameaçadas.

António Pedro Ferreira

Demonizar o outro é um método eficaz quer na Turquia quer na Hungria. Será que a nível político europeu ainda se duvida do que está a acontecer?
Passámos 2017 literalmente a acordar as pessoas. Existe um padrão, especialmente na Turquia, onde os nossos membros foram detidos. O presidente honorário da AI está preso há dez meses e permanece a ideia em alguns países europeus de que são casos ou incidentes individuais. Não são! O desmantelamento da sociedade civil turca é sistemático e será muito difícil de reverter. Até pode ser que os países estejam a acordar para a questão, o problema é que pensam que não pode fazer grande coisa. Ao mesmo tempo, a União tem dado imenso apoio à Turquia através, por exemplo, do acordo UE-Turquia para manter os refugiados fora da Europa. Está literalmente a transferir milhares de milhões de euros para o país também através de terceiros relacionados com a Síria e tudo o que lá está a acontecer...

Qual acha que é a razão para esta resposta da UE?
Há um conjunto de interesses que dificulta a intervenção com firmeza crítica de alguns países na Turquia. Outros fizeram-no. A Alemanha, por exemplo, trabalhou para libertar os seus cidadãos, ajudou a libertar elementos da AI... advertiram as autoridades turcas de que têm de parar de deter pessoas em nome do terrorismo. Se começarmos a espalhar na Europa que não é seguro viajar para a Turquia, que impacto terá nos negócios, no turismo, na economia? Atitudes como esta ainda podem ter um enorme impacto. Estamos num ponto sem retorno e os cidadãos ainda têm poder de luta. Se continuar a haver este número de detenções sem provas a sociedade civil crítica desaparece.

António Pedro Ferreira

Os vossos relatórios em várias áreas não são animadores. O que fazer com as expectativas?
Não desistimos porque há alguns vislumbres de esperança importantíssimos. Na Polónia, ao mesmo tempo que está a ser desmantelado o sistema judicial, surge o mais incrível ativismo, grupos de defesa dos direitos com imensa energia para assuntos relacionados com a Justiça, à volta dos quais não se imaginaria grande mobilização. Há um movimento contra a contração do espaço livre e o passo seguinte é criar mudanças sistemáticas. O grande problema é que não acontece só na Turquia, Hungria e Polónia, mas também na Europa ocidental. A liberdade de expressão em Espanha está sob fogo com base numa noção alargada de contraterrorismo. Prendem-se rappers e marionetistas por fazerem crítica aberta. Recuando um passo, vemos os padrões do passado a desenvolverem-se em toda a região: fechar media livres, perseguir pessoas, o desmantelamento da Justiça independente. Lutamos por uma sociedade livre que respeite os direitos dos cidadãos.

Este estado de coisas começou com a crise de refugiados em 2015?
Sim, as pessoas não querem reconhecê-lo. Foi a crise que permitiu as medidas de exceção combinadas com os ataques terroristas em solo europeu. Desde aí houve uma escalada de abuso de leis antiterroristas, abuso de sentimentos anti-imigração... É mesmo perigoso! Fizemos a UE porque temos todos de nos proteger do terror. Não foi por idealismo.