Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Puigdemont e os seus aliados não usaram dinheiro público no referendo

JOSEP LAGO/GETTY IMAGES

A afirmação do ministro das Finanças espanhol contraria diretamente um dos fundamentos do processo-crime contra os líderes catalães

Luís M. Faria

Jornalista

A justiça espanhola enfrenta mais um embaraço no processo contra os independentistas catalães. Depois de juízes e até políticos alemães descartarem publicamente as acusações de rebelião de que são acusados Carles Puigdemont e os seus aliados próximos, agora o próprio ministro das finanças espanhol, Cristóbal Montoro, desmentiu que tenha sido usado dinheiro público no referendo do ano passado - assim desmentindo a outra acusação essencial do processo, referente à utilização ilegal de dinheiros públicos. A única que resta no pedido de extradição de Puigdemont feito por Espanha à Alemanha.

Não é a primeira vez que Montoro diz isso. Já em fevereiro ele tinha feito uma afirmação semelhante no Congresso espanhol, mas pelos vistos passou despercebida. As suas palavras foram formais: "Eu não sei com que dinheiro se pagaram essas urnas de 1 de outubro, nem a manutenção de Puigdemont. Mas sei que não foi com dinheiro público".

Agora repetiu a ideia numa entrevista, e o juiz Pablo Llarena, do Supremo Tribunal espanhol, reagiu imediatamente, pedindo que se justificasse. "As declarações do ministro das Finanças em que supostamente expressa a certeza de uma ausência de gasto público", diz o juiz, "contradizem as fontes de prova recolhidas nesta instrução", fontes que serviram para fundamentar o "delito de má utilização de fundos públicos pelos quais (os réus) foram processados e pelos quais se emitiu ordem europeia de detenção contra outros".

Na entrevista que acaba de dar ao diário El Mundo, Montoro garantiu que o governo manteve desde setembro o controle dos 35 milhões de euros de orçamento da Generalitat (a administração catalã) e que os pagamentos efetuados se encontram devidamente certificados. O auto judicial contraria isso, ao falar num ato ilegal "sufragado com dinheiro procedentes das arcas públicas e não com dinheiro privado". Estarão em causa 1,6 milhões de euros.

Llarena exige "com a maior brevidade possível" elementos para esclarecer de vez o assunto. É bastante provável que as defesas dos réus, em especial aqueles que se mantêm presos, não demorem a fazer o mesmo pedido.