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Polícia alemã investiga ataque antissemita em Berlim

CHRISTIAN MANG / Reuters

Num vídeo divulgado na Internet ouve-se um dos atacantes dizer “Yahudi” (judeu em árabe) enquanto agride uma das vítimas com o seu cinto

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

O vídeo só mostra o momento do ataque e não sabe exatamente o que aconteceu antes, mas a polícia alemã já estará a investigar o caso. Dois homens que usavam um quipá (pequeno barrete que cobre o alto da cabeça) terão sido agredidos no bairro berlinense de Prenzlauer Berg. No vídeo divulgado pela BBC, filmado aparentemente por uma das vítimas, ouve-se um dos atacantes dizer “Yahudi” (judeu em árabe) enquanto desfere golpes com o seu cinto.

“Estou surpreendido com o que me aconteceu. Ainda estou em choque”, contou uma das vítimas, um jovem de 21 anos, ao canal televisivo israelita “Kan”, acrescentando durante o seu testemunho que terá tentado alcançar o atacante mas desistido depois de quase ter sido atingido por uma garrafa de vidro.

Segundo o jovem, tudo começou quando ele e o amigo com quem se encontrava, de 24 anos, foram insultados por um grupo de três homens. Ao ser-lhes pedido que parassem com as ofensas, os homens mostraram-se irritados e um deles começou então a atacar. “Um deles correu na minha direção. Percebi logo que era importante filmar até porque sabia que não ia conseguir parar aquilo até a polícia chegar”. Numa entrevista posterior à “Deutsche Welle”, o jovem viria a revelar nem sequer ser judeu e ter, por outro lado, crescido numa família árabe em Israel.

O vídeo do ataque foi partilhado no Facebook por um fórum que tem como missão a luta contra o antissemitismo e cujo porta-voz se pronunciou sobre o sucedido. “Sempre disse aos meus amigos e conhecidos judeus para não usarem o quipá em público para evitar revelar a sua identidade mas agora mudei de ideias. Devemos continuar esta luta e não nos escondermos dos outros”. Também Angela Merkel, chanceler alemã, se pronunciou sobre o sucedido, considerando o ataque “absolutamente terrível” e sublinhando que qualquer forma de antissemitismo irá ser tratada com “firmeza” e “determinação”. “Temos de vencer esta luta”, declarou, citada pela agência Reuters.

Breve e recente histórico de agressões a judeus

São vários os casos de contornos semelhantes a estes que ocorreram nos últimos meses noutros países. No final de janeiro, um rapaz de oito anos que usava um quipá foi agredido em Sarcelles, norte de Paris, onde vive uma grande população judia sefardita. A vítima terá sido empurrada para o chão e agredida por dois adolescentes.

Apesar de os agressores não terem pronunciado qualquer insulto, o quipá era “visível” - assim como eram visíveis as franjas do xaila de oração que usava debaixo do casaco - afirmou na altura a justiça francesa, que considerou que a agressão teve motivações antissemita. Tanto o Presidente francês, Emmanuel Macron, como Marine Le Pen, da Frente Nacional, e Jean-Luc Mélenchon (esquerda radical) manifestaram a sua indignação face ao sucedido.

Mais recentemente, uma mulher de 85 anos foi encontrada morta no seu apartamento na sequência de um incêndio. O Ministério Público de Paris abriu um inquérito por “homicídio com base na pertença verdadeira ou suposta da vítima a uma religião” e, dias depois, uma fonte judicial confirmou à agência France-Press que se tratou de um crime de caráter antissemita. Antes de incendiarem a habitação, os dois atacantes, posteriormente detidos pelas autoridades e acusados de homicídio voluntário, terão esfaqueado a mulher. Encontram-se ambos em prisão preventiva.

Mireille Knoll era uma sobrevivente da rusga de Vel d'Hiv, a maior detenção em massa de judeus durante a ocupação nazi de Paris, em julho de 1942. Ela e a mãe conseguiram fugir e evitar assim a ida para um campo de concentração, segundo contou o seu filho à AFP. Foi refugiada em Portugal e regressou a França depois do fim da Segunda Guerra Mundial, tendo acabado por casar com um sobrevivente de Auschwitz, que viria a morrer no ano 2000. A sua morte foi amplamente noticiada e vários políticos franceses pronunciaram-se sobre o sucedido, incluindo Macron.

Segundo números oficiais citados pela Reuters, em quase 93% dos crimes antissemitas cometidos na Alemanha nos primeiros oito meses de 2017 havia uma ligação com a extrema-direita, o que mostra que as suspeitas em torno dos refugiados que chegaram em massa ao país há três anos eram, pelo menos segundo os números, infundadas.