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“Não é o meu regimento, querida, sou só eu, estou dentro de um grande pássaro a caminho daí”

Nos dias mais quentes de uma guerra que era fria, um mecânico norte-americano rouba um avião numa base militar britânica. Para atacar localizações do Pacto de Varsóvia? Não, para ir ter com a mulher e com o filho à Virgínia, a 3.000 quilómetros dali. Nunca chegou ao seu destino

Ana França

Ana França

Jornalista

Getty

“Querida, vou para casa”, disse Paul Meyer, sargento mecânico da Força Aérea norte-americana à sua mulher, que dormia descansada a 3.000 quilómetros de distância.

“O quê? A sério? O teu regimento já está de volta?”, respondeu ela.

Não. O destacamento de Meyer não estava de regresso aos Estados Unidos mas ele estava, sozinho a bordo de um enorme avião militar, que conhecia de trás para a frente mas que não sabia pilotar.

Na noite de 22 de maio de 1969, Paul Meyer, um mecânico de 23 anos do Exército norte-americano destacado em East Anglia, no Reino Unido, foi tomado por um caso particularmente agudo de saudades de casa. Uns dias antes tinha pedido que o mandassem de volta à sua base original, em Langley, na Virgínia, mas o seu pedido tinha sido diferido. Enervado, foi ter com os seus colegas a uma festa que os militares tinham organizado e começou a beber - muito. De acordo com os registos feitos pelos jornais da altura, Meyer tornou-se rapidamente intransigente e violento e negou sempre os conselhos de quem lhe dizia “vai deitar-te”. Escapou pela janela da casa onde estava a decorrer a festa mas não foi deitar-se. Foi espairecer, arejar a cabeça na A11, uma das principais auto-estradas de Inglaterra. A polícia prendeu-o por desacatos à calma da zona e levou-o à caserna. “Vai deitar-te.” Mas não.

Meyer chegou ao quartel e dirigiu-se ao quarto do capitão Upton e roubou as chaves da sua carrinha. Guiou até ao centro de comunicações da pista do aeroporto da base e, usando o nome de Capitão Epstein, pediu que um avião com combustível suficiente para o levar até à Costa Leste dos Estados Unidos fosse imediatamente preparado. E assim aconteceu. São ordens. A tribulação colocou na pista número 29 um Hercules C-130, um gigante militar com 60 mil quilos e quatro motores. Por volta das 05h00 do dia 23 de maio, numa madrugada nublada e chuvosa - mostram os boletins meteorológicos da altura - Meyer estava no ar. Destino: Virgínia. Realidade: Canal da Mancha.

Getty

A história foi esta quarta-feira resgatada pela BBC porque um grupo de marinheiros e exploradores marítimos, os Deeper Dorset, puseram finalmente no mar uma missão de reconhecimento com o objetivo de encontrar os destroços deste avião, 49 anos depois. Grahame Knott vai liderar o projeto mas já anda há 30 anos a perscrutar a costa sul de Inglaterra "consumido" pela história de Paul. Depois de uma campanha de angariação de fundos na internet, vai finalmente poder alargar até ao Canal a sua investigação.

Mary Ann Jane Goodson acordou de repente com aquela chamada de Paul.

“Não é o meu regimento, babe, sou só eu, estou dentro de um grande pássaro a caminho daí”, disse Meyer ao telefone de dentro do avião.

“És tu que estás a pilotar? Meu deus!”, foi a resposta de Mary Ann, que recentemente voltou a lembrar o episódio à BBC.

A conversa daquela noite ainda está “muito presente” na sua mente. Quando se apercebeu que o seu marido de 55 dias tinha roubado o Hercules pediu-lhe repetidas vezes para que voltasse para trás, avisando-o de que teria graves problemas na sua carreira se continuasse com o seu plano.

“Querida, já te ligo, estou aqui com um problema”, foi a última frase de Meyer.

Depois de uma hora e quarenta e cinco minutos sobre o Canal da Mancha, o avião caiu. Estavamos no pico da Guerra Fria. O relatório oficial da Força Aérea norte-americana menciona que um avião caça F-100 e um outro C-130 levantaram da base da Força Aérea britânica numa tentativa de “prestar assistência” a Meyer mas as teorias da conspiração não têm parado de espigar desde que o avião de Meyer se despenhou. Mary Ann diz que 20 minutos depois de ter começado a falar ao telefone com o seu marido, a voz de um outro homem entrou em linha e pediu-lhe que não desligasse o telefone porque era preciso saber a localização do avião.

Henry Ayer tinha apenas sete anos quando o seu padrasto, de quem era bastante próximo, morreu. “Lembro-me que a minha mãe caiu no chão quando recebeu a notícia, como uma boneca de trapos”, disse à BBC. A família ainda não desistiu de saber o que se passou com Meyer e diz que mesmo que seja verdade os rumores de que os militares aliados tiveram medo de que ele fosse desertar com documentos secretos e tenham disparado, a família precisa de saber.