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Erdogan anuncia eleições antecipadas na Turquia. “Somos afetados a toda a hora pelas doenças do velho sistema”

reuters

Para justificar a decisão, Recep Tayyip Erdogan invocou os “desenvolvimentos na Síria” que tornaram “urgente uma mudança para um novo sistema executivo que possa fortalecer o país” e sublinhou a necessidade de se tomar rapidamente “decisões importantes” sobre a economia turca. Opositores criticam a decisão

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

O Presidente turco anunciou esta terça-feira a antecipação das eleições legislativas e presidenciais para 24 de junho, mais de um ano antes da data prevista. Para justificar a decisão, Recep Tayyip Erdogan invocou os “desenvolvimentos na Síria”, que tornaram “urgente uma mudança para um novo sistema executivo que possa fortalecer o país”, e sublinhou a necessidade de se tomar rapidamente “decisões importantes” sobre a economia turca.

Com o duplo escrutínio entrará em vigor a maioria das medidas adotadas no âmbito do referendo realizado em abril de 2017 que veio propor mudanças à Constituição do país e, desse modo, dar mais poderes ao atual Presidente turco. “Ainda que o Presidente e o Governo estejam em sintonia, somos afetados a toda a hora pelas doenças do velho sistema”, acrescentou Erdogan, que com as alterações constitucionais aprovadas no ano passado pode nomear ministros, altos representantes do Governo, vice-presidentes (uma nova posição criada no executivo turco) e metade dos juízes no conselho que supervisiona todo o sistema judicial.

Em conferência de imprensa, o Presidente turco explicou que a comissão eleitoral terá ainda de se pronunciar sobre o assunto, nomeadamente no que diz respeito à nova data marcada. Nada impedirá, contudo, que os preparativos para as eleições comecem “imediatamente”, adiantou.

A decisão de antecipar as eleições foi tomada depois de uma conversa com Devlet Bahçeli, líder do ultranacionalista Partido de ação nacionalista (MHP) e um dos principais aliados de Erdogan (o Partido da Justiça e do Desenvolvimento de Erdogan, o AKP, e o MHP vão aliás juntos a eleições).

Bahçeli já tinha apelado à realização de eleições antecipadas na terça-feira, num discurso perante o seu grupo parlamentar, em Ancara, em que declarou que, “nas condições atuais”, é “impossível” a Turquia esperar pelo dia 3 de novembro de 2019, data inicialmente prevista para as eleições eleições parlamentares e presidenciais. “Não tem sentido prolongar isto durante mais tempo. O caminho mais razoável é que o povo turco vá às urnas em 26 de agosto”, afirmou o líder do MHP, referindo-se ao dia da batalha de Manzikert, em 1071, que assinalou a entrada dos turcos na Anatólia após a vitória do sultão seljúcida Alp Arslan sobre as forças bizantinas.

Opositores de Erdogan criticam alteração da data das eleições

Para os opositores de Erdogan, trata-se somente de uma manobra que tem como objetivo levar o atual Presidente turco a beneficiar do estado de emergência em vigor desde a tentativa de golpe de Estado de 2015 e que será prolongado por mais três meses, conforme decidiu esta quarta-feira o Parlamento turco. Outros opositores alegam que o Presidente turco pretende recolher os frutos da ofensiva de Ancara no norte da Síria contra uma milícia curda. O Partido Republicano do povo (CHP, social-democrata) já garantiu que se vai opor à decisão de antecipar o duplo escrutínio.

Num relatório publicadado na terça-feira, a União Europeia considera que as medidas adotadas nos últimos dois anos pelo Governo turco, nomeadamente as vastas purgas em instituições públicas, vieram limitar os direitos políticos e civis e apela ao fim do estado de emergência no país. Mais de 55.000 pessoas foram detidas e mais de 140.000 despedidas ou suspensas na sequência do estado de emergência e esta quarta-feira o ministro da Defesa turco, Nurettin Canikli, anunciou que o Exército turco vai afastar cerca de três mil efetivos suspeitos de ligações ao fracassado golpe de Estado.

Em resposta ao relatório da UE, Turquia acusou o bloco europeu de “parcialidade” e “falta de empatia” considerando a “ameaça terrorista” que paira sobre o país. Mais de 55.000 pessoas foram detidas e mais de 140.000 despedidas ou suspensas na sequência do estado de emergência instaurado em 20 de julho.