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Os amigos de infância que recebem benefícios económicos astronómicos sem que os seus negócios o justifiquem

Mikhail Svetlov/GETTY

As teias que envolvem num confortável casulo financeiro os aliados de Putin já foram investigadas várias vezes. As conclusões andam à volta disto: amigos seus de infância recebem benefícios económicos astronómicos sem que os seus negócios o justifiquem. Donald Trump aprovou sexta-feira sanções contra mais nomes próximos do presidente russo. Quem são eles? E as ameaças de Trump são capazes de os assustar?

Ana França

Ana França

Jornalista

A expulsão de mais de uma centena de diplomatas russos de vários países ocidentais como “castigo” pelo alegado papel da Rússia na tentativa de assassinato de um antigo duplo-agente russo em solo britânico deu à imprensa internacional alguns títulos chamativos, mas alguns analistas argumentam que só sancionando os homens mais próximos de Putin, aqueles que de facto mantêm fortunas investidas no Ocidente e depositadas nos seus bancos, é que se conseguiria mostrar quem “fala a sério”. Na sexta-feira, a administração de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, fez precisamente isso. Selecionou sete oligarcas russos com laços diretos ao Kremlin, 12 das suas empresas e 17 membros do governo e impôs-lhes um pacote de sanções económicas - o que significa que todos os seus bens serão congelados e que um cidadão norte-americano pode enfrentar a justiça caso facilite transações em nome de algum destes indivíduos.

Há muito tempo que se fala das benesses económicas a que o “círculo próximo” de Vladimir Putin tem acesso simplesmente por serem homens da sua confiança, isto é, sem carreiras nos negócios que possam justificar os montantes que os seus extratos bancários apresentam. Um dos casos mais amplamente documentados é do violoncelista Sergey Roldugin, a quem Putin já chamou várias vezes “melhor amigo”, que nega publicamente ser um homem de negócios mas que detém milhões em ações de várias empresas estatais e no “banco de Putin”, o Rossyia. Um dos textos publicados pelo Expresso no âmbito da investigação internacional aos “Panamá Papers” conta como esse círculo nasceu, os laços antigos de amizade que unem esses homens e como a lealdade a Putin é a mais preciosa commodity na Rússia. O texto, que tem como título “Todos os homens de Putin”, analisa, por exemplo o momento da criação do banco Rossiya.

“Além de histórias de infância, estes homens partilham pelo menos uma outra coisa: todos estão ligados ao banco Rossiya, sediado em São Petersburgo, e identificado pelo governo norte-americano como uma espécie de cofre pessoal de Vladimir Putin. Os documentos provam que foi a partir desta instituição financeira que a teia se começou a desenhar. Os funcionários do banco eram também funcionários ao serviço dos homens de Putin, criando empresas offshore, transferindo bens para o nome de Roldugin, o insuspeito violoncelista, e dispersado as transações financeiras por bancos na Rússia, em Chipre e na Suíça.

O modelo económico que sustenta esta rede, e as regras que ditariam como é que o círculo viria a distribuir os dividendos destas atividades, foi estabelecido ainda nos anos noventa, e ainda em São Petersburgo, quando Putin e os donos do banco Rossiya criaram uma cooperativa para a construção de um condomínio fechado, em que todos tinham uma casa. A cooperativa tinha uma conta partilhada nesse banco: todos contribuíam, e qualquer um podia levantar qualquer montante. O nome do presidente russo não aparece nos ficheiros da Mossack Fonseca - nem uma vez. Gravações das conversas e mesmo testemunhas presenciais dessas reuniões onde os negócios de Putin eram discutidos mostram que, mesmo entre o seu círculo mais próximo, os intervenientes se referem a Putin por meio de pseudónimos ou simplesmente dirigindo uma mão aos céus”.

Em "A Cleptocracia de Putin: Quem é dono da Rússia?”, Karen Dawisha, cientista política e investigadora norte-americana, argumenta que quando a União Soviética iniciou o seu colapso lento mas certo, Putin assinou os documentos que tornavam o Banco Rossiya propriedade de uma empresa recém-formada por Yuri Kovalchuk e outros seus aliados. "A função de Putin foi tornar legal aquilo que de outra forma teria sido ilegal", disse Dawisha ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação por altura da publicação dos ficheiros da Mossack Fonseca. “É, contudo, inconcebível que uma rede desta abrangência pudesse ter existido sem o conhecimento e a conivência de Putin. Ele simplesmente fica com o que quer - quando tu és presidente da Rússia não é necessário um contrato escrito, tu és a lei”, disse Dawisha.

É apenas um exemplo entre as dezenas de ligações que mostram as fortunas inexplicáveis de alguns dos homens mais próximos de Putin. Outro? Mikhail Shelomov, que oficialmente trabalha numa empresa de exportação de mercadorias e recebe menos de 10 mil dólares por ano. Uma investigação feita no fim de 2017, quase dois anos depois da publicação dos “Panamá Papers”, pelo jornal Novaya Gazeta e pelo Projeto de Investigação do Crime da Corrupção (OCCRP) prova, através da análise de transações bancárias, que Shelomov tem uma fortuna de mais de 600 milhões de dólares - e que não foi capaz de explicar aos jornalistas como a conseguiu, quando contactado. Foi assim: em 2004 Shelomov recebeu acções do banco Rossyia e, pouco depois, mais 12,4% da Sogas, a seguradora da gigante Gazprom.

Em 2014, a União Europeia e o governo dos Estados Unidos já tinham imposto sanções contra Arkady e Boris Rotenberg, dois irmãos amigos de Putin desde a infância, em retaliação pela invasão da Ucrânia pelo exército russo. Em comunicado, o Tesouro norte-americano nota que os dois "angariaram uma fortuna enorme durante os anos de governo de Putin", incluindo contratos milionários com o governo - um deles na ordem dos sete mil milhões de dólares durante os Jogos Olímpicos de Sochi.

Desta vez, os alvos foram outros. Mas continuam a ter em comum a ligação a Putin. As razões continuam as mesmas: anexação da Crimeia, o apoio a rebeldes ucranianos e ao regime de Bashar al-Assad na Síria. Mas no rescaldo das eleições presidenciais norte-americanas há “entrada nova”: interferência nas eleições e “cyber-hacking”. Steven Mnuchin, secretário de Estado do Tesouro explicou desta forma o novo pacote de sanções: “Os oligarcas russos e as elites russas que lucram com um sistema corrupto deixarão de estar imunes às atividades desestabilizadoras do seu governo”.

Já Felipe Pathé Duarte, investigador e professor na área de segurança internacional, duvida que as sanções mudem a posição dos russos ou que sejam robustas o suficiente para que o “núcleo duro de Putin” se vire contra ele e comece a exigir o fim das intervenções militares na Síria e na Ucrânia: “Sim, essa pode ser uma estratégia dos Estados Unidos mas eu vejo as coisas ao contrário: as sanções poderão fortalecer Putin internamente a curto prazo na medida em que prova que agora se encontra, efetivamente, sob ameaça do ocidente”, diz ao Expresso”. Especificamente sobre a questão da Síria, que recentemente paralisou o mundo de medo de um confronto direto entre tropas norte-americanas e russas, Pathé Duarte diz que nada vai mudar porque os Estados Unidos e Rússia ambos sabem que o confronto é demasiado sério. “Putin não vai recuar porque pode não o fazer. Isto é, o confronto não é querido por ninguém, a médio e a longo prazo todos perdem.”

Um dos nomes mais sonantes da mais recente “lista negra” é o de Oleg Deripaska, cujo aglomerado de negócios vai das explorações agrícolas à produção de maquinaria para várias indústrias. Está no centro da investigação que o conselheiro especial Robert Mueller está a conduzir às alegadas ligações da equipa de Donald Trump com os russos, já que era próximo de Paul Manafort, ex-chefe de campanha de Trump caído em desgraça e acusado de fraude e de “atividades de lobbying ilegais”. Foi a Deripaska que Manafort se ofereceu para passar informações sobre a campanha de Trump, revelou o Washington Post para posterior confirmação do próprio porta-voz de Manafort. O Departamento do Tesouro disse que Deripaska estava acusado de ordenar escutas ilegais, extorsão, lavagem de dinheiro e de fazer ameaças de morte a alguns empresários seus rivais. Na Bolsa de Londres, esta segunda-feira, a En+, uma companhia de energia que é detida maioritariamente por Deripaska, perdeu 19% do seu valor. Também Suleiman Kerimov, que é dono da maior empresa de produção de ouro da Rússia, a Polyus, perdeu quase mil milhões de dólares na bolsa. A 9 de abril foi a “Black Monday” russa: os 50 homens mais ricos da Rússia perderam 12 mil milhões de dólares.

Pela proximidade pessoal com Putin, também o nome de Kiril Shamalov foi uma surpresa. E uma que levou Elizabeth Rosenberg, ex-investigadora responsável pela equipa de Barack Obama na área das sanções, a dizer que “estas sanções têm algum músculo”. Shamalov é filho de Nikolai Shamalov, um outro grande amigo de Trump, e um dos primeiros acionistas do banco Rossyia. Kiril é casado com Katerina Tikhonova, filha de Putin, facto que parece diretamente ligado à sua fortuna. Menos de um ano depois da cerimónia, o jovem casal conseguiu um empréstimo de 1,3 mil milhões de dólares junto do banco Gazprombank, que utilizou para adquirir 21% da Sibur, uma das maiores empresas de petroquímicos da Rússia. Outro ano volvido e esses 21% valiam cerca de dois mil milhões de dólares, noticiou também a agência Reuters. Igor Rotenberg, magnata do petróleo e filho de Arkady Rotenberg, que foi parceiro de Putin quando ambos eram judocas, também foi atingido. A empresa de Igor Rotenberg têm uma caderneta de adjudicações estatais invejável, incluindo uma para a construção de uma ponte da Rússia para a Crimeia, a península tomada pela Rússia em 2014 e que está na origem destas e de muitas outras sanções impostas aos russos quer pela União Europeia quer pelos Estados Unidos.