Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Morreu atriz famosa sul-coreana que Pyongyang raptou para fazer filmes de propaganda

Choi Eun-Hee (ao centro) fotografada na abertura do Festival de Cinema de Pusan, na Coreia do Sul

Han Myung-Gu / WireImage / Getty Images

Choi Eun-he e o seu marido realizador foram dois de milhares de sul-coreanos raptados pela Coreia do Norte nas décadas a seguir ao armistício

Luís M. Faria

Jornalista

Morreu Choi Eun-hee, em tempos a atriz mais famosa da Coreia do Sul, e que se tornou ainda mais famosa depois de ter sido raptada. Em 1978, após largas dezenas de filmes e numa altura em que a sua carreira se encontrava num impasse, Choi foi atraída a Hong-Kong com a promessa de um filme e de possivelmente dirigir a sua própria escola artística. Homens levaram-na para um barco e transferiram-na para um cargueiro que a levou, drogada e adormecida, até ao porto de Nampo, na Coreia do Norte.

Aí esperava-a uma prisão de luxo, sob a forma de uma vivenda equipada com todos os confortos materiais, e um estatuto social a condizer. Durante oito anos, Choi e o seu ex-marido, o realizador Shin Sang-ok, também ele entretanto raptado (ela funcionou como isco para o atrair), fizeram filmes de propaganda para o então líder do país ditador norte-coreano, Kim Il-Sung. Viviam em condições privilegiadas e conseguiram ganhar a confiança de Kim, que convivia frequentemente com eles e os autorizava a ir a festivais de cinema no estrangeiro.

Em 1986, durante uma viagem a Viena, o casal conseguiru iludir a vigilância dos agentes que os acompanhavam e refugiou-se na embaixada americana. Acabaram exilados nos EUA, por motivos de segurança, e só muito mais tarde regressariam à Coreia do Sul. Ao todo, tinham feito mais de uma dezena de filmes para Kim. Um deles, intitulado "Sal", chegou a valer a Choi um prémio de melhor atriz no festival internacional de cinema em Moscovo, em 1985.

Uma ferida permanente

Sendo quem eram, o caso deles deu bastante que falar mas esteve longe de ser a única vez que Pyongyang raptou cidadãos do sul. Além das dezenas de milhares que foram levados durante a Guerra da Coreia (1950-1953), muitos deles altamente qualificados, ao longo das décadas seguintes isso também continuou a acontecer. O período mais intenso foi no final dos anos 70.

Ao todo, umas 3800 pessoas terão sido levadas da Coreia do Sul para o Norte. Também houve vítimas japonesas, embora em muito menor quantidade. A questão deu origem a prolongadas negociações, e a maioria dos raptados acabaram por ser libertados, bem como as suas famílias. Quase cinco centenas, porém, continuam a viver na Coreia do Norte, e a questão é uma ferida permanente nas relações entre este país e os seus vizinhos.

Choi e o marido – os dois tinham voltado a casar, sob pressão de Kim –tomaram a precaução de gravar secretamente conversas com este, para que ninguém pudesse mais tarde vir dizer que os dois tinham ido voluntariamente para a Coreia do Norte.

A história de Choi foi contada em livros e num documentário de 2016, "Os Amantes e o Déspota". Ao que parece, ela nunca perdoou. Morreu agora aos 91 anos, no hospital em Gangseo (Seul) onde tinha ido fazer diálise, anunciou a família esta terça-feira.