Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Ex-candidato presidencial Aécio Neves próximo de se tornar réu

Aécio Neves a discursar na sessão parlamentar que destituiu Dilma Rousseff, em agosto de 2016

Foto Igo Estela/Getty Images

Gravado a pedir suborno, o futuro do senador e ex-candidato presidencial do PSDB é decidido esta terça-feira pelo Supremo Tribunal Federal. Aécio Neves diz-se vítima de um “enredo armado”

Dez meses depois de ter sido acusado pela Procuradoria-Geral da República de corrupção e obstrução à operação Lava Jato, Aécio Neves poderá tornar-se réu no Supremo Tribunal Federal. Os cinco juízes da equipa que julga estes casos decidem esta terça-feira se vão julgar o senador e ex-candidato presidencial do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) no caso desencadeado pelas gravações feitas pelo empresário Joesley Batista em maio de 2017 e que também incluíram o presidente Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

O senador tucano (nome pelo qual são conhecidos os militantes do PSDB) foi gravado a pedir 2 milhões de reais (cerca de €472 mil) em notas a Joesley Batista, dono da JBS, o maior grupo de carnes do Brasil. Deste processo constam ainda as filmagens do primo do senador a receber malas de dinheiro, além dos extratos de operações bancárias suspeitas da campanha eleitoral de 2014 que a Procuradoria-Geral da República mandou esta semana anexar ao processo.

A irmã, Andrea Neves, o primo Frederico Medeiros e o assessor Mendherson Lima foram entretanto presos no âmbito do processo, por não beneficiarem da prerrogativa de função (foro privilegiado). Aécio, neto do antigo Presidente Tancredo Neves, foi na altura suspenso de funções no Senado pelo Supremo Tribunal Federal, mas dias depois foi readmitido pelos seus pares da câmara alta do Parlamento.

Neto de Tancredo Neves e “paladino da moral”

Caso os cinco juízes do STF decidam aceitar a denúncia da PGR, Aécio Neves será constituído arguido e julgado noutra sessão pelo mesmo tribunal.

A verificar-se a acusação, o senador, também ex-governador de Minas Gerais, tornar-se-à na primeira figura de relevo dos tucanos a ser julgado no âmbito da Lava Jato.

Herdeiro de Tancredo Neves e oriundo de uma família de Minas Gerais com pergaminhos, Aécio sempre se declarou inocente e um modelo de honestidade. Foi ele também quem deu início ao processo que começou faz esta terça-feira dois anos e que levou à destituição da Presidente Dilma Rousseff, que o derrotou por mais de 3,5 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2014. “Não perdemos a eleição para um partido político, e sim para uma organização criminosa que se instalou no seio do Estado nacional”, disse no rescaldo da derrota o senador que agora é investigado em mais nove processos de corrupção e obstrução à Justiça.

Joesley Batista, dono da JBS e autor das gravações comprometedoras

Joesley Batista, dono da JBS e autor das gravações comprometedoras

Evaristo Sá/Getty Images

“Fui ingénuo, cometi erros”

O empresário Joesley Batista e o senador Aécio Neves, “numa reunião intermediada pela irmã do parlamentar, Andrea, que já havia sido a portadora da solicitação da vantagem indevida feita por seu irmão, acertam o pagamento de 2 milhões de reais”, lê-se num resumo da transcrição das gravações feita pela polícia. O dinheiro seria entregue “em quatro parcelas semanais, a serem recebidas por um intermediário, no caso, seu primo Frederico Medeiros ”, lê-se no documento publicado pelo site Congresso em Foco, em junho do ano passado.

Num artigo publicado esta terça-feira na imprensa brasileira, Aécio Neves diz que cometeu “um erro, não um crime”.

“Fui ingénuo, cometi erros e me penitencio diariamente por eles. Mas não cometi nenhuma ilegalidade”, escreve Aécio Neves em relação ao caso em que pede o dinheiro ao empresário Joesley Batista. Um episódio em que o senador depois sugere que as malas fossem entregues a “alguém que a gente” pudesse “matar antes de fazer delação”. Uma clara referência ao seu primo Frederico Medeiros, filmado pela Polícia Federal a transportar o dinheiro.

Um “enredo armado” pelos denunciante

Numa entrevista coletiva dada ontem, segunda-feira, Aécio disse ser vítima de um “enredo armado” pelos denunciantes da JBS. “Um enredo pré-determinado por um cidadão que recebeu benefícios. Foi uma construção feita pela defesa do senhor Joesley Batista, com membros do Ministério Público”, disse o senador, citado pelo site G1.

A defesa argumenta que a participação de um ex-procurador da República como advogado no acordo feito com o empresário Joesley Batista é ilegal e pediu também acesso às provas que sustentam a investigação.

A sessão desta terça-feira, com início marcado para as 18h em Portugal Continental, é também um teste à denúncia feita pelos irmãos Batista em troca de penas mais reduzidas, num caso que também levou já a Procuradoria-Geral da República a acusar o Presidente Michel Temer, mas que o Parlamento não deixou seguir para julgamento no Supremo Tribunal Federal.

  • Michel Temer à beira do abismo

    A divulgação de uma escuta em que Michel Temer avaliza a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha incendiou o país. A base de apoio do presidente está a ruir e na ruas pede-se a sua demissão. O presidente do PSDB Aécio Neves foi suspenso do Senado e a irmã presa

  • Brasil: Michel Temer ainda sem razões para dormir descansado

    O Supremo Tribunal Federal autorizou a abertura de mais uma investigação contra Michel Temer por desvios nos portos. Presidente diz-se vítima de perseguição pelo Ministério Público mas agora é a Polícia Federal que o considera chefe de uma organização criminosa. Lula volta a encontrar-se com o juiz da Lava Jato