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Ministro russo diz que ataque químico na Síria foi encenado pelo Ocidente. E cita “Alice no País das Maravilhas”

KIRILL KUDRYAVTSEV/GETTY

Sergei Lavrov, que tem a pasta dos Negócios Estrangeiros, deu uma entrevista à BBC dias depois da intervenção militar de EUA, França e Reino Unido. Houve referências literárias e disse que está tudo pior que no tempo da Guerra Fria. Pediu seriedade e não foi meigo com o jornalista que conduziu a entrevista: “O senhor é mesmo mal-educado”

Ana França

Ana França

Jornalista

No início foi conciliatório. Há canais de comunicação entre as forças da NATO e a Rússia que foram fechados e isso preocupa-o, mas continuam abertos aqueles entre os militares de ambos os países, que “se entendem bem entre si” e percebem “melhor que ninguém” o que realmente se passa. Foi assim que Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, deu início à entrevista que deu ao programa da BBC “Hardtalk” mas o tom mudou muito - e muito rapidamente.

Stephen Sackur, apresentador do programa, perguntou, direto: “Esta crise acabou?”. E Lavrov respondeu que isso ia depender “dos que inventaram a crise”. E quando Lavrov usa o verbo inventar não é só de forma figurativa. O ministro defende que não há provas irrefutáveis de que um ataque com armas químicas tenha de facto atingido a cidade de Douma, perto da capital Damasco, no dia 7 de abril, como parece ser já consenso entre as várias potências ocidentais. E vai mais longe dizendo que há indícios de que tenha sido “encenado”. Sackur pergunta então se a Rússia não é um país comprometido com o fim das armas químicas, Lavrov responde que sim, e Sackur volta a insistir: “Então e não quer ver punidos aqueles que as usam?”. E é aqui que Sergei Lavrov explica que esse ataque, no seu entender, não existiu.

“O ataque não existiu, o que existiu foi uma encenação”, disse. “Não posso ser indelicado para os chefes de Estados dos países que nos acusam mas francamente todas as provas apresentadas se baseiam ou em notícias ou em coisas colocadas nas redes sociais”, acrescentou o ministro. Confrontado com a existência de fotografias de vasilhas e outros recipientes que podiam conter os químicos, Lavrov diz que viu as imagens mas não ficou convencido. “Esses recipientes estavam em cima de camas e as camas estavam completamente intactas e os vidros das janelas intactos. Repare: vocês têm de ser um pouco mais sérios”, respondeu. E, logo a seguir, deixou a pergunta: “Poderá explicar-me porque é que os Estados Unidos e os outros países resolveram atacar um dia antes de a OPCW (Organização para a Proibição de Armas Químicas, OPAQ em português) entrar no terreno para verificar se de facto houve um ataque químico de cuja ocorrência eles estão certos?”.

Lavrov tinha dito ter “provas irrefutáveis” que teriam sido os chamados “White Helmets”, uma força civil de ajuda humanitária financiada, entre outros países, pelo Reino Unido, a fabricar todo o cenário mas quando confrontado com a necessidade de as apresentar, Lavrov disse apenas que “a história mostra outros episódios semelhantes” e que “é sabida a ligação dos White Helmets a entidades terroristas como a al-Nusra” e pediu a Sackur: “Não me coloque palavras na boca”. Mais à frente haveria de dizer: “O senhor é mesmo mal-educado”. Ao telefone com a BCC depois da entrevista, o próprio jornalista disse que Lavrov se mostrou extremamente combativo e que “não ficou para trocarmos gentilezas no fim”. Sobre as suspeitas de que os russos possam ter impedido a entrada das equipas do OPCW, Lavrov disse poder “absolutamente garantir” que não houve qualquer intervenção da Rússia na tentativa de adulterar as possíveis provas que os investigadores venham a recolher.

“Pior que a Guerra Fria”

A Rússia fez saber, depois do ataque conduzido por Estados Unidos, França e Reino Unido contra bases militares sírias e armazéns suspeitos de conterem reservas de armas químicas, que “haveria consequências”, coisa que Lavrov ainda não afasta. Pelo contrário, diz que este episódio fez a Rússia perder “a última reminiscência de confiança nos amigos ocidentais, que agem segundo uma lógica muito estranha: primeiro o castigo e depois as provas”. Como exemplos dá o caso do ex-espião Sergei Skripal, que supostamente teria sido envenenado em Salisbury, no Reino Unido, por um químico produzido na Rússia - foi essa a acusação imediata do Governo de Theresa May - mas os cientistas britânicos não conseguiram ainda encontrar a origem do químico.

Na altura o incidente desencadeou uma enorme onda de expulsões diplomáticas dos dois lados e Lavrov considera “ridículo” que a única justificação para essa ação tenha sido a “possibilidade extremamente provável” de que tenha sido a Rússia a mandar envenenar Skripal e a sua filha. Essa expressão é de Theresa May, primeira-ministra britânica. Este episódio faz Lavrov convocar a ficção à conversa: “É como naquele episódio de ‘Alice no País das Maravilhas’ em que, durante um julgamento, o rei diz ‘vamos perguntar ao júri” e a rainha grita ‘nada de Júri, sentença primeiro, veredicto depois’”.

Questionado sobre o “clima” das relações internacionais, Lavrov disse que as relações entre Moscovo e o Ocidente estão “piores que na altura da Guerra Fria” porque os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia fecharam todos os canais normais de comunicação com a Rússia: “É pior porque durante a Guerra Fria existiam vários canais de comunicação. Não havia esta obsessão com a ‘russiofobia’, que mais parece genocídio através de sanções”.

Mas logo depois de aceitar que as sanções têm de facto um impacto na economia - a queda do rublo a recuar 13% face ao euro apenas nos últimos dois dias -, Lavrov disse que a Rússia “vai sobreviver como já sobreviveu outras vezes” e disse que com estas sanções “não se atingem os oligarcas” pois elas servem apenas para “deixar centenas de milhares de cidadãos russos perturbados”. Sobre o envio de mais armamento para a Síria, incluindo modernas defesas anti-aéreas que já tinham sido retiradas da equação, Lavrov disse que, face à agressão, “a Rússia tudo fará para manter o Estado sírio protegido”