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O mundo árabe está reunido. O que é que está a dizer?

A 29ª reunião da Liga Árabe acontece dia 15 de Abril, um dia depois do ataque das forças aliadas à Síria

Getty

A 29ª reunião da Liga Árabe realiza-se este domingo e acontece num panorama de conflito. Os confrontos entre israelitas e palestinianos serão um dos temas da conferência, que deverá abordar também a situação no Irão e, claro, os ataques com mísseis a algumas posições militares sírias

Ana França

Ana França

Jornalista

Nos últimos 70 anos, os líderes do mundo árabe reuniram-se quase 40 vezes, algumas de emergência. Reúnem-se de novo este domingo, apenas um dia após do ataque a um país que não estará presente: a Síria. Pouco depois do início da Guerra da Síria, a Liga Árabe baniu Bashar al-Assad por considerar que ele utilizava métodos de repressão violentos contra a dissidência do seu povo. Nas reuniões preparatórias que sempre antecedem esta cimeira, a questão do ataque à Síria não figurou como uma emergência, mas é sabido que será um dos pontos discutidos. Em primeiro lugar estará a questão da Palestina e os recentes confrontos entre as forças israelitas e os habitantes de Gaza. Já morreram 31 pessoas desde que o Hamas, o movimento islâmico que controla a Faixa de Gaza, deu início à mobilização contra o bloqueio económico e social a que os habitantes da Faixa estão sujeitos há mais de uma década.

A “Marcha do Retorno” começou a 30 de março e deverá estender-se até 15 de maio, quando se assinala o Naqba, o dia em que, em 1948, 750 mil palestinianos foram deslocados das suas terras durante a guerra que levou à criação do Estado de Israel. Ao mesmo tempo que a violência alastra na fronteira que separa a Faixa de Gaza de Israel um outro fósforo está prestes a queimar perto das susceptibilidades palestinianas: os Estados Unidos irão em breve mudar a sua embaixada para Jerusalém, cidade disputada tanto por árabes árabes e israelitas.

O secretário-geral da Liga Árabe, o egípcio Ahmed Aboul-Gheit, sustentou que a decisão dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel constitui "uma provocação sem precedentes" para o problema palestiniano. Os membros da Liga Árabe devem tentar chegar a um acordo que garanta a oposição de todos os membros ao plano de Israel em tornar-se membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU, algo que só conseguirá com os votos favoráveis de dois terços dos representantes da organização.

Na sexta-feira, e no decurso de uma reunião preparatória, o ministro jordano dos Negócios Estrangeiros, Ayman Safadi, tinha assegurado que o problema palestiniano é "a prioridade dos árabes", e sublinhado o "perigo" de Israel prosseguir "a ocupação" do território e "a privação do direito do povo palestiniano de possuir um Estado e a liberdade".

A questão do Irão também figura nos primeiros lugares da agenda e espera-se que a Arábia Saudita exerça pressão sobre os restantes países para que da reunião saia uma resolução escrita de repúdio ao país xiita, acusado por vários países sunitas de apoiar e financiar terrorismo. O Irão tem ajudado o regime sírio na sua guerra e também tem fornecido armas aos rebeldes do Iémen, que por sua vez têm Riade, a capital saudita, permanentemente na mira dos seus lança-mísseis. Lança-mísseis esses, acreditam os sauditas, fornecidos pelos Irão. Adel Al-Jubeir, ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita disse que não haverá estabilidade na região enquanto o Irão continuar a apoiar lutas sectárias e a abrigar membros de grupos terroristas.

“O Irão e o terrorismo são dois lados da mesma moeda nesta região”, disse o ministro na reunião que antecedeu a cimeira. O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit, também criticou a “instabilidade criada pelo Irão” e chamou à atenção para o facto de que as múltiplas crises na região deixam espaços propícios a ingerências externas. Para o responsável, a reconstrução das zonas afetadas pela luta contra o auto-denominado Estado Islâmico (Daesh) deveria, assim, ser uma das prioridades dos líderes.

Fora desta cimeira ficou o Qatar, que viu as relações com os restantes estados do Golfo serem severamente reduzidas por culpa também de suspeitas de favorecimento de grupos terroristas - coisa que Doha sempre negou. A lista negra não fica por aqui. Apesar de estarem presentes, tanto o Líbano como o Iraque deverão ser alvo das mesmas pressões, e exatamente pelos mesmos motivos. Ambos os países se opuseram à intenção da Liga em inserir uma “cláusula anti-Irão” no comunicado que será redigido no fim da cimeira detalhando as decisões do coletivo.

Na cimeira deverão estar 17 líderes árabes incluindo o Presidente do Egito Abdul Fattah al-Sisi, o Presidente do Iraque, o Presidente do Líbano, o Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana Mahmoud Abbas, e o presidente do Iémen Abdrabbuh Mansur Hadi. O Iémen está envolvido numa das mais violentas guerras civis da região, e a Arábia Saudita apoia o presidente Hadi contra as forças rebeldes houthis, que querem depôr o Presidente.Também este assunto deverá ser discutido com algum empenho até porque há planos para que seja criado um organismo árabe de combate ao terrorismo. A cimeira decorre em Damam, no leste da Arábia Saudita, dadas as preocupações com a segurança dos participantes, que não poderiam ser totalmente garantidas na capital, Riade.