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“Viemos cá fora, o céu estava iluminado com as explosões e com os riscos de luz dos mísseis”

SANA HANDOUT HANDOUT

Majd Fahd está revoltado com o ataque das forças aliadas a posições militares sírias. Mas acima de tudo "confia no exército" da Síria e defende que os Estados Unidos têm um péssimo passado no que a intervenções militares diz respeito. Ao telefone com o Expresso, durante a madrugada, contou o que viu e o que sentiu quando os mísseis começaram a rachar com feixes de luz o céu da sua cidade

Ana França

Ana França

Jornalista

Quando lançámos a pergunta, na voragem de publicações que inundaram o Twitter nas horas que se seguiram ao ataque dos aliados a posições estratégicas do exército sírio, Majd Fahd, um jornalista de Damasco com os olhos bem abertos apesar de serem quatro da manhã em Lisboa e portanto seis na sua cidade, respondeu: “Queriam saber o que se passa, certo? Passa-se um ataque contra o povo sírio por um grupo de nações com um terrível cadastro em intervenções militares”, diz ao Expresso ao telefone a partir do sul da capital síria.

Às suas quatro horas da manhã, eram duas em Lisboa, começaram as explosões. Quando falou com Expresso o ataque ainda estava a decorrer. “Há cerca de quarenta minutos ouvi várias explosões sucessivas, enormes, muito barulho mesmo. Estava em casa com a minha família e viemos cá fora, o céu estava iluminado com as explosões e com os riscos de luz dos mísseis mas as defesas sírias impediram vários deles de chegarem ao seu destino”, diz Fahd.

O jornalista colocou no Twitter alguns vídeos que parecem mostrar a defesa antimíssil síria a “engolir” e a neutralizar, dentro de uma pequena bola de fogo no céu, os mísseis dos aliados.

Perto da sua casa não caíram mísseis mas diz não ser verdade que os Estados Unidos e os seus aliados apenas tenham lançado ataques sobre zonas militares e desabitadas. “No norte de Damasco há um bairro em que pelos menos um prédio ficou muito danificado e eu falei há pouco com amigos meus que vivem nessa zona e já está toda a gente debaixo do solo, em caso de haver mais ataques”. Não se esperam outras investidas, pelo menos para já. Os três países que fizeram parte da ação militar contra os alegados depósitos de armas químicas do governo sírio têm reforçado, nas várias mensagens e reações enviadas à comunicação social, que os bombardeamentos são uma retaliação direta ao uso desses químicos e não uma tentativa de depor o regime.

Damasco nunca chegou a ser controlada por rebeldes apesar de terem estado às portas da capital com a ocupação de Ghouta Oriental, por exemplo. Foi sobre uma das cidades do distrito de Ghouta, Douma, que se suspeita terem sido utilizadas armas químicas. Mais de 50 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. As imagens são das mais chocantes que a guerra, qualquer guerra, pode produzir, mas Majd não acredita que tenha sido o seu exército a atacar aquelas pessoas. “Isso não tem lógica alguma. Sempre que isto acontece as forças do exército sírio estão a dias ou poucas semanas de recapturar essas zonas. Porque raio haveria o Assad de envenenar pessoas com gás quando mais dia menos dia a cidade ia voltar para as mãos dele? Não consigo acreditar nisso, acho que os rebeldes, como vocês lhe chamam, fazem isso em desespero para os virem ajudar”, diz.

Majd Fahd tem “metade da família” no exército e perdeu o primo há pouco tempo. “Ele estava em Raqqa a lutar contra o Estado Islâmico e um morteiro fornecido por um americano a um desses rebeldes atingiu o seu avião e matou-o. É claro que respeito o meu exército e defendo o meu exército”, diz.

No fim das várias chamadas que foram abaixo, mensagens em áudio, mensagens escritas e troca de tweets, estava o dia a nascer em Damasco e as pessoas já estavam na rua, com bandeiras russas e sírias, como que a desafiar quem os ataca. “Eu agora vou dormir e depois vou para o centro, onde há calma e amor à Síria e respeito pelas pessoas e vou demonstrar que estou com o meu país”, completa.

Mas enquanto Damasco é um oásis protegido a todo o custo pela elite da tropa síria, o resto do país está destruído e vai demorar anos, talvez décadas a ser reconstruído.