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Por uma vez desde 1959 não vai ser um Castro a mandar

Muitos delfins foram caindo, mas Miguel Díaz-Canel (à esquerda) vai suceder a Raúl Castro

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Miguel Díaz-Canel será eleito Presidente a 19 de abril. Economia é o primeiro desafio do novo líder nascido depois da Sierra Maestra

Daniel Lozano, Correspondente em Caracas

Cuba vai ter, a partir de quinta-feira, um líder cujo apelido não é Castro. É a primeira vez que tal sucede desde 1959, o que prenuncia uma nova era de contornos desconhecidos, um tempo em que a grande maioria dos cidadãos anseia por melhorias na qualidade de vida mas, ao mesmo tempo, teme que elas nunca cheguem ou cheguem tarde demais.

A ilha dos paradoxos, habituada durante 59 anos a que tudo mude para que tudo continue igual, verá os 605 deputados da Assembleia Nacional do Poder Popular, votados à força (concorreram às eleições gerais de março numa lista única, em que todos ganhavam e nenhum perdia), escolher entre as suas fileiras o sucessor de Raúl Castro, há dez anos no poder, depois dos 49 do irmão Fidel. Ninguém na América Latina ocupa o poder há tanto tempo como os irmãos Castro.

O novo Presidente, que deverá ser Miguel Díaz-Canel, passará a chefiar o Conselho de Estado, cujos membros serão eleitos no mesmo dia. No novo Parlamento estarão, ainda, os homens e as mulheres mais poderosos do país, a começar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, e o da Economia, Marino Murillo. Também lá estão os chefes do Exército, Leopoldo Cintra Frías e Ramón Espinosa, e a chefe política de Havana, Mercedes López de Acea, juntamente com Mariela Castro, filha de Raúl e responsável pelo Centro Nacional de Educação Sexual.

Acima de todos estará o ainda vice-presidente do Conselho de Estado, Díaz-Canel, chamado a prosseguir a revolução cubana sob a tutela do mais novo dos Castros, que continuará à frente do Partido Comunista Cubano (PCC), a “força dirigente superior da sociedade e do Estado”.

Sempre em segundo plano

A eleição de Díaz-Canel, líder de uma geração de funcionários provinciais do PCC (fará 58 anos um dia depois de se tornar Presidente), consagra um político formado pela revolução, que não combateu na Sierra Maestra porque ainda não tinha nascido. Representa, ainda, a ascensão do primeiro civil à mais alta magistratura, exercida desde 1959 por dois militares com uniformes verde-azeitona.

O futuro homem-forte de Cuba é um dirigente hábil que logrou manter-se em segundo plano enquanto outros, dotados de maior carisma ou popularidade, iam caindo como fruta madura, incluindo os primeiros delfins escolhidos por Fidel. Cauteloso, nos últimos meses extremou as suas declarações mais ortodoxas para que ninguém pudesse ver nele um Gorbatchov cubano. Isto levou alguns a considerá-lo marioneta de Raúl, com fios serão manobrados como convém pelos militares e pelo PCC.

O Richard Gere cubano, como lhe chamam as seguidoras mais entusiastas, “demonstrou obediência, lealdade e capacidade de gestão”, resume ao Expresso o politólogo Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas e autor do livro “Raúl Castro e a nova Cuba”, sem edição portuguesa. “Tem uma imagem de quadro político eficiente, com atitude dialogante e práticas populares entre os sectores revolucionários, com um manejo mais moderno dos novos códigos. Tem a seu favor um grupo de quadros nas províncias e o aparelho central do Governo, além dos funcionários do partido que cresceram sob a sua tutela e orientação.”

Os analistas apostam que a nomeação de Díaz-Canel provocará alterações na Constituição cubana. Já não existe necessidade institucional de que seja um Castro (Fidel ou Raúl) a exercer a presidência simultânea do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros. “A própria Assembleia pode proceder à reforma para dividir o poder entre os presidentes do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros. Vimos isso na URSS aquando da morte de Estaline, tendo o poder sido repartido entre Khrushchov (secretário-geral do partido), Malenkov (Conselho de Ministros) e Beria (Ministério do Interior)”, vaticina o politólogo Álvaro Alba.

O principal desafio de Díaz-Canel é a economia, no meio de uma nova escalada com os Estados Unidos — Trump travou o degelo que Obama encetara após mediação do Papa — e da deriva sem limites da aliada Venezuela. “Em termos financeiros estamos numa situação muito parecida com a de 2008, com a economia afundada na crise. Faltam reformas para que o país consiga sustentar uma taxa de crescimento decente e alcance uma nova forma de inserção internacional”, diagnostica o economista Pavel Vidal, antigo funcionário do Banco Central de Cuba.

Qual será a agenda de Díaz-Canel? Especialistas e cubanólogos observam a bola de cristal do país caribenho, que mostra muitas dúvidas e poucas certezas. Há uma conclusão na boca de Vidal: “A economia e a sociedade necessitam de mais mudanças. O novo presidente terá de avaliar os custos e benefícios políticos, nomeadamente do seu baixo capital político inicial, da pouca legitimidade democrática e da menor legitimidade histórica.”