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Isto já é uma guerra? Sim, mas ainda não

As ruínas do Centro Científico, um dos edifícios atingidos pelos bombardeamentos

LOUAI BESHARA/ Getty Images

Bombardeamentos desta sexta-feira na Síria são retaliações aos monstruosos ataques químicos, mas que não vão travá-los, dizem analistas internacionais. O que se segue? Mais, mas talvez não do mesmo

Quando, já madrugada em Lisboa, Donald Trump anunciou bombardeamentos na Síria coordenados com o Reino Unido e França (a Alemanha mantém-se um ator militar relutante em entrar na ação), a pergunta instintiva foi “começou a guerra?” A resposta foi dada pelo próprio Trump e, logo a seguir, por Theresa May: não se trata de intervir na guerra civil na Síria, mas de retaliar contra a utilização pelo regime de Assad de armas químicas, tentando destruir o seu poderio e dissuadir novos ataques.

A comunidade internacional está unida nesse propósito, mas este parece ser “apenas” mais uma retaliação que dificilmente travará mais ataques químicos. Mas, sendo mais um ataque, não será mais do mesmo, porque o risco de escalada é grande. E recordemos a complexidade deste mapa estratégico, que além do ditador sírio envolve a Rússia, a Turquia e o Irão.

Este é o pano de fundo de várias análises já publicadas por especialistas e colunistas internacionais, poucas horas depois do ataque que Trump rotularia como "um sucesso". Ninguém põe em causa a brutalidade de Assad nem a devastação por ele provocada, com utilização de armas químicas, repudiada formalmente por 98% humanidade, como no passado notou Obama. Nos últimos anos, a sucessão de notícias sobre ataques químicos é chocante. A especialista militar Rebecca Hersman faz a contabilidade tenebrosa: as forças de Assad já usaram armas químicas mais de 200 vezes desde o início da guerra civil. E é ela a primeira a dizer, na Vox que os bombardeamentos na Síria não vão travar a utilização de armas químicas por Assad.

LOUAI BESHARA/ Getty Images

Isso torna os bombardeamentos inúteis? Pelo contrário. “Não há uma boa opção na Síria, mas há uma maneira de fazer Assad pagar”, escreve Jonathan Freedland no “The Guardian”. Estes bombardeamentos “não são uma solução para a crise. Mas nós não podemos assistir ao massacre do brutal ditador sobre o seu próprio povo”.

Owen Jones, ainda no “The Guardian”, é bastante mais cético. Como de costume, aliás. Ontem, escrevia que “um ataque à Síria pode ser desastroso”, recordando o resultado das intervenções no Iraque, país que “foi reduzido a um campo de morte”, e na Líbia, hoje “reduzida a um caos sangrento". “Aqui vamos nós outra vez”, avisa.

O colunista acusa os líderes que orquestraram o ataque: não o justificaram com a demonstração da causa nem explicaram qual é a estratégia ou os alvos. “Assad é um ditador monstruoso responsável por crimes hediondos”, mas “qualquer intervenção militar vai deixá-lo no poder, a não ser que o Ocidente esteja a planear uma invasão em larga-escala e uma guerra total com a Rússia, o que me parece improvável.”

Onde pode levar-nos um possível sucessão de ataques? “É difícil acreditar que os líderes europeus estejam a deixar isto escalar”, responde Simon Jenkins. “Olhem para a Síria e verão todos os elementos que conduziram às guerras mundiais”.

O papel da Europa

A guerra civil é lá longe mas os direitos humanos não têm pátria nem geografia. Nem, aliás, as consequências do conflito podem deixar de ter impacto na Europa, com todas os 'danos colaterais' que ela implica.

Afinal, “a Síria é uma derrota moral para os europeus”, escrevia Natalie Nougayrède no “The Guardian” há mês e meio. “Depois de 1945, a Europa disse ‘nunca mais’ mas o nunca mais está a acontecer à frente dos nossos olhos no Médio Oriente”, escrevia ainda a colunista, que considera que a Síria é também uma crise europeia e “o pior desastre de direitos humanos do mundo em décadas”.

A oportunidade perdida em 2013

A sucessão de ataques químicos na Síria repete-se ano após ano, às vezes mês após mês. E o Ocidente sempre os repudia, mas tem falhado sucessivamente em travá-los.

“Nós não vamos tolerar a utilização de armas químicas contra o povo sírio nem a transferência dessas armas para terroristas”. A frase foi proferida por Barack Obama em 21 de março de 2013, num discurso em Israel então muito elogiado (e que pode ler ou reler na íntegra).

Obama no discurso em março de 2013

Obama no discurso em março de 2013

Uriel Sinai/ Getty Images

A 21 de agosto do mesmo ano, um novo ataque com armas químicas matou mais de mil pessoas, incluindo centenas de crianças. A oposição falou então num "massacre" por parte do Exército, apelando à intervenção urgente da comunidade internacional. O Governo sírio desmentia o que as imagens chocantes provavam. Dias depois, Obama anunciou uma intervenção dos EUA na Síria, requerendo no entanto a aprovação do Congresso. Dirigiu-se ao Congresso norte-americano, a 11 de setembro, defendendo soluções pacíficas. E assim adiando uma intervenção.

Semana e meia depois, a 24 setembro, o presidente americano em funções dirigiu-se à Assembleia das Nações Unidas propondo uma ação internacional maior na guerra civil da Síria. “Não há um jogo grande para ser ganho, nem a América tem qualquer interesse na Síria para lá do bem-estar do seu povo, a estabilidade dos seus vizinhos, a eliminação de armas químicas e assegurar que ela não se transforma num porto de abrigo para terroristas”. O “custo da inação” foi então sublinhado por vários analistas, como Matthew RJ Brodsky, no “Huffington Post”.

“No verão de 2013, perdeu-se uma janela de oportunidade em resultado da hesitação norte-americana”, relembrava Natalie Nougayrède no final de fevereiro passado. “Se os arquivos alguma vez forem abertos, poderemos ver que foi o falhanço dos EUA em traçar linhas vermelhas sobre a utilização de armas químicas na Síria que encorajou a Rússia de Vladimir Putin a lançar a sua intervenção militar em apoio ao ditador, cujo exército vinha massacrando civis desde 2011”.

Esta posição não iliba as políticas europeias, acrescenta Nougayrède, que invoca o abstencionismo britânico no processo e a incapacidade de a França, sozinha, entrar em ação, mesmo que naquela altura tivesse a sua força aérea pronta a descolar. “A devastação da guerra nas vizinhanças da Europa e o efeito colateral do caos no Médio Oriente são desenvolvimentos cujo impacto ainda não foi totalmente medido.”

O que acontece agora?

Imagem de um míssil, parte do ataque aéreo de sexta-feira

Imagem de um míssil, parte do ataque aéreo de sexta-feira

U.S. Navy/ Getty Images

Esta é a pergunta que a Vox coloca no seu site e a que Zack Beauchamp tenta responder. “Sejamos claros: estes ataques limitados não destruirão quase de certeza a reserva inteira de armas químicas do governo sírio, muito menos vão diminuir seriamente a sua capacidade para combater os rebeldes anti-governamentais”. Por outras palavras, “este foi um ataque simbólico”, desenhado “para sinalizar alto e bom som junto do governo sírio que a utilização de armas químicas provocará a retaliação americana, o que desejavelmente travará Assad noutros ataques”.

Mas há cerca de um ano isso já foi tentado por Trump, sem sucesso: o Presidente americano ordenou então um bombardeamento aéreo depois de um ataque de armas químicas na Síria que matou 80 pessoas. A mensagem “claramente falhou”. “Este é o risco fundamental da estratégia dos ‘ataques limitados’ que Trump parece ter posto em prática”, acrescenta.

A manhã seguinte ao ataque deixa várias questões sem resposta. A mais séria é perceber o que poderá fazer Donald Trump se, como sucedeu no passado, o "aviso" desta noite não tiver sido suficiente. O que vem depois da guerra quando a guerra não chega?