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“É largamente exagerado pensar numa guerra mundial. Há riscos significativos mas não devemos entrar em pânico”

OMAR SANADIKI/ Reuters

A primeira lição fundamental do que há de ler, segundo investigadores ouvidos pelo Expresso, é esta: “Não podemos confiar em nada de forma independente”. Falamos do ataque dos EUA, de França e do Reino Unido à Síria, cujos contornos, motivações e consequências permanecem um mistério. Explicamos com seis perguntas e as devidas respostas a tensão e incerteza que se vive nestas horas - não só na Síria mas em todo o mundo. Porque 14 de abril de 2018 pode ter proporcionado um novo contexto: “É o fim da hegemonia dos EUA e o regresso a um mundo bipolarizado”. Será mesmo assim?

O que aconteceu?

“Meus companheiros, há pouco ordenei às forças armadas norte-americanas que lançassem ataques de precisão a alvos associados às capacidades de armamento químico do ditador sírio Bashar al-Assad”, anunciava Donald Trump numa mensagem transmitida pelas televisões. E ao presidente norte-americano juntaram-se o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra britânica, Theresa May.

Eram 02h em Portugal quando os EUA, o Reino Unido e França bombardearam a Síria. Primeiro, os aviões franceses saíram da base aérea de Saint-Dizier, nordeste de França. Minutos depois, as forças norte-americanas e britânicas deixaram a base militar conjunta em Chipre. Dirigiram-se para o alvo e dispararam. Segundo o Pentágono, foram usados mais de 100 mísseis.

Porquê estes locais?

Vista Geral da cidade de Damasco

Vista Geral da cidade de Damasco

SANA/ Reuters

Os bombardeamentos são retaliação ao alegado ataque químico do regime sírio em Douma, na região de Ghouta, há uma semana. Alegado porquê? Embora vários líderes já tenham assegurado que têm provas do que aconteceu, entidades internacionais com posições imparciais não confirmaram. Aliás, ainda este sábado as Nações Unidas enviaram uma equipa para investigar o uso de armas químicas no país.

Os ataques aéreos tinham três alvos: um centro de investigação científica no norte de Damasco (“investigação, desenvolvimento, produção e testes de armas químicas e biológicas”, justificou o chefe de Estado-Maior Conjunto dos EUA), um depósito/ armazém de armas químicas a oeste de Homs e um “importante centro de comandos”.

“Há pelo menos quatro correntes para justificar a escolha dos locais: a primeira - e oficial - é porque se trata de locais de produção e armazenamento de armas químicas, a segunda é porque apesar de tão terem sido atingidos alvos russos, os locais bombardeados são próximos de posições da Rússia, a terceira é que são junto a bastiões em que o regime está a conseguir marcar posição, por último, o quarto, a justificação é que se trata de um encobrimento de provas dos ataques químicos, pois há a teoria de que este foi todo encenado e o ataque desta sexta-feira serviu para apagar qualquer registo”, enumera ao Expresso Maria João Tomé, investigadora no ISCTE-IUL para as regiões da Ásia Ocidental e Norte de África.

Os locais em causa, segundo o Observatório sírio para os Direitos Humanos, tinham sido evacuados no início da semana, pois as autoridades tinham sido avisadas de que algo poderia estar para acontecer. Para José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), se os EUA já sabiam que aqueles eram locais de produção de armas químicas, “porque não se tratou politicamente a questão antes de atacar?”.

Há vítimas?

LOUAI BESHARA/ Getty Images

Ambos os lados do conflito dizem que não há vítimas mortais na sequência dos bombardeamentos desta madrugada. Também as Nações Unidas referem que fontes russas e norte-americanas asseguram que ninguém morreu, no entanto a própria ONU não é capaz de confirmar essa informação de forma independente.

Para ambos os investigadores portugueses ouvidos pelo Expresso, há interesse nos dois lados do conflito em que não existam mortos. “Não podemos confiar em nada de forma independente. Por um lado, temos a versão dos EUA, de França e do Reino Unido; depois temos a versão da Rússia. Até admito que haja mais vítimas do que aquelas que são referidas”, diz José Pedro Teixeira Fernando.

Maria João Tomé explica que, por um lado, o regime de Bashar al-Assad quer passar a imagem de que ninguém morreu porque o Governo foi “capaz de parar todos os mísseis” e que conseguiu “proteger o povo”. Por outro, os EUA e aliados justificam que se tratou de um “ataque com alvos cirúrgico e objetivos específicos para não atingir civis”.

Segundo a televisão estatal síria, três civis ficaram feridos.

Quem reagiu?

O Conselho de Segurança da ONU reuniu de emergência

O Conselho de Segurança da ONU reuniu de emergência

EDUARDO MUNOZ/Reuters

Donald Trump foi o primeiro a anunciar que tinha dado ordem para o ataque à Síria. Seguiram-se Emmanuel Macron, presidente francês – que quer regressar às negociações -, e Theresa May, primeira-ministra britânica – que considerou que o ataque “tratou-se de uma mensagem clara”. Os três confirmaram os bombardeamentos ainda durante a madrugada deste sábado.

Já durante o dia, o presidente norte-americano mostrou-se satisfeito com o resultado da operação: “Missão cumprida. Obrigado à França e ao Reino Unido pela sabedoria e capacidade dos excelentes exércitos”. Do lado do Governo sírio, Bashar al-Assad considerou que “esta agressão não faz mais do que reforçar a determinação em continuar a lutar e esmagar o terrorismo, em cada parcela do seu território”.

A Rússia defendeu que se tratou de um “ato de agressão contra um estado soberano” e alertou que pode haver consequências. O embaixador russo nos EUA disse ser uma ameaça direta a Moscovo e um insulto “inaceitável e inadmissível” a Vladimir Putin.

Portugal “compreende as razões” do ataque lançado pelos “amigos”, sublinhado que o “regime sírio deve assumir plenamente as suas responsabilidades.” Tal como o Governo português, todos os restantes membros da NATO apoiaram o ataque.

O Conselho de Segurança da ONU, que se reuniu de emergência, optou por não condenar o bombardeamento, enquanto a União Europeia reforçou que “está ao lado dos seus aliados e ao lado da justiça”.

O que pode acontecer?

LOUAI BESHARA

Quando surgiram as primeiras notícias dos bombardeamentos, soaram alarmes. Falou-se até da possibilidade de ser o começo da III Guerra Mundial. “Acho que é largamente exagerado”, sublinha o investigador do IPRI. E continua: “Há riscos significativos mas não devemos entrar em pânico”.

José Pedro Teixeira Fernandes lembra que é preciso esperar e perceber se realmente se tratou de um bombardeamento isolado ou se há ações planeadas para o futuro, tal como perceber realmente se algum alvo russo ou iraniano foi afetado. “Se não houver nada, dentro de dias pode levar ao dissipar de tensões. A sensação que fica é que se tentou fazer uma ação militar sem que houvesse uma escalada de tensão (...) A questão é que talvez tudo isto era evitável”, diz o investigador.

Para Maria João Tomé, este 14 de abril de 2018 pode marcar um virar de página: “É o fim da hegemonia dos EUA e o regresso a um mundo bipolarizado”. De um lado os EUA e os aliados, do outro a Rússia, a China e o Irão (“três grandes potências que estão a ofuscar os norte-americanos”). Embora seja aquilo que considera um mundo a fazer lembrar os tempos da Guerra Fria, a nível económico a história deverá ser agora bem diferente, porque “vivemos num mundo global e isso também se aplica ao comércio”. “Estamos a assistir a dois blocos de países que se estão a afirmar em termos do controlo do mundo”, diz.

Quais as consequências para Portugal?

Para Portugal não há propriamente consequências diretas. No entanto, como membro da NATO tem alianças e amigos junto dos EUA, do Reino Unido e de França.

“Não estamos na primeira linha do conflito, nem temos meios para estar. São aliados de Portugal e por isso há que mostrar compreensão, é muito esse o papel de Portugal. E foi isso que o ministro dos Negócios Estrangeiros fez”, sublinha José Pedro Teixeira Fernandes.