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“É incompreensível a demora e a natureza deste ataque na Síría”

OMAR SANADIKI/ Reuters

O que é que o timing, a dimensão do ataque, as entrelinhas, as ameaças e os factos nos dizem sobre o que aconteceu na Síria na madrugada desta sexta-feira para sábado, após o bombardeamento norte-americano? “Ao fim de mais de uma semana [após o alegado ataque químico na Síria], esperar-se-ia mais qualquer coisa”, diz o investigador Luís Tomé

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Vladimir Putin já avisou que responderá aos ataques realizados na madrugada deste sábado pelos EUA, França e Reino Unido contra alvos associados à produção de armamento químico na Síria, mas Luís Tomé, professor de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa, não espera quaisquer retaliações, sobretudo se a estes ataques não se sucederem outros nos próximos tempos e se não houver uma clara estratégia de longo prazo, como parece ser o caso. “Retaliar seria assumir que os ataques aconteceram e que há armas químicas no país e não me parece que tanto a Rússia como o Governo sírio o façam.”

Logo após o alegado ataque químico que matou pelo menos 40 pessoas na Síria há uma semana (o número de vítimas foi divulgado por organizações não-governamentais e grupos de monitorização do conflito no local), Donald Trump prometeu uma resposta imediata, nas “24 ou 48 horas seguintes”. Acabou por demorar mais tempo, facto que Luís Tomé considera “incompreensível”. “Não se compreende porque é que demorou tanto tempo. Deu tempo para Bashar al-Assad e os seus aliados esconderem as suas capacidades, eventualmente tentar apagar os rastos da utilização das armas químicas e colocar potenciais alvos sírios em bases e aeronaves russas. Ainda por cima acontece num contexto em que há inspetores no local a confirmar se foram ou não utilizadas armas químicas”, diz Luís Tomé, referindo-se aos membros da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) que se encontram em Douma. Em comunicado divulgado este sábado, a organização garantiu que vai manter o inquérito ao alegado ataque químico.

Para o docente da UAL, é tanto mais incompreensível a demora quanto o foi a natureza deste ataque concertado, “muito cirúrgico e episódico” e “apenas destinado a mandar uma mensagem política e castigar um comportamento tido como inaceitável, como o uso de armas químicas”. “Depois de todas as ameaças que foram sendo feitas longo da última semana, e tratando-se não este do primeiro mas do segundo ataque a que os EUA prometeram uma resposta, esperar-se-ia mais qualquer coisa. É caso para dizer que a montanha pariu um rato”, diz Luís Tomé. Em abril do ano passado, os EUA lançaram mísseis de cruzeiro Tomahawk contra uma base aérea síria em al-Shayrat, nos arredores de Homs, em resposta ao ataque do regime sírio com gás sarin que matou mais de 80 pessoas em Khan Sheikhoun, na província de Idlib.

Para Luís Tomé, ambas as partes “tentaram ganhar tempo” esta semana para decidir uma estratégia, tendo Bashar al-Assad e a Rússia convidado a OPAQ para ir ao terreno investigar precisamente com essa intenção, para “deslegitimar uma possível intervenção dos EUA”. “Dá a entender que os EUA lançaram este ataque para dizer que lançaram, mas ao mesmo tempo quiseram dar tempo a Bashar al-Assad para esconder algumas coisas, permitindo à Rússia dizer que não houve qualquer ataque, como já veio dizer.”

Se for esse o caso, ou se a mensagem que passar for de facto a de que a intervenção americana foi “demasiado simbólica por medo de retaliações da Rússia” e para “dar mais margem de manobra à Rússia e aliados para atuarem”, então isso será “muito problemático”, antecipa Luís Tomé, salvaguardando contudo que ainda é cedo para retirar conclusões. “Pode ser que este seja apenas o primeiro ataque de uma estratégia mais ampla.”

Quando anunciou os ataques em conferência de imprensa, Donald Trump deu a entender que a retaliação não iria ficar por aqui. “Estamos preparados para continuar isto até o regime sírio parar de utilizar armas químicas”. Outros representantes do Governo americano já disseram, contudo, que tanto os EUA como os seus aliados não pretendem dar continuidade à ofensiva aérea.

Questionado sobre se a resposta norte-americana poderá dar um novo alento à oposição em falência na Síria, Luís Tomé considera que sim, embora isso “dependa” da decisão dos EUA de continuar ou não os ataques. “Se ficarmos apenas por este bombardeamento e se se confirmar que as forças americanas vão de facto sair da Síria, não tendo os EUA como objetivo fazer cair Bashar al-Assad, é evidente que a oposição ficará entregue a si mesma e que o sonho de aproveitar este contexto para alcançar alguns dos seus objetivos morre por aqui”, diz o investigador, acrescentando que também aqui se corre o risco de transmitir uma “mensagem perigosa”. “De cada vez que os EUA e o Ocidente quiserem utilizar aliados no terreno noutros conflitos estes vão pensar duas vezes porque sabem que a qualquer momento podem ser abandonados. Depois de sete anos de guerra de um regime brutal, de milhões de deslocados e refugiados e centenas de milhares de mortes, se voltarmos ao início e voltarmos a ter Bashar al-Assad a controlar a situação, isso será muito perigoso e abrirá precedentes complicados para eventuais cenários futuros.” Um antigo residente em Daraa, província no sudoeste da Síria controlada maioritariamente pela oposição, dizia ao Expresso na madrugada de sexta-feira estar contente com os ataques de retaliação, garantindo que a população daquela região estava igualmente satisfeita.

Sobre a situação de crise na Síria e a resposta dos EUA, Reino Unido e França, Luís Tomé diz que “falta definir uma estratégia consequente e expressá-la e justificá-la aos vários interlocutores, desde logo para que aliados e parceiros, mas também todos nós, percebamos afinal de contas o que se pretende para o país” (a porta-voz do Pentágono, Dana W. White, afirmou numa conferência de imprensa este sábado à tarde que os EUA não têm o objetivo de depor o regime de Assad ou mudar a estratégia de não intervenção que têm delineada para a Síria desde o início do conflito). “Se não se pretende nada além de dar a vitória a Assad, então mais vale negociar os termos da paz e evitar mais guerra e mais mortos. Guterres já disse que a região está um nó górdio, que não há saída e que estamos apenas perante a tragédia humana”, diz o investigador, para quem não vale de facto a pena “alimentar intervenções militares, bombardeamento e a entrega de armamento a grupos rebeldes”. “É preciso negociar a paz.”