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Donald Trump mudou de apelido (durante umas horas e para algumas pessoas)

Carlos Barria / Reuters

Os conservadores viraram-se contra Donald Trump e muitas foram as vozes críticas, dentro do seu círculo de apoiantes, a expressar incompreensão quanto ao ataque que o Presidente dos Estados Unidos lançou na Síria. Um deles deu-lhe um novo nome

Ana França

Ana França

Jornalista

O homem que disse que poderia alvejar outro homem no meio da Quinta Avenida, em Nova Iorque, e mesmo assim ser eleito Presidente dos Estados Unidos irritou de sobremaneira a sua sólida-às-vezes-fanática base, quando decidiu lançar um ataque militar na Síria. Alguns dos seus defensores mais ferozes recorreram ao Twitter, rede social à qual ele também recorre bastante, e deixaram correr os insultos. Donald Bush foi o nome que um conservador lhe deu pela sua predisposição para conflitos internacionais.

Os argumentos da maioria das pessoas descontentes com Trump tocam na “futilidade” do ataque e no facto de ter sido “reativo” e “imponderado”, comparando esta decisão do Presidente às de George W. Bush. “Perdemos. Máquinas de guerra bombardeiam a Síria neste momento. Tristes belicistas raptaram a nossa nação”, escreveu no Twitter o conservador e locutor de rádio Michael Savage. Poderíamos esperar de um conservador patriótico que apoiasse a imposição do suposto código moral superior dos norte-americanos ao resto do mundo mas uma grande parte da sua base agarrou-se ao slogan “American First” e não o quer largar. Entre a sua base há milhões de pessoas que estão muito mais preocupadas com o investimento interno, segurança nacional, imigração, empregos e condições das escolas do que propriamente com as guerras que se passam a milhares de quilómetros e drenam os recursos do Estado.

Quem chamou a Donald Trump “Donald Bush” foi Mike Cernovich, um ex-superfã de Trump e autor de vários livros sobre o pensamento conservador. Mas os ataques dos conservadores continuaram pela noite dentro. “Parabéns à Administração Bush por adotar a mesma política externa desastrosa e o desrespeito pela Constituição que se notou nas últimas duas administrações”, escreveu no Twitter Doug Stafford, estratega do Senador Rand Paul para o seu projeto de limite apertado da influência do Estado na vida pública, o RANDPAC. Até Ann Coulter, que um dia escreveu que não acreditava que o furacão Harvey fosse castigo de Deus por Houston ter uma presidente da Câmara mas que isso era mais credível do que o aquecimento global, parece estar contra Trump. Além de ter republicado várias pessoas que questionavam a intervenção militar, foi “repescar” alguns tweets do próprio Trump, que, em 2013, se revelou contra a intenção do ex-Presidente Barack Obama em responder com o mesmo tipo de ataques a idênticas suspeitas sobre o uso de armas químicas na Síria. Trump tem andado aos ziguezagues nesta questão. Há uma semana tinha prometido retirar todos os meios militares do país.

Tucker Carlson e Laura Ingraham, dois pivots da Fox News - de todas as cadeias televisivas norte-americanas, é a menos crítica de Donald Trump -, questionaram a decisão do Presidente. Carlson frisou que essa manobra entrava em contradição com o que ele prometeu em 2016 e Ingraham disse que o Iraque era a prova que intervenções militares nem sempre têm os melhores resultados. Mas a reação mais extrema foi a de Alex Jones, fundador da página Infowars, que publica com frequência teorias da conspiração mirabolantes, histórias falsas ou exageradas e que sempre apoiou publicamente Trump. Num programa de rádio, Jones desfaz-se em lágrimas porque Trump, diz ele, “conseguiu estragar tudo”. “Se ele tivesse sido uma treta de um Presidente desde o início agora não seria tão triste. Mas para todos nós que o apoiámos, a nossa luta foi toda por água abaixo. Ele está-se borrifando para nós. Dá-me nojo”, disse pelo meio de soluços.