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Anatomia de um ataque: de onde partiram, que armas usaram e que alvos atacaram os aliados na Síria

Cpl L MATTHEWS / BRITISH MINISTR

"O maior envio de forças militares para a zona desde a guerra do Iraque" era o título da notícia na revista TIME, ilustrada com o porta-aviões norte-americano U.S.S. Harry S. Truman que tem capacidade para transportar 90 aviões e que, na quarta-feira, dois dias antes deste ataque, saiu da Virginia em direção ao Mediterrâneo. Menos de 48 horas depois, EUA, França e Reino Unido atacam a Síria. De onde foram lançados esses ataques e que armas foram utilizadas?

Ana França

Ana França

Jornalista

Eram quatro da manhã em Damasco quando os Estados Unidos, num esforço militar coordenado com a França e o Reino Unido, lançaram um ataque militar contra alvos específicos do aparato de defesa do presidente sírio Bashar al-Assad. Não saíram nem um milímetro do discurso ensaiado: esta era uma retaliação contra o uso de armas químicas por parte do exército sírio, com alvos específicos e longe de áreas habitadas. Então, quando eram 04h00 em Damasco e 02h00 em Lisboa, o que estava escuro e silencioso sobressaltou-se e várias linhas de luz começaram a cruzar os céus dos arredores da capital da Síria. O Pentágono diz que foram disparados mais de 100 mísseis. Mas como é que, de facto, se desenrolou o ataque?

Os pormenores começaram a chegar ainda antes de ser dia. Segundo o Ministério da Defesa do Reino Unido, quatro aviões Tornados da Royal Air Force saíram da base britânica de Akrotiri, no Chipre, e dispararam mísseis Storm Shadow sobre uma antiga base de mísseis na Síria, perto de Homs, a 160 quilómetros norte de Damasco, onde os serviços de informações dos três países acreditam que o governo sírio tem armazenado armas químicas.

Os Tornados utilizados são do tipo GR4, o mais avançado avião no arsenal do Reino Unido quando se trata de ataques com mísseis. Como carga levam os tais Storm Shadow, um míssil de quase 500 quilos que pode viajar 400 quilómetros sem perder a precisão do seu destino. Os aviões da RAF não teriam que ter entrado em espaço aéreo sírio para realizar este ataque.

Como tem sido repetido um pouco por todos os governos envolvidos, a ação militar da madrugada de sábado quis “maximizar a destruição dos produtos químicos armazenados e minimizar quaisquer riscos de contaminação para as áreas circundantes”, segundo se lê num comunicado do governo britânico difundido esta madrugada.

A ofensiva teve como alvos instalações utilizadas para produzir e armazenar armas químicas, informou o Pentágono. O primeiro dos ataques, perto de Damasco, teve como objetivo um centro de investigação científica utilizado, segundo o chefe de Estado Maior Conjunto dos EUA, general Joseph Dunford, para a “investigação, desenvolvimento, produção e testes de armas químicas e biológicas”. Um segundo caiu sobre um depósito de armas químicas situado a Oeste de Homs (a 160 quilómetros norte da capital Damasco); e um outro afetou um armazém de armas químicas e um "importante centro de comandos", ambos situados perto do depósito de armas químicas, ainda segundo Dunford.

Um pouco antes das forças norte-americanas e britânicas terem saído da sua base militar conjunta no Chipre, aviões franceses terão descolado da base aérea de Saint-Dizier, nordeste de França. O jornal “Le Figaro” já tinha revelado que Emmanuel Macron, Presidente francês, não iria utilizar as bases militares que mantém nos Emirados Árabes e na Jordânia para não antagonizar demasiado os parceiros na volátil região.

Os novos navios de guerra franceses estão armados com mísseis MdCN (Missile de Croisière Naval) e 16 canais de lançamento. A França manteve o alcance dos mísseis secreto mas a CNN fala que distâncias que podem chegar aos 1000 quilómetros. A ministra da Defesa de França, Florence Parly, colocou no Twitter o momento do lançamento, contagem decrescente incluída:

O Observatório sírio para os Direitos Humanos informou que os três alvos dos bombardeamentos foram evacuados pelo regime no início da semana, antevendo a hipótese de um ataque. “Tivemos um aviso dos russos sobre o ataque e todas as bases militares foram evacuadas há alguns dias”, disse à Reuters uma fonte ligada ao regime que também confirmou o lançamento de treze mísseis, cerca de um terço interceptados pelas defesas síria e russa. Segundo a televisão estatal síria, três civis ficaram feridos na sequência do ataque a uma das bases militares em Homs. O canal de televisão confirma ainda que ficou destruído o edifício onde se encontrava o centro de pesquisa e o laboratório.

É um "ataque-castigo" mas consequências políticas são inevitáveis - Putin já disse que este ataque é “um atentado contra um país soberano” e Trump já disse que a Rússia “não devia apoiar um animal que usa gás tóxico sobre a sua própria população”. O Observatório sírio para os Direitos Humanos informou que os três alvos dos bombardeamentos (um laboratório científico e dois depósitos de armas químicas) foram evacuados pelo regime no início da semana, antevendo a hipótese de um ataque. “Tivemos um aviso dos russos sobre o ataque e todas as bases militares foram evacuadas há alguns dias”, disse à Reuters uma fonte ligada ao regime. “Cerca de 30 mísseis foram disparados no ataque e um terço deles foi interceptado”. Segundo o canal estatal sírio, três civis ficaram feridos na sequência do ataque a uma base militar em Homs. O canal de televisão confirma ainda que ficou destruído edifício onde se encontrava o centro de pesquisa e o laboratório.

Na quarta-feira, o diário britânico “The Times” deu a notícia das movimentações marítimas do porta-aviões U.S.S. Harry S. Truman que saiu da sua base, na Virginia, com a rota apontada ao mar Mediterrâneo. Por essa altura já o U.S.S. Donald Cook, um navio com capacidade para destruir mísseis teleguiados e equipado com mísseis de precisão tomahawk, precisamente aqueles que Donald Trump usou contra bases militares na Síria há precisamente um ano, já estaria no Chipre. Uma fonte do departamento de Defesa dos Estados Unidos disse à CNN que a Força Aérea norte-americana tinha usado os seus aviões B-1, jatos de guerra supersónicos e jóias da coroa da aviação militar do país. Não se sabe que tipo de mísseis levavam mas a mesma fonte confirmou que os mísseis de precisão lançados foram lançados do ar. O mais provável é serem os “de sempre”, ou seja os tomahawk. Centenas de aviões, navios e submarinos britânicos e norte-americanos estão equipados com estes mísseis porque são capazes de voar muito perto do solo, desviam-se de alvos fixos no caminho dado o seu sistema de “orientação” incorporado e podem mudar de rota se o controlador assim o desejar. Não há confirmação de qual terá sido o ponto de partida dos B-1 mas a mesma fonte disse à CNN que, alguns dias antes do ataque, vários jatos chegaram à base de Al Uldeid, no Qatar.